segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

OS PALHAÇOS DE DEUS de Morris West

Os olhos do leitor são juízes mais difíceis do que os ouvidos do espectador”

Voltaire


OS PALHAÇOS DE DEUS é um dos livros da chamada “trilogia Papal” de Morris West, juntamente com “As Sandálias do Pescador” e “Lazarus” (ou entre nós “O Milagre de Lázaro), trio de obras esse onde o autor nos confronta com a vida interna do Vaticano, e a problemática da religião. Um grande autor, dasaparecido em 1999, e que começa a sua carreira internacional com o “Filhos do Sol”, um romance sobre a vida das crianças de rua de Napoles, que aconselho fortemente.
Talvez as obras mais conhecidas sejam as que passaram ao cinema, como “As Sandálias do Pescador” e “O Advogado do Diabo”, mas atrevo-me a sugerir qualquer obra deste autor, que faz parte dos meus favoritos. Tem obras absolutamente magnificas, e dentro da temática religiosa é dos escritores que melhor aborda o tema da vida eclesiástica.

Este livro, “Os Palhaços de Deus” trata da viagem de um Papa num cenário pré-apocaliptico, e conduz-nos a um desfecho surpreendente e é, como aliás quase todos os seus livros de uma leitura compusiva e absolutamente hipnótica.

Como é habito nestas crónicas o objectivo tem sido o de sugerir um livro e também falar um pouco da sua obra, sem outra preocupação que não seja a de manifestar a minha opinião pessoal sobre o livro em titulo mas mais sobre a obra dos respectivos autores. A partir da próxima crónica, no intuito sugerir mais livros, passarei a indicar duas ou três leituras semanais para uma melhor escolha e para variar de género e autores.

PARA A SEMANA: VISÃO GLOBAL – Conversas para entender o Mundo - de José Cutileiro e Ricardo Alexandre (Prime Books) e AQUI NA TERRA de Miguel Carvalho (Deriva)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)

A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

Entradas:

CAMINHOS DE GLÓRIA de Jeffrey Archer (Europoa-América)

CITAÇÕES E PENSAMENTOS DE FERNANDO PESSOA de Paulo Neves da Silva (Casa das Letras)

HISTÓRIAS EXTRAORDININÁRIAS de Edgar Allan Poe (Leya)

A VIAGEM DO ORIENTE de Le Corbusier (Cosac Naify)

BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA de Pablo de Jevenois (Esquilo)

Até para a semana com votos de um Feliz e Próspero 2010!!!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Aos meus Amores……que são o meu futuro todos os dias.



O futuro já foi… o peito da minha mãe, o olhar do meu pai, a minha irmã pequenina, o bibe da escola, a mochila, o saco de pano bordado para levar o pão com marmelada para a escola, a lousa e os livros, o recreio da escola, as férias de verão, o andar com os amigos, uma escola, outra escola, ainda outra escola, as prendas de Natal, a televisão a cores,a aparelhagem de musica, os discos de vinil, não ter horas para chegar a casa dos pais, estudar fora. Depois, sem nos darmos conta, o futuro estava nos olhos daquela menina, e depois os olhos de outra. O primeiro filho, todos os filhos. Durante essa época, passou a ser a casa, o trabalho, as férias do trabalho, outra casa, outro trabalho, as férias desse trabalho. A escola dos putos. De repente deixou de haver futuro, porque só havia presente. E muita gente a passar, a passar de futuro a passado sem nos darmos conta, até que voltou a haver futuro, onde já nem passado havia.

E o futuro volta a ser um peito de mãe, um colo de pai, uma irmã pequenina, uma promessa de vida realizada, e Amor. Não há futuro sem Amor.

E nestas linhas, que a cada palavra são passado e a cada imagem presente, vejo o meu futuro, não como antigamente mas como memória do que há-de vir. O passado foi o nosso futuro possivel, antigamente. O futuro é, como deve ser, como antigamente, o amanhã de Esperança, a Felicidade dos Amigos, um abraço sentido, um reencontro, todas as partidas, o chegar sem ter partido, o estar com os nossos.

Terá dor, e perda e morte, porque o futuro é assim, não sente, só nós o sentimos, enquanto passa numa brisa constante que ora é calma e morna ora se torna em tormenta que gela.

Ou haverá muitos futuros? Um para cada encruzilhada da vida? Talvez, do futuro só sei que o fazemos um bocadinho todos os dias, e que os atalhos que a vida contém, só os fazemos uma única vez. Não sei o que é o futuro, se a nossa memória vivida, se o passado dos dias que vem. Ou ainda só haverá um futuro, inscrito no peito e na alma, sem hipótese de fuga, a obrigar o nosso caminho e traçá-lo nas nossas costas? Será esse futuro-Fado verdade? Não sei, também.

