quinta-feira, 29 de setembro de 2011

HOMEM NA ESCURIDÃO de Paul Auster (Edições ASA)


"As dores ligeiras exprimem-se; as grandes dores são mudas” SÉNECA


Paul Auster é para mim um caso de amor/ódio, ou mais exactamente, porque a escala não é essa, de entusiamo/indiferença. Alterna romances e estórias sublimes e esxtaordináriamente contadas com alguns titulos que, pessoalmente não aconselho. É um facto que há escritores que escrevem muito, tem uma produção literária avassaladora. De entre estes há cada vez menos que se possam considerar bons em tudo o que publicam. Suponho que não será sómente responsabilidade dos próprios. O mundo editorial tem vindo a revelar-se como um universo num crescendo de “publish or die”, que, sinceramente não sei onde irá parar. Para fazer só um pequeno reparo a este cenário atentem na quantidade absolutamente indescritivel de novos titulos que surgem diáriamente e que se acumulam de forma quase desrespeitosa nas prateleiras de livrarias e hipermercados. É trágico para muitos bons autores e para não menos bons livros que o tempo de exposição que merecem para chegarem até nós seja cada vez mais reduzido. Se pelo lado egoista da coisa se pode saudar estea torrente de novos titulos a inundar o mercado livreiro, penso que tem também o efeito perverso de menorizar aquilo que efectivamente acima da média. Julgo que estamos numa fase de nivelamento por baixo de tudo o que é publicado. Tenho muitas vezes a sensação que um determinado autor que tenha o engenho de ter produzido alguma obra digna de registo, é capaz de ser obrigado a publicar tudo aquilo que escreveu, desde o médio ao sofrível e se calhar a resgatar à proverbial “gaveta” produção que de outra forma não teria coragem de dar a ver a luz. Tendo dito isto, que é um dado concreto para mim, e que me ocorreu por já ter lido algumas coisas de Paul Auster que não está exactamente no mesmo patamar daquilo que de melhor li dele, volto ao “Homem na Escuridão”, que é o que aqui me interessa. È o caso de um bom livro, com uma excelente ideia de base, muito bem explorada. É o exemplo acabado de uma estória que reconhecemos, apesar do duplo universo que nos retrata, em que o universo onírico nocturno, onde a escuridão da noite faz ressaltar as dores, temores e inquietações do protagonista, que as projecta num cenário de uma América alternativa, em guerra consigo própria. É um livro que puxa por nós enquanto leitores e nos conduz a encruzilhadas mentais onde somos muitas vezes confrontados com os nossos próprios fantasmas. Gostei. Recomendo. Termino com a desinteressante informação de que nem sequer sabia que tinha este livro. Apareceu assim a modos de aparição na estante lá de casa, ou dito de outra forma, surgiu “acidentamente” na “Estante”. Boa surpresa! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)
A Intermitência de Andrea Camilleri (Bertrand)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

JOÃO AGUARDELA “Esta Vida de Marinheiro” de Ricardo Alexandre (Quidnovi)


"A tragédia da morte consiste em que ela transforma a vida em destino” ANDRÉ MALRAUX
De vez em quando, ao prazer de ler junta-se algo extra, uma motivação que acresce. É sempre o caso quando alguém que nos é próximo é quem escreve o livro que lemos. Há no momento que antecede a escrita e que a justifica, algo de fundamentalmente humano. Por vezes a raiva, o medo, a necessidade de partilha, o protesto, a vontade de dividir sentimentos, enfim um mundo de sentimentos e emoções, que se procuram fazer entender por quem lê. Provavelmente o Amor e a Amizade são das causas mais aproveitadas para catalizar essas emoções ou necessidades. Sendo que a Amizade é, para mim, uma forma superior de Amor, (pelo menos parece ser um virus mais resistente à acção do tempo e dos outros) e é um dos meus temas favoritos. E não é uma questão meramente individual, algumas das coisas mais sublimes que já li tem a marca indelével da Amizade. É o caso deste livro. É uma empresa que, seguramente, não desejo a ninguém, biografar um amigo que partiu. E nestas páginas, em todas elas, se nota que a emoção não foge, não se esconde. De todos os testemunhos, de todos os episódios que se contam do João Aguardela há um sentimento que perpassa comum, a Saudade e o vazio que ele deixa em todos que com ele se cruzaram nos dias da sua vida. Eu, como todos os que somos produto de uma geração que atravessou todas as paisagens que povoam este livro, os inesquecíveis anos 80, reconheço todo o mundo que aqui nos é contado. Os sitios, as músicas e as bandas. Mas o João Aguardela que conhecia começava e acabava no final das respectivas músicas. Não tinha noção do contributo gigantesco que deu para o avanço da música moderna portuguesa. Essa justiça que faltava fazer está toda nestas páginas.  O Ricardo Alexandre é um Grande Amigo, creio que, como às vezes digo em registo de conversa de café, que para se ser amigo tem de se possuir esse gene. Ele tem-no, a prova maior está neste supremo acto de Saudade e Amizade. Se há certezas, poucas, na vida, esta é uma delas, os nossos Amigos vivem para sempre, por nós e através de nós. Sem muito mais palavras, é um livro excelente. Para todos! Por todos os motivos! Não deixem que vos passe ao lado! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)
Homem na Escuridão de Paul Auster (ASA)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Nova leitura!

Descoberto dentro do "caos organizado" da Estante e já começado. A suivre...

