terça-feira, 23 de novembro de 2010

AS LOUCURAS DE BROOKLYN de Paul Auster (ASA)

Toda a gente está mais ou menos louca em algum aspecto” RUDYARD KIPLING

Ao ler este livro, este delicioso retrato de uma certa América conteporânea que confluí em Brooklyn, descobri um outro Paul Auster. Confesso que a ultima obra que tinha lido, “Viagens no Scriptorium”, não me tinha agradado muito. Há como em muitos dos grande autores de hoje, uma certa tendência para, por vezes cederem a experimentalismos literários que nem sempre dão bom resultado. Opinião minha, pessoal e intransmissível, neste caso. Mas este “As Loucuras de Brooklyn” é um romance, com um a história recheada de outtas tantas, nem por isso menores. Mas é sobretudo a vida na sua plenitude que nos é oferecida aqui. Há uma personagem central, Nathan, que regressa a Brooklyn depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro. É uma vida a prazo. Como todas certamente, mas esta possivelmente com um termo mais anunciado. E é no quotidiano de Nathan, dos seus reencontros com a vida nos seus mais infímos e gloriosos pormenores que também nós nos reencontramos com a alegria de ler Paul Auster. Tenho para mim, que a simplicidade é o mais dificil de atingir, na literatura como em muitas outras coisas. Aqui está espelhado o génio das coisas simples. É uma jornada passada numa época definida da história da América, antes da eleição de George Bush, marcada pelos acontecimentos da recontagem de votos da Florida, e que vai até antes do 11 de Setembro e do ataque às Torres Gemeas. Há a construcção de uma galeria de personagens que se podem com facilidade reconhecer, o sobrinho Tom, o patrão de Tom, Harry, a familia de Nathan e uma série de figurantes que tornam completa a história. Paul Auster transforma Brooklyn num cadinho onde se misturam toas as idiossincracias da América que julgamos conhecer. É um livro excelente. Uma história suave e com muita esperança dentro. Tem momentos muito bons, a ideia da obra que nathan se propõe complilar, o conceito introduzido por Harry do “Hotel Existência”, a própria trajectória de Tom, de possivel eminencia académica à queda para motorista de taxi, passando por vendedor de livros usados até a um final inesperado. Enfim, um pouco de tudo, misturado com um pouco de todos, numa jornada rumo aquilo que de facto podemos esperar de nós e dos outros. Um feliz regresso a um autor que me andava a “fugir”. Obrigado à Xana, minha Querida Amiga, que teve a gentileza de me o oferecer.Boas Leituras!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A CIDADE E AS SERRAS de EÇA DE QUEIRÓZ (Livros do Brasil)

A Máquina não isola o Homem dos grandes problemas da Natureza, mas insere-o mais profundamente neles ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

Esta semana, a minha proposta é um dos meus livros favoritos de sempre.Já o li, vai para uns vinte anos, mas ainda permanece em mim toda a história, e o sentido que lhe subjaz. Podia começar por dizer, que Eça de Queiróz é, e será para mim, o autor português que mais prazer me dá ler. Ainda não lhe encontrei uma obra que fosse menos boa. Não li tudo, é certo, mas do que li formei esta opinião. A forma como descreve personagens e ambientes, a inteligência com que identifica e caracteriza cada um dos intervenientes nos seus romances, a ironia e o humor com que pontua a narração, são no minimo brilhantes. Temos vários exemplos na sua obra de personagens que se tornaram “clássicos” e por isso mesmo intemporais. A escolha é abundante, desde o Conselheiro Acácio de “O Primo Basilio”, passando pelo Padre Amaro, até ao, para mim genial Jacinto de Tormes deste “A Cidade e as Serras”. A actualidade, que se atribui de forma geral ao que Eça escreveu, deve-se, na minha modestíssima opinião, à sua capacidade ímpar para identificar e retratar os vícios e as tentaçõeshumanas, mas também, e mais ainda, de identificar uma certa atitude muito portuguesa de encarar a vida. De regresso à sugestão de leitura desta semana, esta sim, absolutamente essencial para quem diz gostar de ler, e como não gosto muito de antecipar enredos, direi apenas que é uma romance que versa sobre a inutilidade de uma certa e excessiva abundância material. Jacinto de Tormes, que vive em Paris, no célebre 202 dos Campos Elíseos, (um dia em outra crónica falarei de endereços literários famosos), cercado do maior luxo e obcecado com tecnologias e engenhocas. Num processo de progressivo desencanto, exemplarmente contado pelo narrador, o amigo José Fernandes, troca essa vida de fausto por um regresso a Portugal, a Tormes, casa-mãe de sua familia, no Douro, onde vai reencontrar a vida numa forma mais simples. Este livro, conta a história de um caminho que se faz, rumo ao equlibrio entre o material e o espiritual na vida. Temos muito do Jacinto de Paris nas nossas vidas. Façamos pois essa viagem com ele, rumo a uma realidade mais simples, mas seguramente não menos Feliz. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de Pedro Rosa Mendes (D. Quixote)

As Loucuras de Brooklyn de Paul Auster (ASA)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O NOME DA ROSA de UMBERTO ECO (DIFEL)

Temei os profetas e aqueles que estão dispostos a morrer pela verdade, pois, em geral, farão morrer muitos outros juntamente com eles, frequentemente antes deles, por vezes no lugar deles UMBERTO ECO