E hoje? Que há? Há passado, tal como antigamente. E futuro, também como antigamente. E o futuro continua a passar, cada vez mais passado, cada vez mais presente. E o futuro volta ao passado, volta aos olhos desta menina e ao sorriso de outra, pequenina, de tão grande que é.

E o futuro e o antigamente vivem dentro de nós. A memória do que fomos e somos e a centelha do que viermos a ser. Um bocadinho todos os dias. O futuro é a Vida, que nos vai fazendo e desfazendo, até um dia sermos finalmente nós.

Para o autor do desafio Miguel Carvalho, deixo-o com a letra de um Fado, encantadoramente “kitsch”,cantado pelo enorme João Correia, rencontrado numa das curvas da Viagem, em dueto com o Fernando João, num dos meus futuros passados:

É tão bom ser pequenino / ter Pai, ter Mãe ter Avós / ter esperança no Destino / e ter quem goste de nós…

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assírio & Alvim)

“Não importa quantos livros temos, importa o quão bons eles são” Séneca



Para ser absolutamente claro desde o início, deixem-me começar por dizer que, para mim, o Miguel Esteves Cardoso é uma espécie de Deus das crónicas. Desde a “Causa das Coisas” que o acompanho, com maior ou menor assiduidade, até aos dias de hoje, onde, de facto com menor frequência vou lendo o que publica na revista GQ, mas valha a verdade, não é pelo facto de estar a escrever menos bem, é o tema que não me parece grande coisa. É algo como: “A história de Portugal atravez dos gajos”. Acho que o homem, manifestamente, dá para mais e melhor. Se bem que para quem escreve estes textos avulsos sobre o que os outros escrevem, como eu, se calhar é um bocado petulante este reparo. Mas enfim, quem não nos quer desiludir não nos habitua mal.

Este livro reune as crónicas para o extinto suplemento DNA do Diário de Noticias e versa sobre o exacto tema que lhe dá o titulo, a gastronomia portuguesa.

Há crónicas para todos os gostos (e neste caso paladares), e, de forma não sistematizada, nesta obra vamos fazer uma viagem ao centro da gula. Sim, que se retira desta compilação de crónicas uma evidência, o Sr. Esteves Cardoso é o que se chama cá na terra um “lambão”.

De qualquer forma, faz aquilo que considero absolutamente primordial que é a defesa da cozinha portuguesa tradicional, aliás, numa das suas mais bem conseguidas crónicas, contrapõe o que é a nossa cozinha de raizes marcadamente lusitanas à dita cozinha mediterranica, da qual nos afasta com argumentos muito espirituosos. Nota-se como em tudo o que o MEC escreve a sua matriz conservadora, e a determinada passo, saudavelmente reaccionária, quando se insurge contra as novas tendências de “fusão” e as experiências gastronómicas de uma ou de outra forma põe em causa o purismo da autêntica gastronomia nacional.

Leva-nos também por muitos dos templos de bem comer em Portugal, com destaque evidente para o Gambrinus e o Porto de Santa Maria em Lisboa e o incontornável Aleixo no Porto, onde, passe a imodéstia, aqui este vosso amigo é recebido como se estivesse em casa.

Faz a defesa das matéria primas originais e da sua origem, e defende que o dificil é manter e repetir bem feito, aquilo que está apurado por várias gerações de cozinheiros e cozinheiras. É um livro que vale a pena ter, para ler e reler e refletir em muitas opiniões, que ditas de uma forma ligeira e sempre bem disposta nos traçam o mapa de um País onde de facto “não se come mal”.

Para adjectivar o livro própriamente dito, apenas uma palavra: “delicioso”.



PARA A SEMANA:

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)

NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)

A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

VISÃO GLOBAL – Conversas para entender o Mundo - de José Cutileiro e Ricardo Alexandre (Prime Books)

Entradas: Semana de Natal, aguardamos o “sapatinho” para novidades.

Até para a semana com votos de BOAS FESTAS!!!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Simbolo Perdido de Dan Brown (Bertrand)

Os livros podem ser divididos em dois grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre.

John Ruskin

É o quinto livro de Dan Brown que leio, como toda a gente comecei pelo incontornável “Codigo Da Vinci”, recuperei a cronologia da obra ao ler aquele que de facto foi o seu primeiro romance, “Anjos e Demónios”, ao que se seguiram “A Conspiração” e “Fortaleza Digital”. Este “O Simbolo Perdido” não foge à fórmula de sucesso dos anteriores. O herói, o já bem conhecido e publicitado Robert Langdon, vai perseguir mais um criminoso em busca de uma verdade escondida. Neste livro, a caracterizaçao do universo maçónico, seus ritos e simbologia é bem descrita, e a fazer fé em alguns especialistas no fenómeno, bastante próxima da verdade factual.

