terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

TEMPESTADE de William Boyd (Casa das Letras)

Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo NIETZSCHE

Já com um livro anterior, esta impressão me tinha assaltado. É um autor de começos lentos, que introduz as tramas dos seus livros com suavidade. Que nos vai tornando progressivamente mais nitidos os cenários e as personagens até que, a um dado momento, sem quase nos apercebermos, estamos a viajar no livro a toda a velocidade. Não acontece com muitos autores, nem com muitas histórias. Este livro “Tempestade”, é um romance quase policial, se é que o género existe, e digo quase porque, pra além das características normais, encerra um conceito algo invulgar no enredo. O personagem principal desaparece socialmente. Adam Kindred, um jovem invetigador no campo da meteorologia, é envolvido acidentalmente num assassinato e torna-se o principal suspeito dessa morte. A principal característica disitintiva deste livro é a forma com Adam desaparece, e lhe são progressivamente retirados, camada após camada, todos os vinculos com a sociedade. É nessa perda total de identidade, e nesse percurso que o romance ganha verdadeiramente interesse. É uma viagem pelo despojamento completo de tudo aquilo que nos é familiar e próximo. Coisas que damos como adquiridas e, que a Adam, são retiradas de forma violenta, atirando-o para uma posição na sociedade onde a invisibilidade tem mais do que uma forma. O resto da história é um thriller onde pontifica a maldade empresarial, na figura de uma empresa farmaceutica que se prepara para lançar um novo fármaco sem o ter devidamente testado. Não vai para nenhuma galeria de clássico, mas tem o seu quê de original. Não se dá o tempo por mal empregue nesta leitura, que cumpre bem o papel deste género de livros. Não sendo o tipico policial, configura também uma tendência de muitos autores contemporâneos que é de nos fazer sentir ao longo da leitura que estamos a ler um pré-guião cinematográfico. Há casos em que isso se nota mais do que neste “Tempestade” e também não será por aí que vem mal ao mundo. É também um bom guião que, a seu tempo dará origem ao filme que nele se adivinha. Não subscrevo por inteiro o entusiasmo vibrante dos criticos do Daily Mail, Daily Mirror, Daily Telegraph e do Guardian, que são citados na contracapa, mas também não é preciso tanto para que me atreva a aconselhar. De outras obras de William Boyd em futuras sugestões se falará tembém. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

Sargento Getúlio de João Ubaldo Ribeiro (Edições Nelson de Matos)

A Assombrosa viagem de Pompónio Flato de Eduardo Mendoza (Sextante Editora)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TEMPO CONTADO de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

Ser senhor do seu tempo é ser senhor de si próprio VOLTAIRE

Para um leitor de assiduidade exemplar do blogue que o J. Rentes de Carvalho mantém, com actualizações diárias em tempocontado.blogspot.com, foi uma espécie de regresso aos anos de 1994 e 1995, aos quais reportam as entradas deste magnífico diário. A primeira caracteristica, e para mim, provavelmente a que mais avulta entre as muitas qualidades da escrita de J.Rentes de Carvalho é indefinivel por ser pessoal e intransmissível, é a de ser absoluta e completamente viciante. A clareza dos raciocínios, a visão atenta e sobretudo desempoeirada e fresca com que J.Rentes de Carvalho, nos brinda acerca de quase tudo aquilo em que podemos pensar ( e que o autor faz o favor de pensar por nós, note-se...) é absolutamente mágica. Em “Tempo Contado”, vamos acompanhando o quotidiano e pequenos e grandes eventos que se atravessam no “Tempo” que a J. Rentes de Carvalho pertence. Este diário, de este autor de que eu, ignorante confesso, ainda há escassos meses nada sabia, é uma amostra perfeita da mestria de Rentes de Carvalho. Sobre as situações mais comezinhas ou banais, na nossa perspectiva menos atenta claro, o autor lança luzes de uma profundidade de visão e de uma análise por ângulos que, à vista desarmada, nos escapam completamente. Vamos ao longo deste livro, que mais uma vez se lê de um fôlego, aprendendo a conhecer uma mundivisão muito particular. Não sei definir um escritor, muito menos uma pessoa pelo que ela escreve, acho sempre que o que se escreve nem sempre provém daquilo que somos, mas muito mais daquilo que sentimos no momento em que escrevemos, estes meus pequenos textos são, para mim, exemplo disso. Acho ridiculas comparações entre autores e estilos, mas também acho que há uns que são muitos iguais entre eles, (os que pretendem ser originais, em regra), e outros que são claramente incomparáveis. Rentes de Carvalho é uma figura incontornável da literatura portuguesa do nosso tempo, seja ele contado ou não. É um prazer imenso ler o que esceve, pela forma elegante como o faz, mas sobretudo pelo que nos diz, pelo que nos mostra, pela visão particular que mantém sobre situações e pessoas. Não sei o termo é o certo, mas é sobretudo refrescante ler Rentes de Carvalho, é uma espécie de regresso àquele tipo de escrita sã e simples que só o verdadeiro génio pode fornecer. Não há artificios literários, não há grandiloquência, pose, nem pompa, há simplesmente verdade. Tenho tido a sorte de obter algumas reacções a estas minhas sugestões de leitura, e no caso de J. Rentes de Carvalho, fiquei absolutamente feliz ao receber mais do que uma confirmação de amigos e leitores de que compraram, leram e gostaram. O contrário também não me parecia possível.Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A caminho...