Dei por mim absolutamente surpreso por nunca ter proposto nada de Umberto Eco. Encontro explicação no facto deste autor não ter muitos romances publicados, e o ultimo já levar uns anos (“A Misteriosa Chama da Rainha Loana”). Mas a verdade, é que se retirarmos esse derradeiro, publicado em 2004, já os li todos. Foi e é para mim o referêncial do que é a verdadeira escrita inteligente, erudita e nem por isso menos acessivel. Para começar, e porque este “O Nome da Rosa” nem sempre é convenientemente lembrado como leitura, pelo facto de já se terem passado 30 anos da sua primeira publicação, é bom que se chame gente que, porventura por ser mais nova, ou simplesmente porque nunca lhe sugeriram nem o livro nem o autor, o procurem. Sei também, que todos os livros que foram passados ao cinema sofrem desse complexo de comparação. Existe também o debate, se é melhor ler os livros e depois ver os filmes,( o que, no meu caso origina em 90% das vezes que, o filme me desiluda) ou o inverso, que se torna (na minha opinião também), menos bom para o livro porque já lhe conhecemos a estória. Bem: Adiante. A qualidade deste livro, é absoluta e completamente independente do visionamento do filme. É uma obra fenomenal. Um romance histórico, com um enredo policial fabuloso. Eco faz deste romance (que é o livro que o projecta internacionalmente como romancista) uma homenagem a Arthur Conan Doyle e às suas personagens Sherlock Holmes e Watson. Os detectives d´”O Nome da Rosa” são, Guilherme de Baskerville (referencia óbvia ao “Cão dos Baskerville” de Conan Doyle) e Adso de Melk (que é o narrador e simultaneamente um anagrama de Watson, que como se sabe também era o narrador das aventuras de Sherlock Holmes). Há ainda uma personagem que homenageia Jorge Luis Borges (Jorge de Burgos, também ele cego) e, a somar, há um enredo que encerra uma busca por uma obra de Aristóteles sobre a natureza do Riso, que colidiria com os principios da Igreja Católica Medieval. Crimes aparentemente inexplicáveis , uma bibiloteca fantástica, personagens fabulosas e uma descrição da Idade Média e dos seus ambientes ao alcance de muito poucos. Muito para além do que nos oferece a mera perspectiva da versão filmada, este livro é daqueles que a não ter sido lido constitui uma perda que não se deseja a ninguém. Ao resto da obra, regressarei em breve, para falar do magnifico “Pendulo de Foucault”, a “fonte” de todo um manancial de obras, que versam o hermético e o esotérico, e que se vulgarizaram entretanto. Imprescindível! Boas leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de Pedro Rosa Mendes (D. Quixote)

As Loucuras de Brooklyn de Paul Auster (ASA)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

VÍCIO INTRÍNSECO de Thomas Pynchon (Bertrand)

“O que o povo chama vício é eterno; o que chama virtude é apenas moda” BERNARD SHAW

Acabado que está este “Vício Intrínseco” de Thomas Pynchon, há algo que me confunde. Este foi e é, o único livro que li deste autor. E é, no minímo incaracterístico, que, um autor, que vinha à partida integrado na “shortlist” para o Nobel deste ano, de entre o contingente de habituais favoritos norte-americanos, saía com um romance deste quilate. Para me fazer explicar melhor, este romance será um policial, com uma particularidade que o atravessa. Introduz-nos um personagem Larry (Doc) Sportello, um detective privado, que, tem por principal característica passar a vida debaixo do efeito de narcóticos ( e alista é longa). O romance que poderá ser descrito como um policial, com um enredo intrincadíssimo,e uma fluidez assinalável. É muito divertido e Pynchon demonstra grande inteligência e sobretudo poder criativo. Mas o que me causa um pouco de estranheza é mesmo a temática. Pynchon inventa aqui um aspirante a Sam Spade ou a Philip Marlowe, mas mergulha-o de tal forma num universo alternativo ( a “cena” hippie e surfista californiana dos final dos anos 60) que a trama se torna num verdadeiro turbilhão de “pistas” e direcções, nem sempre bem atadas no final. Dá de facto a ideia de um romance policial alternativo, com uma paisagem bem urdida de referências à cultura pop e ao submundo de uma Los Angeles que vive entre a praia, o surf e um catalogo de substâncias fumáveis e inaláveis mais ou menos inesgotável. Para quem espera uma escrita “Nobelizável”, em tudo que o termo encerra de alguma sobranceria e quiçá, pretensa intectualidade, pode não ser uma boa surpresa. Para quem, como eu, gosta de ler novos autores e formas de escrita singulares, este “Vicío Intrinseco” é obra de um Ás. Se somarmos a um guião de circulos nem sempre concêntricos, de crimes e pseudo-crimes, a descrição dos ambientes, a criação de personagens ímpares e muitos momentos de humor, damos conta que encontramos um autor que vale a pena seguir. É um livro dificilmente classificável, quer em género, quer na avaliação de gosto. Penso que deve situar-se um pouco na fronteira do amor/ódio, ou se gosta, e muito, como foi o meu caso, ou se deve detestar em absoluto. De todas as formas aconselho vivamente. Não penso parar por aqui a minha “descida” ou “subida”, (o futuro o dirá), a mais um universo privado de um escritor que congrega à partida um grande numero de seguidores e elogios pouco habituais por parte da crítica especializada.Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Peregrinação de Enmanuel Jhesus de Pedro Rosa Mendes (D. Quixote)

Vício Intrínseco de Thomas Pynchon