Há no entanto algumas diferenças entre este romance e os anteriores em termos de trama. Aqui, neste livro, se bem que se faz, como nos anteriores uma busca exaustiva do conhecimento disponível acerca de uma hipotética Palavra fundamental, não há interesses organizados ou seitas que se proponham utilizar esse conhecimento em proveito próprio, aqui, o criminoso age movido por outros interesses.

A escrita de Dan Brown, assenta em algumas premissas, aparentemente fáceis de reproduzir, mas que se revestem de uma base de conhecimento bastante estruturada e bem vertida em cada página. A cadência da acção é o fundamental.

É natural que se repare que os capitulos são bastante curtos, com constantes mudanças de cenário e personagens e pelo meio, outros trechos que introduzem o passado das personagens e as explicações de toda a simbologia associada, e dos sempiternos criptogramas e charadas que o protagonista tem de resolver ao longo da estória. Normalmente também há um prazo, de algumas horas a poucos dias, em que toda a história se passa. Isto cria uma espécie de vertigem de leitura que a determinado ponto de torna quase compulsiva.

Creio que é absolutamente um “livro de moda”, mas cumpre na integra aquilo que dele se espera. Que entretenha. E não me parece que a função deste género de romances seja outra. Independentemente de se associar alguma polémica, nomeadamente aos romances onde Robert Langdon é protagonista, nos dois primeiros com a Igreja (o sagrado feminino do Código da Vinci e o “Camerlengo” assassino de “Anjos e Demonios”, e de neste livro se atirar noutra direcção, o esquema de evolução das estórias é demasiado parecido, e sim, bem sucedido para que o autor mude esta receita que lhe permite vendas fabulosas a nivel global. Sendo que a propria polémica que antecede e sobrevive aos livros de Dan Brown também começa cada vez mais a fazer parte da máquina de marketing que rodeia estes lançamentos. Ou não antecipassemos nós, que cada vez mais estes livros são pré-argumentos cinematográficos à espera de Tom Hanks.

De qualquer forma, é sempre uma boa prenda de Natal, é preferivel oferecer um livro para ler do que um para decorar estantes. Mesmo que acidentais.

PARA A SEMANA: EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assírio&Alvim)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)

NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)

A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

Entra: (Oferta do Amigo e Autor) - VISÃO GLOBAL – Conversas para entender o Mundo - de José Cutileiro e Ricardo Alexandre (Prime Books)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O Talentoso Mr. Ripley de patricia Highsmith

“Uma das coisas maravilhosas de um livro, em contraste com um ecran de computador, é que o podemos levar para a cama connosco

DANIEL J. BOORSTEIN

O TALENTOSO MR. RIPLEY de PATRICIA HIGHSMITH

Patricia Highsmith é a “mãe” dos thrillers psicológicos, introduz no romance, quase sempre no género policial/crime, várias componentes poucas vezes antes tentadas. Há certamente uma caracteristica que é altamente invulgar na escrita do género e que raramente se encontra em obras anteriores às desta magistral autora, o crime sem castigo. Cria também um ambiente onde as motivações para o crime absolutamente banais, o que é recorrente na sua obra, mas conseguimos reconhecer como possiveis os processos mentais das suas personagens-limite. Não é simplesmente a noção de anti-herói, ou de herói-vilão, é a caracterização do universo interior das personagens que ou é absolutamente desprovida de remorso e sentimentos sobre os crimes, que de uma forma ou outra cometem, ou contém um sentido que nos escapa a principio.

A banalização do crime, a ausência de sentimento de culpa e o mais absoluto desprezo pelas convenções são muitas vezes os signos pelos quais se regem as suas personagens, entre as quais avulta, pela absoluta originalidade uma criação ímpar:

Destaca-se da sua obra a chamada “Riplíada”, uma série de romances à volta da genial personagem de Thomas Ripley, obras das quais o titulo de hoje é a primeira. Publicado pela primeira vez em 1955 (The Talented Mr. Ripley), e pela ultima em 1991 (Ripley Under Water), esta personagem é assombrosa e de difícil descrição.

