quinta-feira, 28 de outubro de 2010

MARINA de Carlos Ruíz Záfon (Planeta)

“As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros” OSCAR WILDE

Conforme prometi, comecei a “dar caça” aos titulos de Carlos Ruíz Zafón. Este “Marina”, agora editado entre nós pela Planeta, é no entanto, anterior cronológicamente na obra do autor ao seu grande sucesso, e objecto de sugestão aqui na “Estante”há apenas três edições atrás. O autor destaca este livro como o seu favorito, e bem sei, que de entre os “filhos” alguns haverá que por um motivo ou outro ou numa altura ou outra nos são ou parecem mais chegados. A minha opinião não vai no sentido de estabelecer se “Marina” é melhor que a Sombra do Vento” ou de outra das obras do autor. Vai mais no sentido da confirmação. Uma confirmação positiva de um grande nome no panorama literário contemporâneo. “Marina” confirma tudo que tinha lido e sentido com a “Sombra do Vento”. Há sempre estórias dentro de estórias, e neste, há três estórias de amor e morte, e sobretudo a estórias de Óscar e Marina, que se divide em dois andamentos, a sua própria estória e a “aventura” que nos vão desvendando com a investigação que desenvolvem ambos. Voltamos a uma Barcelona de fantasia, a personagens e cenários, macabros, góticos, tétricos e fantasmagóricos por vezes. Com as habituais descrições de ruas, becos, edificios fantásticos e uma descida à cidade sobre a cidade. Há um vilão que é também uma vitima ( o que reocorre em A Sombra do Vento), e há sobretudo um cenário de génio, há também uma espécie de “génio do mal” em versão gótica, um pequeno exercito de criaturas semi-humanas, mutantes perversos resultado de um exercicio de “médico louco”, mas há sobretudo um fio condutor absolutamente electrizante que percorre toda a obra. Há sobre toda a obra um timbre indissociável deste autor, que desce às mais negras profundezes da alma humana com a mesma facilidade com que exalta as virtudes e a pureza do género. É magistral. Dá-nos imagens de amores profundos e paixões absolutas, umas negras e trágicas, outras de uma inocência e suavidade tal que impressiona. Dá-nos também misturas de sensibilidade e horror, do macabro com o terno e oferece-nos um final arrepiantemente triste, mas profundamente humano.Carlos Ruíz Zafón, é um daqueles autores, e é o maior elogio que um leitor pode fazer, que nos deixa absolutamente vazio ao terminar os seus romances. Vazio, no sentido de nos ter roubado algo de intangível, ou se quisermos ser mais concretos, de nos ter roubado com o fim do livro o prazer de o continuar a ler. É raro. Aconselho vivamente. Boas leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

Vício Intrínseco de Thomas Pynchon (Bertrand)

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de Pedro Rosa Mendes (d. Quixote)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O POVO DE GUIMARÃES SUSPENDE EDIÇÃO EM PAPEL

Estante 50 - Crónica de Uma Morte Anunciada de Gabriel Garcia Marquéz (D. Quixote)

“Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais” Safo

Peço antes de mais perdão pela troca do livro de que falarei esta semana. Penso no entanto que se justifica a alteração do titulo a sugerir, devido aos factos que certamente encontrarão explicados em outras análises feitas nesta edição do Jornal. Este pequeno/grande livro é uma obra-prima. Para ser sincero e focado no que realmente importante, a estória em si, não é fabulosa, é até uma estória simples. O que espanta é o conceito, e sobretudo tudo que lhe anda associado. A frase de abertura é um clássico (como aliás em quase todos os melhores livros de Gabriel Garcia Marquez, as frases de abertura são absolutamente marcantes) e todo o livro nos remete, atravez de Santiago Nassar, seu interprete e personagem maior, para a inevitabilidade da morte. Poderiamos aqui, como aliás seria fácil e até lógico a este respeito, fazer uma analogia entre as poucas horas de vida de Santiago, que está jurado de morte e finitude da vida em geral. Mas entendo que não é esse o meu papel nestas pequenas sugestões de leitura. O que se pretende aqui é estender um pouco o meu entusiasmo pessoal por algumas obras e autores e procurar, de uma forma mais ou menos descontraída partilhá-lo. Este livro, que é uma novela curta, por comparação com as obras de maior fôlego de Garcia Marquéz, sempre me pareceu, e essa sensação ainda se mantem, um excelente inicio para uma viagem à obra do autor. Isto para quem, por infelicidade ou simplesmente ter optado por outros caminhos literários, não conheça, o que, pelo menos para mim, é o maior expoente da corrente a que se convencionou chamar de “realismo mágico” e que brota sobretudo das mãos de autores sul-americanos. É uma sugestão que considero prioritária e, se me permitem, indispensável. Termino esta minha 50ª Sugestão de Leitura aqui no Povo de Guimarães, numa data em que a publicação deste semanário vai ser suspensa para se encontrar forma sustentada de manter no futuro, este titulo da Imprensa local e regional. Faço votos de sucesso a todos os que de uma outra forma se encontram ligados à resolução deste problema, para que se empenhem o máximo em não deixar terminar um projecto que ao longo de mais de três décadas me habituei a dar como adquirido no panorama da já se si riquissima (não em meios mas em pessoas) Imprensa Vimaranense. Aguardemos pois melhores notícias. No entretanto, Até Sempre e Boas leituras!