O "Sargento Getúlio"sugestão recolhida em leitura de "Tempo Contado" de J. Rentes de Carvalho e "A Assombrosa Viagem de Pompónio Flato" por sugestão do Miguel Bastos e do Fernando Lopes.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O FEITIÇO DE XANGAI de Juan Marsé (D. Quixote)

A cura está ligada do tempo e às vezes também às circunstâncias HIPÓCRATES

Comecei este livro, oferta de amigos, com toda a abertura e esperança que alguma da recém descoberta literatura catalã me podia dar (descoberta para mim, claro está, basta ver em crónicas anteriores a minha incursão ao universo de Carlos Ruiz Zafón, como exemplo). No entanto, algo de parecido com um “feitiço” tomou conta de mim. Desde as primeiras páginas, uma sensação nebulosa de “déjà vú”, ou mais propriamente “déjà lú”. À medida que entrava de facto na história e nos seus personagens essa sensação foi-se intensificando até que, se fez uma luz. Não, não tinha já lido o livro. O que aconteceu é que, fruto de viver numa cidade que me oferece o privilégio de ser sócio de um dos mais antigos e certamente o mais activo e participado de todos os cineclubes do País, já tinha visto o filme. Curioso, não ter feito de imediato a ligação entre um e outro. Um bom filme de Fernando Trueba “El embrujo de Xangai”, que retrata com grande fidelidade o ambiente do livro. Passado em Barcelona, no pós Guerra, este livro conta-nos a historia de dois adolescentes, que animam os seus dias com a história de um aventureiro mítico que embarca rumo a Xangai para tomar parte em grandes proezas. É na partilha desta história que Daniel e Susana (doente com a tísica) vão emprestando sentido às suas vidas, até que, como muitas vezes sucede, a realidade se intromete para dar outro desenlace ao enredo. E um bom livro, recheado de excelentes personagens e um cenário de uma Barcelona de bairro, com gente que se sente viva. Uma boa história bem escrita. Há uma personagem contudo que se eleva acima das demais, em minha opinião: o Capitão Blay, é um ser estranho, excêntrico, mas tem todas as características que marcam as personagens verdadeiramente inesquecíveis, é um pouco louco, quixotesco e delirante, mas é também simultaneamente humano, generoso e divertido. O autor era-me estranho. Já não é. Juan Marsé é um nome que merece ser lido. Para já neste “Feitiço de Xangai” e depois nos que se lhe seguirão. Aconselho sem hesitações. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

BANCO de Henri Charrière (Bertrand

A imaginação mais louca tem menos recursos que o destino CLAUDE AVELINE

Esta semana, vou sugerir um dos primeiros livros de que tenho memória e do qual gostei verdadeiramente. Provavelmente o titulo “Banco” não dirá muito a muita gente, nos dias que correm. Mas, se dissermos que este é o segundo livro de Henri Charrière, que se seguiu a “Papillon”, estou certo que se fará luz. Por motivos que me são estranhos, provavelmente por ser ainda muito novo e por se encontrar este livro na biblioteca do meu pai, li-o antes de ler o primeiro. De “Papillon” muito se poderia dizer, desde o facto de ter constituido um dos maiores sucessos editoriais de sempre, considerado à época do seu lançamento, bem entendido, até às muitas polémicas que gerou, umas que teriam a ver com a veracidade do relato, que se pretedia auto-biográfico, até à qualidade literária, que muitos tentaram apoucar. A minha opinião, muitas vezes aqui expressa é a de que um bom livro, tem de ter ou uma boa história, (ou mesmo uma má história), mas tem de facto de ser bem contada. E eu aprecio sobretudo na escrita quem sabe contar bem uma história. Os artifícios literários, a literatura experimental e outras formas de “evolução”, são me infelizmente dificeis de aceitar. Como só leio por prazer, não tenho que dizer bem por dizer, nem de alinhar em “modas” e seguidismos bacocos. Ora voltando a Henri Charrière, é minha firme opinião que, foi um dos melhores escritores-contadores de histórias que já tive o privilégio de ler. Não interessa absolutamente para nada que o seu relato seja ou não verdadeiro, que tenha ou não vivido os factos que relata. A forma como os conta é bastante. Este segundo livro “Banco” descreve a vida de Papillon-Henri Charrière após a sua fuga da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, descrita em “Papillon” o livro, e celebrizada no cinema por Steve McQueen e Dustin Hoffman. Descreve inclusivamente a forma como o primeiro livro é escrito. Poderá não ser um cllássico da literatura, mas é um livro extremamente agradável de se ler, e que explica porque é que uns são escritores e outros apenas escrevem coisas. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

O Feitiço de Xangai de Juan Marsé (D. Quixote)