Neste primeiro romance assistimos a um Tom Ripley que se assume gradualmente como sendo outra pessoa até a uma transformação quase absoluta. Para dar uma pequena introdução à estória, Ripley é contactado por um milionário que procura noticias do seu filho que está na Europa a viver uma vida de fausto e “glamour” a fim de o recuperar para que se estabeleça nos negócios da familia. Ripley, que é apenas um vago conhecido de Dickie Greenleaf, viaja para Itália onde contacta com Greenleaf, e, acaba por, apaixonado pelo estilo de vida luxuosa e fácil do milionário, o assassinar e tomar o seu lugar. É este o ponto de partida para uma história onde um pequeno burlão sem escrúpulos se torna uma das mais míticas personagens literárias do universo policial.

E em todas as obras subsequentes onde reaparece Tom Ripley há um fio condutor comum, todos os seus actos nrem o condenam nem o redimem. É a personagem amoral por excelência.

Para quem conhece é um dado adquirido, para quem não entrou neste universo ainda, tem todos os motivos para o fazer.

PARA A SEMANA: O SIMBOLO PERDIDO de DAN BROWN

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)

EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assírio & Alvim)

NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)

A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)

A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A VERDADE de Edward Docx (Civilização)

“Ler tornou D. Quixote num fidalgo, acreditar no que leu tornou-o louco”
George Bernard Shaw (1856-1950)


Escrevo estas linhas ainda na ressaca da leitura daquele que é, para mim certamente, o melhor livro que li nos ultimos anos. Corro o risco de o afirmar. É absolutamente grandioso. Ao titulo original Self Help(em Inglaterra) ou Pravda (Estados Unidos) , o editor em Portugal preferiu “A Verdade” (Pravda, em russo, como o famoso jornal soviético). E é um livro de verdade, sobre a verdade e a sua ausência. Começa a acção em Sampetersburgo, Russia, com a morte de Masha, a mãe dos gémeos Isabella e Gabriel Glover. As descrições de uma ex-Stalinegrad absolutamente atípica, as idiossincrasias dos seus habitantes, a crueza de uma cidade tantas vezes retratada como uma das mais belas do Mundo sente-se nestas páginas. A escrita de Edward Docx é um monumento à depuração das frases e palavas, é a antitese do romance fácil, é uma leitura que nos sobressalta e faz reflectir muitas vezes, os dilemas dos personagens e as suas posturas perante os acontecimentos.
Com capitulos em Nova Iorque, Londres e Paris também, vemos que a distância geográfica entre as personagens não as torna mais distantes do que a simples ausência de verdade entre elas. Este é de facto um livro sobre um valor que se entende absoluto na essência: A Verdade, e, muito para além disso, explora o que pode significar esse dogma no quotidiano.
Há um irmão que não é irmão, um pai que também é irmão, um avô que também é pai, uma mãe que não é mãe, uma mãe que nunca o chegou a ser, um pai sexualmente devasso que atravessa toda a trama até se revelar por completo no final, ha também um heroinómano ex-seminarista inglês que lentamente se destrói até à redenção. Uma galeria de personagens absolutamente complexas e descritas com mestria em todas as suas dimensões e no seu espaço na vida.
Um destes dias um caro amigo leitor destas crónicas enviou-me um email onde expressava a sua preferência pelos clássicos da literatura, pois eu lhe garanto que, neste livro encontra tudo aquilo que espera de Dickens ou Dostoievsky, de um autor que é, de facto, uma lufada de frescura no panorama actual onde tudo se torna cada vez mais fácil e imediato.
Promete-nos o site do autor uma nova obra para 2010. Esperarei atenta e ansiosamente.


PARA A SEMANA: O TALENTOSO MR. RIPLEY de PATRICIA HIGHSMITH

NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)
A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

Lido: O SIMBOLO PERDIDO de DAN BROWN (BERTRAND)

Entra: (Oferta de amigo)CAFÉ ANCORA D´OURO – PIOLHO de Alfredo Mendes (Ancora Editores)

A RAINHA E EU de Sue Towsend (Difel)

