quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O SEMINARISTA de Rubem Fonseca (SEXTANTE EDITORA)


"Quando tiramos a vida aos homens, não sabemos, nem o que lhes tiramos, nem o que lhes damos.” Lord GEORGE BYRON

Está esta coluna quase a chegar à sua centésima sugestão de leitura, e dou-me conta, pelo motivo que a seguir se tornará claro, que há uma injustiça que precisa de reparo imediato. Se é verdade que tento agradecer por esta via boas sugestões e oferta de livros por parte de amigos, não deixará de ser estranho que nunca tenha publicamente agradecido ao individualmente considerado maior responsável pela existência e manutenção da “Estante Acidental”. Falo do meu bom Amigo Jorge Castelar, que, quando surgiu esta coluna era o Director do jornal O Povo de Guimarães, e a quem devo o apadrinhamento inicial, e muitas vezes a motivação, para continuar a aqui me atrever a sugerir e partilhar leituras. Ora como acima insinuei, este agradecimento não vem só. Foi também o Jorge Castelar que me ofereceu este fabuloso policial de Rubem Fonseca. Devo dizer que o li de fio a pavio, sem conseguir desligar. É um dos raros casos em que a coisa não admite que a gente se afaste do livro por mais do que meros instantes. É uma escrita veloz, inteligente e que cativa completamente da primeira à ultima página. O autor entra já directamente para o meu top de atenção literária. Vou procurar todas as outras obras de Rubem Fonseca e vou fazê-lo já. É a coisa mais parecida com Raymond Chandler que li escrita em português. É brilhante de humor negro, de violência gratuita e tem personagens espantosas, geniais. O fio condutor da obra radica numa personagem ímpar, que expende citações latinas para todas e em quaisquer situações. Sempre completamente a propósito e com um humor por vezes delirante. Consegue o que só grandes escritores conseguem (e perdoem-me mas só há ou grandes escritores ou tipos que escrevem... independentemente do género ) que é um equilíbrio constante entre o lado sério e negro da trama e um registo mais ligeiro que nos dá uma leitura de adição completa. Tenho agradecido muitas e boas sugestões, mas este “Seminarista” vai para o pódio ao lado pelo menos dos melhores dos meus ultimos policiais lidos, do Andrea Camilleri, do Manuel Vázquez Montalbán e do Chandler. Muito, muito bom. Obrigado Castelar! Comprem que não se arrependem! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
As Desventuras do Sr. Pinfold de Evelyn Waugh (Relógio d´Água)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O CEMITÉRIO DE PRAGA de Umberto Eco (GRADIVA)


"Não conspira quem nada ambiciona” SÓFOCLES
De regresso a um dos meus autores de culto e provavelmente um dos maiores e melhores escritores contemporâneos. Se “O Nome da Rosa” e “O Pendulo de Foucault” já foram aqui sugeridos, não poderia deixar de falar neste ultimo livro que tem características absolutamente únicas. Se deixarmos de lado alguma da polémica estéril que alimentou ao longo de meses por alturas do seu lançamento. A propósito de ser ou não ser uma obra de cariz panfletário anti-semita, o que para mim ou é “marketing” ou pura estupidez de quem não leu. Ou ainda de quem leu e não quis entender. Sim, que também há muito quem não perceba o que está para além da ponta do próprio nariz. Este livro é ao contrário de quem leve o que lê e vê ao pé da letra, um enorme exercicio de desconstrução e desmitificação de alguns dogmas relativos ao universo das seitas, movimentos e sociedades mais ou menos secretas, que dizem pulular por aí, e que neste final/principio de milénio tanto tem contribuido para a produção de literatura menor, ou pelo menos pouco interessante. Agora voltando ao livro: com um enredo fascinante, construindo um personagem genial de dupla personalidade, que é simultêneamente um abade e um notário especialista em todo o tipo de falsificações e mestre em jogos de espionagem, passa-se no final do século XIX, sobretudo, e divide-se entre Italia e França, principalmente Paris. Toda a trama se constrói no sentido de emprestar uma raíz histórica a um documento que continua a fascinar muitos pela sua ambiguidade: “Os Protocolos dos Sábios de Sião” texto apócrifo, ao que se diz inventado pela policia secreta russa, com base num livro pré-existente e que se destinaria a constituir os judeus como uma força organizada com intenções de dominação global. A coisa foi tão bem feita (e reporto-me sómente ao efeito histórico destes “protocolos” que foram estes inclusivamente aproveitados com o sinistro resultado que se conhece, para justificar a atitude nazi face ao povo judeu). Voltando ao livro, é uma obra de grande fôlego e enorme fidelidade histórica. Todos os acontecimentos narrados, desde a unificação de Itália em que Dalla Picola/Simonini acompanha Garibaldi na Sicilia até ao episódio da Comuna de Paris, passando por muitas peripécias em que se revela pela boca do narrador e principalmente pela da personagem principal todo o ódio que este por via do seu pai e avô destila contra todas os grupos politico/religiosos e sociedades ocultas mais ou menos conhecidas. É um desfilar de argumentos contra os jesuitas, os judeus, os maçons, os bonapartistas, os mazzinianos, etc, etc, etc. A lista segue imparável e é impagável. Mais do que um livro a gerar polémica, devia ser um livro a ler por alguns grupos de pessoas que se auto iludem em cerimoniais de grupo, e a quem por vezes o que mais faz falta não é uma divindade, um grande arquitecto ou uma luz. É mesmo um espelho! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
O Seminarista de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
As Desventuras do Sr. Pinfold de Evelyn Waugh (Relógio d´Água)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011