Esta Vida de Marinheiro - Sexta passada na Fnac do Norte Shopping

Lançamento no Porto do livro do meu Amigo e Compadre Ricardo Alexandre sobre a vida e obra de João Aguardela líder dos Sitiados. Na próxima crónica da Estante!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O PERFUME de Patrick Suskind (Editorial Presença)

"Quem possui talento torna-se vítima dele e vive no vampirismo desse talento” FRIEDRICH NIETZSCHE
Prossigo esta semana na minha senda de recomendar leituras de há muitos anos. Uma espécie de RTP Memória em formato literário. Uma por outra vez lembro-me de livros dos quais gostei particularmente. Há que dizê-lo que também me vem suficientes vezes à ideia leituras das quais não gostei absolutamente e, mais ou menos em igual número, livros que não consegui terminar. Destes últimos não se fala aqui como é óbvio, a não ser que algo de surpreendente se tenha passado e, por exemplo venha a terminar uma leitura inacabada. Seria, de qualquer forma, caso raro. Bem, adiante, que para introdução esta já vai longa. Correndo o risco de estar a sugerir um livro que toda a gente já leu, faço-o de qualquer maneira. Pode servir para lembrar para oferecer ou, para quem gosta, para uma releitura. O Perfume é um dos mais extraordinários romances que me foi dado ler. Não sei já quando, a obra é de 1985, mas não deve ter tardado muito mais do que isso. Foi-me, como a esmagadora maioria do que leio recomendado por um amigo, que tambem ele estava estarrecido com a respectiva leitura. A história é absolutamente fascinante, as personagens excepcionalmente conseguidas, com expoente máximo em Jean-Baptiste Grenouille, o assassino. A trama, excepcionalmente bem concebida coloca no palco central da acção uma personagem que vem ao mundo no meio dos mais intensos odores e cheiros com duas características absolutamente ímpares e que dirigem toda a história até ao seu desenlace absolutamente apoteótico: Grenouille não tem cheiro corporal, nenhum. A par disso tem uma capacidade olfactiva absolutamente anormal, que o vai tornar num perfumista fabuloso. A sucessão de episódios que evoluem à volta de cheiros mais ou menos fétidos e perfumes mais ou menos divinais, redunda numa obsessão assassina em busca do odor essencial, obtido a prtir de um processo de destilação dos suores das vítimas. As viagens e os crimes de Grenouille compõe uma obra absolutamente magistral no seu surrealismo. É e há de ser um livro de sempre, com uma história base interessantíssima, contada num estilo e num ritmo poderosos. Posso acrescentar que as obras que li posteriormente do mesmo autor, não conseguiram, infelizmente despertar o mesmo tipo de entusiasmo. Este no entanto é de ler, comprar para oferecer ou mesmo reler. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Noite de Cinema

Fantástica noite a de ontem, promovida pelo Cineclube de Guimarães.
 A propósito de um documentário para a RTP acerca de Manuel António Pina, (o ultimo galardoado com o Prémio Camões), a exibição de um dos seus filmes favoritos (se não mesmo O seu filme favorito). "A Sombra do Caçador" com um Robert Mitchum num papel de antologia. Nunca tinha visto. O epíteto de obra prima assenta-lhe! Fenomenal sob qualquer ponto de vista!
Curiosidade: no intervalo foi sorteado o livro do M.A. Pina, que, veio cair nas mãos do meu amor, com direito a sessão de autógrafo (no singular). Noite boa!


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

QUANDO NIETZSCHE CHOROU de Irvin D. Yalom (Saída de Emergência)


"A angústia é a disposição fundamental que nos coloca perante o nada” HAIDEGGER
Nesta coluna tenho conseguido (na maior parte das vezes), falar de livros que acabei de ler ou que li muito recentemente. Acontece por vezes que por motivos de força maior não me é possível ler um livro novo por semana. Sendo que também acontece o contrário e há semanas em que leio mais do que um. Esta estranha introdução serve para me justificar de, por vezes, entre a leitura que fiz e a respectiva sugestão decorrer algum tempo. É o caso deste livro, que, foi lido já há mais de um ano mas que por um ou outro motivo nunca aqui sugeri. E tenho pena de não o ter feito antes. Vale a pena. É uma muito inteligente abordagem, com pouca liberdade histórica, sobre grandes mitos do pensamento do final do século XIX e principio do século XX, mais concretamente da filosofia e do estudo do cérebro como foram Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Josef Bauer. É um romance interessantíssimo que cruza a existência real dos protagonistas com factos das suas vidas, mas que lhe entrecruza uma vertente interior, que é o que, na minha opinião dá o “sal” a esta obra. Todos os protagonistas são vistos à luz dos seus próprios fantasmas interiores, e são numa forma muito cuidada alvo de “análise” pelo autor Irvin D. Yalom. Este autor, um académico da àrea, Professor de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, pinta-nos um retrato de uma Viena fervilhante de brilhantes intelectos onde estão a surgir os fundamentos na psicanálise. Este é um romance com um ponto de partida inteligente, que trata ainda assim da Amizade, do Amor e da Angústia, e que trata de se manter interessante da primeira até à ultima página. Um best-seller atípico, pelo tema. Ainda que os numeros não sejam nunca os argumentos para se sugerir uma leitura, que é muitas vezes fruto do marketing livreiro. Mas neste caso é a qualidade intrínseca que determina os impressionantes numeros de vendas. Estamos aqui a falar de um livro de 1992, não vão por acidente pensar que se trata de uma qualquer novidade, até porque estou certo de que para os mais atentos este é um daqueles casos em que esta sugestão vai clara e redondamente fora de prazo. Mas é fundamentalmente pelo palco e pelos actores deste romance, Friedrich Nietzsche, o maior filósofo da Europa, Josef Bauer um dos pais da psicanálise, e um jovem estudante chamado Sigmund Freud (cujo nome vale por si só), e pela trama que os envolve que este livro vale claramente a pena. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)