Há pessoas que tem uma biblioteca como os eunucos um harém” Victor Hugo




Sue Towsend é, como provavelmente saberão, a criadora do espantoso personagem Adrian Mole, que surge em “O Diário Secreto de Adrian Mole”, as confissões de um adolescente inglês dos anos 80, cuja vida podemos acompanhar até ao ultimo livro da série, publicado em 2008 “Os Diários Perdidos de Adrian Mole”. São livros de um humor absolutamente genial, absorvido das coisas mais pequenas do nosso quotidiano, como só um grande observador da realidade, e, neste caso, uma grande escritora conseguem retratar. A realidade politica e social inglesa dos últimos quase quarenta anos é retratada livro após livro, sempre com um olhar sobre realidades que conhecemos, mas com uma visão satírica e muito bem disposta, nesta série Adrian Mole. Destes permito-me salientar os títulos : “Adrian Mole na Idade do Capuccino” e “Adrian Mole e as Armas de Destruição Maciça”, este ultimo uma critica directa à intervenção inglesa no Iraque, sempre com recurso à visão sempre algo alheada da realidade de A. Mole e às suas opiniões, a maior parte das vezes preconceituosas mas sempre profundamente ingénuas.
O livro de hoje está noutro registo da mesma autora, onde podemos encontrar também outros dois títulos anão perder : “Numero 10” e “A Rainha Camilla”. “A Rainha e Eu” é uma obra de História alternativa, parte de um cenário em que o uma vitoria eleitoral do Partido Republicano retira do poder a Monarquia, e manda a Família Real viver num bairro dos subúrbios.
Há passagens de um humor delirante que retratam A Rainha, o Príncipe Carlos, Diana de Gales (o livro é de 1993) e os Príncipes William e Harry a terem, subitamente, que viver como um agregado familiar de classe operária.
A descrição do contraste entre os tiques e a afectação da nobreza e os costumes (ou maus costumes) dos novos vizinhos e a interacção entre ambos, geram situações e descrições de um humor irresistível. Mais uma vez Sue Towsend prova nesta obra o seu talento e mestria com que expõe o ridículo, onde quer que ele se encontre.
É um bom livro, que entretém e sobretudo diverte, a ideia de base é muito bem trabalhada e o resultado global extremamente bem conseguido, com uma ressalva para o final, que, pessoalmente não me agradou totalmente.
De qualquer forma quem leu, sabe que há muitas e boas gargalhadas nas páginas deste livro, e que vale realmente a pena para quem goste de se divertir. No restante deixo também um pedido especial para que não percam a obra de Sue Towsend, especialmente a série Adrian Mole. Garanto que não se vão arrepender.

PARA A SEMANA: A VERDADE de Edward Docx (Civilização)
NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
O SIMBOLO PERDIDO de Dan Brown
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)
A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

MENOS QUE ZERO de Bret Easton Ellis (Edição de 1988 do Circulo de Leitores)

“Tenho toda a simpatia pelo Americano, que ficou tão horrorizado pelo que tinha lido acerca dos malefícios do tabaco… que deixou de ler.” Henry G. Strauss



Bret Easton Ellis é um autor difícil de catalogar, e a sua obra tem sido referida, como um dos expoentes da chamada X Generation, à qual também pertenço (os nascidos entre 1965 e meados dos anos 80), a par de, por exemplo, Jay McInernay. A sua obra descreve como poucas o verdadeiro universo da futilidade e da falta de sentido de vida de um certo estrato social.
Há personagens que se repetem nos diversos livros, mas há uma certa dissonância entre a forma como o autor se descreve a si próprio, declarando-se moralista e o que a critica proclama, ao rotulá-lo como niilista.
É um mundo cru e violento que nasce com o seu primeiro romance, este “Less than Zero”, titulo “emprestado” de uma canção de Elvis Costello.
De destacar sobretudo que este livro é escrito por Bret Easton Ellis com apenas 19 anos de idade, o que surpreende, pelo catálogo de perversões e de atitudes-limite das suas personagens.
Este género de escrita que é absolutamente desbravadora de um caminho novo na ficção, gera ao longo dos anos 90, uma série de seguidores, mais ou menos conhecidos, do qual talvez me atreva a salientar Irvine Welsh (Trainspotting, Filth e Ectasy) por exemplo. Se bem que em ambientes diferentes, há um certo retrato íntimo da degradação da juventude.
“Menos que Zero” é publicado em 1985, retratando as férias de Primavera (Spring break) de um jovem universitário que volta a Los Angeles para reencontrar uma galeria de amigos com estilos de vida extremos e famílias completamente disfuncionais, nos princípios dos anos oitenta.
Tem um elenco de personagens vagamente reconhecíveis por analogia e, apesar do cenário ser Los Angeles, e decorrer a acção num estrato social alto, com toda a espécie de comportamentos desviantes por parte dos intervenientes, conseguimos reconhecer o que caracteriza a época.
Uma descrição da vida urbana desregrada, de uma sociedade sem utopias, sem causas e sem valores a que se dedicar, o que, apesar da desproporção da comparação com a nossa realidade portuguesa da época, diz bem da descrença com que uma geração foi formatada.
Da restante obra, “As regras da atracção”, o fenomenal “American Psycho” e “Glamorama” são os títulos que li, e aconselho vivamente.
Não acredito, apesar de ser um autor de sucesso mundial, que tenha um estilo que agrade a toda a gente, mais pelo conteúdo, do que pela forma.
Mas como em tudo, é preciso ver, e sobretudo, ler.