PARA A SEMANA: Continuaremos a ler...

Na Mesinha De Cabeceira:

Vício Intrínseco de Thomas Pynchon (Bertrand)

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de Pedro Rosa Mendes (d. Quixote)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Quartos Imperiais de Bret Easton Ellis (Teorema)

“Estimamos pouco aquilo que obtemos com demasiada facilidade” Thomas Paine

Este livro que hoje se sugere, é a continuação de “Menos que Zero”, o romance de estreia de Bret Easton Ellis, e que o tornou num dos nomes mais sólidos entre os romancistas norte-americanos do ultimo quartel do Séc.XX. Sobre “Menos que Zero” já aqui se falou em crónica anterior desta “Estante”. Esta continuação tem uma particularidade que a torna invulgar. É escrita decorridos vinte e cinco anos da vida de todos os implicados, autor e personagens do livro. O registo é o mesmo. A desilução, o ambiente distópico, niilista, o profundo egoismo das personagens e as situações levadas sempre ao extremo. Se em “Menos que Zero” esse registo é absolutamente inovador e causa choque, neste “Quartos Imperiais”, esse efeito já não surge. Por razões óbvias. Já estamos à espera que Ellis nos faça experimentar cenários e personagens extremas. Não é contudo pelo elemento choque que este livro deve ser lido. Deve ser lido, antes de mais por quem leu e gostou de “menos que Zero” ou de quaisquer uma das demais obras de Bret Easton Ellis, porque é uma continuação, muito bem engendrada, diga-se, da vida desregrada e com um sentido que nos escapa, da galeria de figuras anteriormente criadas. Se “Menos que Zero” foi um retrato de uns anos oitenta focalizado na absoluta ausência de valores e de expectativas para estas personagens, o presente como se pode constatar, não melhora em nada a impressão inicial. Bret Easton Ellis, é um grande e magistral autor, que, como já o disse anteriormente, não o será para todos. Os seus livros são tudo menos consensuais. Mas é bom ver um romance que após um quarto de século, dá um espantoso sinal de vida, ao voltar a apresentar-nos uma realidade que vemos, normalmente, muito pela superficie. Não é, de perto nem de longe como o primeiro romance, mas vale a pena encontrar as diferenças, ou as semelhanças, entre o grupo de adolescentes sem futuro que Ellis retratou nos anos oitenta e os adultos sem presente que retrata hoje. Se não o tiverem feito já, leiam o “Menos que Zero” antes deste “Quartos Imperiais”.Vale a pena. Boas leituras!

PARA A SEMANA: MARINA de CARLOS RUIZ ZAFÓN (PLANETA)

Na Mesinha De Cabeceira:

El Ingenioso Hidalgo Don Quixote De La Mancha De Miguel De Cervantes Y Saavedra

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de Pedro Rosa Mendes (d. Quixote)

A Casa Quieta de Rodrigo Guedes de Carvalho

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

And the Nobel goes to.....

Mario Vargas Llosa


A Sombra Do Vento De Carlos Ruiz Zafón (Dom Quixote)

“O escritor original não é aquele que não imita ninguém, mas sim aquele que ninguém pode imitar” François Chateaubriand

Partilho esta sugestão ainda na ressaca desta leitura . Há já algum tempo, e bastantes mais livros que não tinha gostado tanto de uma obra. Sei que provavelmente virá a destempo esta sugestão. Quero crer que serei um dos ultimos a descobrir Carlos Ruiz Zafón e este “A Sombra do Vento”. Seria justo que assim fosse. É absolutamente magistral. Uma estória excelente, escrita de forma superior. Um tratado de amor e ódios, todo ele tecido sobre a estória de um outro livro. Uma galeria de personagens absoluta e inesquecível. Um livro que não se consegue parar de ler, que o diga a ultima noite quase em branco em que o terminei. Com aquela sensação, que infelizmente poucos livros nos dão, de que gostariamos de ver a estória continuar, pelo imenso prazer que nos deu. É um livro que se termina com pena. Que se tenta “fazer render” e esticar nas horas, mas que nos arrasta com ele para uma viagem vertiginosa. Um livro que mistura géneros (ou será simplesmente um género em si!) É, para mim, uma descoberta, uma muito, muito boa revelação, de um autor já conhecia de nome e por referências de amigos. Faz-me feliz pensar que há novos autores com esta qualidade. Entra directamente para os meus favoritos. Há muito tempo que tal não acontecia. Como em muitas coisas na vida, quando nos sentimos confortáveis dentro daquilo que conhecemos, por vezes, deixamos de procurar coisas novas. Isso acontece-me muito fruto da minha predilecção por um grupo restrito de autores, dos quais sempre espero com ansiedade o próximo livro. Mas a ficção, tal como a vida, ultrapassa-nos sem nos pedir licença. Assim, mais do que sugerir, se pudesse, fazia deste livro leitura obrigatória. Para ilustrar o que é um livro dentro de um livro, o que são personagens reais, o que é a geografia das relações e sobretudo como se conta uma boa estória. Está aqui tudo. O derradeiro elogio, será mesmo o de repetir que é um livro que se termina com pena. Que se gostava que pudesse continuar. Não sendo possivel isso, partirei em busca de outras obras deste autor, das quais vos darei conta a seu tempo. Boas Leituras!