PARA A SEMANA: A RAINHA E EU de Sue Townsend (DIFEL)

NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
O SIMBOLO PERDIDO de Dan Brown
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Asírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)

Entra: A MULHER CERTA de Sándor Márai (D. Quixote)

O PINTOR DE BATALHAS de Arturo Pérez-Reverte (Edições Asa)

Em certo tipo de escrita, particularmente na crítica de arte e na crítica literária, é normal depararmo-nos com longas passagens que são quase inteiramente desprovidas de sentido…”
George Orwell (1903-1950)


Este é, seguramente, o mais autobiográfico livro de Arturo Pérez-Reverte, o espanhol mais lido do mundo na actualidade, estando a sua obra traduzida em 29 línguas.
É autor de uma vasta obra onde pontificam romances históricos e a sua mais famosa personagem é o Capitão Alatriste. Dos que li, comecei pelo “O Clube Dumas” que deu origem ao filme “A nona porta”, passando por “O Mestre de Esgrima”, “A Rainha do Sul”, “O Cemitério dos Barcos sem Nome” todos eles excelentes.
O autor, ele próprio ex-reporter de guerra, neste “O Pintor de Batalhas” cria um universo perturbador, com memórias de cenários de tragédia, massacre e conflito.
A personagem principal, André Faulques, retirada e doente, recria numa pintura mural todos os cenários de horror das guerras, numa tentativa de emprestar sentido ao caos vivido.
É perseguido pela memória da mulher amada e, também por uma muito especifica fotografia que vai pôr no seu encalço um homem com uma obsessão mortal.
É deste encontro improvável entre o seu jurado assassino e o pintor/fotografo que viajando através da arte e do horror cru da guerra este romance se revela arrebatador.
Tem um crescendo pontuado pela improvável relação do homem que quer matar e do homem que já não deseja viver, remexendo em memórias de carne viva. Em todos os cenários de guerra, e guerra de todas as formas, quer a guerra entre nações aos mais violentos conflitos tribais e étnicos do nosso tempo, vemos pelo olhar da câmara de Faulques a morte em todas as suas mais violentas e desumanas situações.
Há um contraponto das estórias dos protagonistas e do próprio fresco que se vai pintando, até um desfecho perfeitamente imprevisível e absoluto.
É seguramente um ponto de referência na evolução da escrita do autor.
Toda a obra de Arturo Pérez-Reverte cresce no sentido da descrição do cansaço e desilusão dos heróis, de jornadas perigosas e sobretudo da morte, num registo pessimista e negro da realidade. É um exímio contador de histórias, e debruça-se também com grande brilhantismo sobre a História de Espanha e a tradição dos seus heróis mais ou menos anónimos.
Qualquer dos livros de Arturo Pérez-Reverte é uma boa introdução à sua obra, e estou certo, que, assim como para mim o é, também para qualquer amante de bons livros e estórias bem contadas se tornará um autor de culto.

PARA A SEMANA: MENOS QUE ZERO de Bret Easton Ellis (Edição de 1988 do Circulo de Leitores)

NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Asírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)
Entra: O SIMBOLO PERDIDO de Dan Brown
Lido: A VERDADE de Edward Docx (Editora Civilização)

UM GLADIADOR SÓ MORRE UMA VEZ de Steven Saylor (Quetzal Editores)

O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados não se pode fazer melhor(...) Talvez as suas componentes evoluam, talvez as páginas deixem de ser de papel, mas continuará a ser o que éUmberto Eco


Hoje, gostava de trazer a esta coluna, a colecção Roma Sub Rosa uma série de romances, na categoria de policial histórico, passada no final da Republica Romana, onde Gordiano o Descobridor, a personagem principal, é contemporanea de Sula, Cicero, Julio Cesar e Cleopatra, entre outros personagens históricos de relevo.
Todas as aventuras se passam nas ultimas décadas da Republica Romana e vamos acompanhando o ruir da Republica, atravez dos seus mais importantes episódios politicos e militares, sempre com uma visão muito detalhada e próxima desses eventos.
O mais interessante destes romances é uma perspectiva da Roma quotidiana, desde os aspectos mais simples da vida dos romanos, até à hierarquia politica e militar, os seus hábitos e costumes, a comida e a bebida e os eventos sociais, bem como a religião e os cultos da época.
Das personagens transversais a toda a obra, salientam-se Lúcio Claudio, o amigo e patrono de Gordiano e também Cicero, o mais famoso orador de Roma.
Contam-se também em muitos dos livros desta série, a presença histórica de Marco António, Pompeu, Crasso, Catilina, Luculo, Catão e tantos outros.
Gordiano é uma personagem que reúne algumas das caracteristicas que podemos encontrar em muitos dos detectives ou investigadores mais famosos, um Sherlock Holmes da Roma Antiga, que se envolve em mistérios que invariavelmente se passam ao mesmo tempo que decorrem factos históricos relevantes.
Neste livro acompanharemos Gordiano num conjunto de contos curtos: “A mulher do Cônsul”, “As actas do dia”,”Se um ciclope pudesse desaparece num piscar de olhos”, “A corça branca”, “O segredo da receita de Pompeia”, “Morto por Eros” e “Um gladiador só morre uma vez”, conto que dá titulo ao livro.
Para quem aprecia o género policial e o romance histórico, esta colecção da Quetzal faz o casamento perfeito, tendo o terminar de cada livro apenas como consequencia o desejo que o próximo venha sem demora.

PARA A SEMANA:

O PINTOR DE BATALHAS de Arturo Pérez-Reverte (Edições Asa)
NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Asírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)
A VERDADE de Edward Docx (Editora Civilização)
Esta semana não há entradas novas
LIDO: O Castelo de Vidro de Jeannette Walls (Gótica 2000)

A LINHA NEGRA de Jean Christophe Grangé - (Edições ASA)

“Um quarto sem livros é como um corpo sem alma.” Cicero (106 a.C – 43 a.C)


Jean Christophe Grangé é, e mais uma vez aqui ressalvo, o caracter puramente individual da apreciação, o mais talentoso escritor europeu na categoria de Romance Policial/Thriller. Foi-me introduzido, já há alguns anos, por “Rios de Púrpura” de 1998, que veio a resultar num filme (Os Crimes dos Rios de Púrpura de 2000, com Jean Reno e Vicent Cassel, talvez os dois actores franceses mais “exportáveis da actualidade.
Resta-me a este propósito, reafirmar que dificlimente um filme equivale ao livro, o que neste caso, mais uma vez assim é.
Como muitas vezes acontece, vim a ler a sua primeira obra, “O voo das cegonhas” posteriormente, o que confirmou, na altura, o que pensava, um autor para acompanhar atentamente, o que vou tentando fazer. Penso ter lido todas as obras até agora traduzidas em português e que aconselho entusiásticamente. Acrescento pois, “Concilio em Pedra” e “O Império dos Lobos” às minhas sugestões para este autor.

O livro de que hoje aqui se fala, “A Linha Negra” não é o meu favorito, mas segue o meu principio de comentar o ultimo lido de cada autor, e se for o caso, utilizar esse titulo para recomendar a obra. A história, é, procurando não revelar demasiado e cativar os leitores para o género, um thriller, que envolve um campeão de mergulho em apneia (Jacques Reverdi), que é um “serial killer” entretanto preso na Malásia, e um jornalista (Marc Dupeyrat) em plena crise de carreira que procura uma história que a relance, e que, pretende entrar na personalidade harmética do criminoso a fim de consegui-la. Para tal, socorre-se de um expediente invulgar, inventa um alter ego feminino, que consegue fazer trocar correspondência com o assassino.
Conseguindo assim prender o interese do assassino, o jornalista viaja para a Asia em busca de respostas e encontra um trilho macabro que levará a um desfecho imprevisto.

Para terminar, o universo de suspense criado por Jean Christophe Grangé, é, absolutamente hipnótico e incrivelmente viciante. São livros que não se conseguem parar de ler, e que também, se terminam com pena e com vontade que saia o próximo, que é o melhor que se pode dizer de um livro.

PARA A SEMANA:

UM GLADIADOR SÓ MORRE UMA VEZ de Steven Saylor (Quetzal Editores)
NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Asírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)

Lido:
A CANDIDATA de Carlos Pereira Santos (Prime Books)

Entra:
A VERDADE de Edward Docx (Editora Civilização)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Calígrafo - Edward Docx 2004 (Editora Civilização)

“Considero a Televisão muito educativa. Sempre que alguém liga o aparelho, vou para o quarto ao lado e leio um livro.” Groucho Marx