PARA A SEMANA: QUARTOS IMPERIAIS de Bret Easton Ellis (Teorema)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

EL INGENIOSO HIDALGO DON QUIXOTE DE LA MANCHA DE MIGUEL DE CERVANTES Y SAAVEDRA

AS BENEVOLENTES DE JONATHAN LITELL (D. QUIXOTE)

PEREGRINAÇÃO DE ENMANUEL JHESUS DE PEDRO ROSA MENDES (D. QUIXOTE)

A CASA QUIETA DE RODRIGO GUEDES DE CARVALHO

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pelo Correio


Um grande, enorme abraço, ao meu querido Amigo Miguel Carvalho, que me enviou por correio este livro do Alfredo Mendes,(a quem aproveito para saudar também.)
Depois do livro sobre o " Café Piolho", este sobre os falares "à moda do Porto".

Muito Muito Obrigado!!!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Entradas Frescas


Este foi oferecido pelo Grande Fernando Lopes ;)


Este foi o meu amor que me ofereceu...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nobel de Literatura será anunciado a 7 de Outubro

O Prémio Nobel da Literatura será anunciado na próxima quinta-feira, 7 de Outubro, às 13h00 em Estocolmo (12h00 em Portugal Continental), anunciou a Academia Sueca.

Let´s see....

a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe (objectiva)

“só damos pelo envelhecimento dos outros” andre malraux

pensei escrever a crónica desta semana integralmente em minúsculas. por razões óbvias. é a marca registada deste autor. antes de entrar no livro propriamente dito, permitam-me algumas considerações prévias. como em muitas coisas na vida, o excesso de proximidade mata o respeito e muitas vezes a admiração. tem sido assim a minha relação de leitura com a maior parte daqueles a quem englobo na categoria de “autores portugueses vivos”. muitas vezes, senão a maior parte, acabamos por ler e ouvir estes autores a dissertarem sobre a sua obra com uma certa sobranceria e a serem corporativamente glorificados uns pelos outros. não desminto que essa impressão, era a que tinha deste autor. ouvi e li algumas entrevistas dele e li também suficiente criticas sobre a obra. o ambiente literário indígena, muito por causa disto, faz-me “pele de galinha” e põe-me em modo automático de rejeição. sei que é um preconceito parvo (como quase todos os preconceitos). a somar a isso há ainda alguns artificios de estilo, como escrever em minúsculas (ou sem pontuação) que me cheiram logo não a arte mas a marketing. de todas as formas, este vinha recomendado e emprestado por um grande amigo e compadre leitor, pelo que, “fui ver como era para contar como foi”. assim, tendo partilhado esta minha visão que enferma destes defeitos, tenho-vos a dizer que gostei. e gostei bastante. e, se a personagem do autor me causava alguma dúvida, e reporto-me a tudo que acima disse, também tenho que ser justo e dizer que valter hugo mãe (que, para utilizar a piada mais óbvia é hugo por parte da mãe, e mãe por parte do pai J) é um escritor com maiúsculas. este livro merece ser lido e mais do que isso mereceu ser escrito. é um retrato íntimo da velhice, das grandes perdas e pequenas vitórias que lhe estão associadas. não é lamechas, não é falsamente erudito, não é pretencioso, e sobretudo fala-nos de um caminho que pode ser o nosso. é bom ter surpresas assim. e acima de tudo, como vou aprendendo aos poucos, não se deve “negar à partida uma ciência que se desconhece”. este senhor tem livros dentro dele. e mais do que fazer espanhóis, fez um bom livro, (e aproveitando uma ideia do próprio livro,) é uma obra “com metafísica”. leiam e digam coisas. boas leituras!

para a semana: a sombra do vento de carlos ruiz zafón (dom quixote)

na mesinha de cabeceira:

el ingenioso hidalgo don quixote de la mancha de miguel de cervantes y saavedra

as benevolentes de jonathan litell (d. quixote)

peregrinação de enmanuel jhesus de pedro rosa mendes (d. quixote)

a casa quieta de rodrigo guedes de carvalho