A história de Jasper Jackson, um quase trintão, com uma ocupação profissional pouco frequente, é um dos poucos calígrafos no Mundo que vive do seu trabalho e que faz da transcrição dos “Sonetos Eróticos” de John Donne por encomenda de um milionário americano. E é através dos “Sonetos” ,que pontuam a obra com o estado de espírito de Jasper e o crescendo da sua relação com Madeleine, que vamos sendo transportados para o interior de uma história de amor com diferentes níveis, com diálogos e situações de humor muito bem construídas. Uma espécie de história de “mentira e consequência”, com personagens muito bem construídas e absolutamente impagáveis, das quais destaco o par, pai/filho, Roy e Roy Júnior, que gerem uma mercearia “gourmet” no bairro de Jasper e que lhe prestam também outro tipo de serviços adicionais.
Foi, provavelmente, o livro que mais apreciei ler nestes últimos tempos, uma história de enganos e paixão, escrita com um detalhe e vivacidade impressionantes.
Diálogos espantosos, e um universo sofisticado que se divide entre Londres, principalmente, mas também Roma, com descrições de uma simplicidade genial, a fazer desta primeira obra de Edward Docx uma certeza de mais e melhor, (estou à espera, de facto, pelo correio, do segundo livro “Pravda” ou “Self-Help”, que em Portugal se intitula “A Verdade”).
Edward Docx cria, de forma densa, inteligente e muito divertida, uma trama sobre relações complicadas entre personagens complexas, o que consegue de forma brilhante, para tal bastam, os dois momentos absolutamente surpreendentes de como se chega à conclusão do livro.
Em conclusão, é um livro a ler e um autor a ter em atenção para as próximas obras.

PARA A SEMANA:

A LINHA NEGRA de Jean Cristophe Grangé (Edições Asa)
NA MESINHA DE CABECEIRA

Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assirio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)

Lido:
A ESTIRPE de Guillermo del Toro e Chuck Hogan (Ed. Objectiva)
Entra (por oferta de um amigo do Autor):
A CANDIDATA de Carlos Pereira Santos (Prime Books)

A Vida em Surdina - David Lodge

“Os livros tem os mesmos inimigos das pessoas: fogo, humidade, os animais, o tempo e o seu conteúdo.” Paul Valery 1871-1945



Não me vou alongar em explicações sobre os objectivos desta crónica, parece-me que há pouca gente a falar de livros pelo prisma do simples prazer de ler.
Apresentarei todas as semanas um livro que já tenha lido e uma pequena lista dos que estão em leitura, e se, conseguir despertar interesse num único eventual leitor, terei cumprido o meu papel.
Assim, o livro desta primeira semana é:
A Vida em Surdina de David Lodge, no original Deaf Sentence de 2008 de David Lodge, editado pelas Edições Asa este ano.
Só para esclarecimento prévio, o autor, David Lodge, é um dos meus autores contemporâneos favoritos, e é editado pela Asa em Portugal, para mais informações, por favor “googlem” o nome (nunca vi a expressão “googlar” utilizada num texto em português, mas depois dos vários Acordos Ortográficos, não me atemoriza fazê-lo, é uma questão de tempo.)
Quanto ao livro propriamente dito, que é o que importa, é verdadeiramente delicioso, seria certamente melhor que o pudessem ler no original em inglês, já que, a começar pela tradução do titulo, ( Deaf Sentence é foneticamente igual a Death Sentence, o que é mais ou menos Sentença de Surdez / Sentença de Morte, o que introduz brilhantemente a tragédia particular da personagem principal) alguns trocadilhos brilhantes perdem algum do seu efeito, de qualquer modo, a tradução está muitíssimo bem conseguida para a dificuldade que à partida seria de esperar.
Ao longo de cerca de 300 páginas, vamos acompanhar a progressiva perda de audição de Desmond Bates, uma personagem transversal à obra do autor, e acompanhá-lo numa sucessão de capítulos absolutamente geniais, do patético e ridículo de situações quotidianas até cenas verdadeiramente grandiosas de humor e sensibilidade.
Não há muito a dizer, senão que é um bom livro para introduzir a obra do autor a quem não o conhece, claro, pois este é o mais recente editado entre nós.
Evidentemente, voltarei à obra completa de David Lodge publicada em Portugal para dar a minha opinião.

Para terminar, e só para que conste, esta coluna tem o meu exclusivo patrocínio, com excepção das ofertas de amigos, e segue um único padrão altamente subjectivo, o meu gosto pessoal, não tenciono arregimentar, evangelizar e muito menos converter ninguém a nenhum livro ou autor, a nada que não seja simplesmente, o Prazer da Leitura.

NA MESINHA DE CABECEIRA:

EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
A ESTIRPE de Guillermo del Toro e Chuck Hogan (Ed. Objectiva)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Assirio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)

Para a semana: O CALÍGRAFO de Edward Docx (Ed. Civilização)