segunda-feira, 28 de novembro de 2011

INFORSCRAVOS de Douglas Coupland (Teorema)


"Nós nascemos, vivemos por um breve instante, e morremos. Sempre assim aconteceu durante imenso tempo. A tecnologia não ajuda muito isso – se é que muda alguma coisa” Steve Jobs
Douglas Coupland é, de entre autores que marcaram mais ou menos uma época, mais conhecido pelo romance que o lançou no meio literário nos anos noventa do século passado, o sucesso editorial “Geração X”. Recordo-me bem de me ter sido na altura indicado por um amigo que estava a viver em Sydney, na Austrália e à data não estar ainda publicado entre nós. Há na literatura sempre autores cuja obra fica de certa maneira “colada” a um determinado período histórico, neste caso Douglas Coupland é um de entre muitos e bons exemplos de jovens escritores que (d)escreveram uma realidade particular de uma altura considerada no tempo. Tal como muitos de que aqui temos falado, e muitos deles escreveram obras magníficas a retratar a sociedade dessa altura, também este autor nos traça um retrato da tipologia social de uma geração que começa a entrar no mercado de trabalho nessa ultima década do milénio passado. Este “Inforescravos” tem uma particularidade, retrata um grupo e jovens informáticos “nerds” que trabalham em empresas altamente tecnológicas e que levam um estilo de vida muito particular que oscila entre o obsessão pelo trabalho e o exagero que lhes permite ( a alguns) o dinheiro rápido e fácil que a actividade lhes proporciona. Entre os desequilíbrios, as ilusões de vida e a realidade de Bug, Karla, Dan e as demais personagens a que Douglas Coupland insufla de vida neste livro. Esta sugestão, mais do que um conselho para este livro em específico é uma chamada de atenção para um autor extraordinariamente interessante. A análise de um determinado grupo social, de certa forma hermético oferece-nos aqui bons momentos de leitura. Como não se trata aqui de divulgar novidades, mas sim de aconselhar livros e autores que num ou noutro momento nos deram prazer a ler, acho que é, se não conhecem ainda, pelo menos de tentar entrar neste pequeno universo. Poderá apenas dizer-se que, como é um universo de carácter absolutamente técnico e tecnológico por vezes nos podemos perder em um ou outro excesso de linguagem dessa natureza. Nada que não seja compensado pela análise inteligente e lúcida com que toda esta realidade nos é oferecida. Fixem o nome e procurem a obra. Estou certo de que não se arrependerão. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)

EXODUS de Leon Uris


"Os factos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles.” Clarisse Lispector
Nem sempre os livros de que me lembro para recomendar são os mais recentes. Este é um caso que configura algo de especial e que, poucas vezes me aconteceu. Muito menos vezes com romances de cerca de 600 páginas como este. Foi o primeiro livro de que tenho memória de ter livro do princípio ao fim sem interrupções. Comecei-o numa noite pelas vinte e duas horas e acabei já com o sol nascido perto das sete da manhã. Se melhor cartão-de-visita houvesse. Foi dos primeiros encontros que tive com uma forma de escrita absolutamente viciante. Leon Uris, o autor faz a história da criação do estado de Israel com recurso ao cruzamento de uma série de histórias individuais. O nome “Exodus” foi retirado de um navio de imigração de judeus com destino à palestina em 1947. Há inclusive um filme de 1960 que teve origem nesta obra, para quem se lembra, protagonizado por Paul Newman. Parece-me que no acto de ler há factores que determinam o interesse e a dedicação que se pode por relativamente a todas as obras. Há quem, por princípio ou por educação de gosto se detenha mais em autores e obras mais densas, menos fáceis, de segundas e terceiras leituras. Obras com camadas que se vão descobrindo, o que determina quase sempre um abrandamento da velocidade de leitura. Há outras que nos fazem acelerar e consumir o que o autor nos oferece com um ritmo que a partir de determinada altura deixamos de controlar. Não há muitos casos desses, ou melhor dito, fora de determinado registo de literatura mais ligeira, por assim dizer, é difícil conseguir fazer com que um leitor vagamente experiente se deixe conduzir à velocidade que a leitura determina. Este é para mim um caso paradigmático e exemplar de como um bom escritor, com uma boa história ( e esta é de certeza uma das melhores, a génese de uma nação) nos consegue por a ler com uma vontade e um “vício” tal que só conseguimos parar por razões físicas. É um livro que, por motivos que todos reconhecemos não deixa de ser actual e é de certa forma explicativo de muito do que ainda configura um conflito que nos habituamos a aceitar que não tenha fim à vista. É das sugestões que considero absolutamente seguras. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)


"Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros tem de curiosamente atractivo” Oscar Wilde
Começo por um aviso, que aliás devia constar na capa deste livro. É para adultos! E de entre os adultos, refaço o aviso: não é para todos! É das coisas mais difícil de classificar de todas as que tenho lido, e não me refiro aos últimos tempos. De sempre! É um livro absolutamente genial. Brutal, crú, inteligente, escatológico, gráfico, descritivo, obsceno, mas sobretudo de um humor fora de série, e profundamente humano, é bom frisar. O titulo não é definitivamente uma manobra de marketing livreiro, é de facto uma espécie de porno (e)popeia. É talvez o retrato mais vivido de alguém que vive no extremo, o protagonista, o genial José Carlos (Zeca) conta-nos na primeira pessoa os dias e noites da sua vida absolutamente dissoluta. Não encontro nada de semelhante na literatura lusa de que me lembre, é como se houvesse um Irvine Welsh brasileiro, mas num registo tropical, sem todas aquelas sombras anglo-saxónicas do “Trainspotting” e subsequentes obras de Welsh. É o retrato do bom malandro, viciado em drogas, álcool e sexo. E simultaneamente acrescenta-nos algo. Todo o percurso do protagonista é de leitura compulsiva e, oferece-nos em permanência uma surpreendente visão das coisas. Devo alertar para que o tom e o conteúdo não são propriamente para os mais sensíveis. Mas que dizer, fiquei “agarrado” desde a primeira página. Tem momentos absolutamente delirantes de humor, uma forma de escrever fantástica, recorrendo a um registo quase de oralidade, aproveitando todas as sonoridades e potencialidades que o calão e a gíria em que o português do Brasil é tão rico. Suponho que será o tipo de livro que gerará alguma polémica quanto ao tom, terá reacções de amor/ódio com certeza. Eu, pela minha parte, mergulhei por completo nesta leitura que tem uma história e um percurso que, para dizer o mínimo, é atípico. Mas volto a reafirmar que é uma obra que li e recomendo. E corro esse risco com o maior prazer. Porque para além do óbvio, do crú, e do que por vezes parece propositadamente produzido para chocar, contém afinal, aquilo que só os grandes livros possuem. A vida, no seu esplendor e nas suas pequenas e grandes degradações. Não preciso de grandes dotes divinatórios para prever que se vai tornar numa obra de referência. Consensual nunca será, mas é magnífica de qualquer modo. Obrigado ao Miguel Carvalho que mais uma vez me oferece algumas muito boas horas de leitura. Vá lá. Atrevam-se e Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

AS DESVENTURAS DO SR. PINFOLD de Evelyn Waugh (Relógio d´Água)


"Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem” SAMUEL BECKETT
É, confesso, a primeira leitura que faço de Evelyn Waugh. Facto que merecerá provavelmente alguma censura, sabendo-se que Waugh é autor de, entre outras obras “Reviver o Passado em Bridshead”, e um dos grandes romancistas e polemistas britânicos do Séc. XX. Este livro apesar de ser um pouco controverso relativamente à totalidade da obra de Waugh e ser por alguns tido como um produto relativamente menor no todo da obra, não deixa de não ser um excelente ponto de partida. Mantendo a fidelidade aos propósitos desta coluna de sugestões de leitura, não trago aqui nada que não me tenha dado prazer em ler. Com este livro não foi diferente. O inicio é absolutamente cativante com o "retrato do artista na meia idade", uma viagem a um universo interior de Gilbert Pinfold, o protagonista que é simultaneamente um alter ego de Waugh. A história tem uma origem assumidamente autobiografica. Reproduz uma das fases da vida de Evelyn Waugh em que este, afundado em consumos excessivos de fenobarbitol e alcoól, a conselho do seu médico particular e psiquiatra passa para texto as experiências que essas adições lhe provocam. É um compêndio de alucinações, que resultam de uma situação de quase esgotamento nervoso por que passa o autor. O livro e a personagem, Gilbert Pinfold, dão-nos com a clareza possivel a atmosfera do que é a perturbação, a confusão e o relativo desvario mental. A forma como está contada a história, todas as personagens que envolvem Pinfold e a “viagem” em que este se envolve dão a exacta medida de quão facil nos é perdermo-nos dentro de nós. Gilbert Pinfold reproduz a bordo do SS Caliban, um paquete que ruma a Ceilão (Sri Lanka) a viagem que o autor anteriormente realizou e onde se sucedem as “desventuras” que dão o titulo à narrativa. As sucessivas apariçoes de vozes, supostamente com origem num sistema de comunicações “fantasma” e de onde, aliás, surgem as personagens mais interessantes porque são fruto de um processo mental em desintoxicação. É um bom livro, que se lê com muito agrado e de forma muito rápida. Dá uma boa ideia daquilo que Waugh nos pode oferecer no resto da obra. O que, a seu tempo farei e aqui, se for o caso darei devida conta.Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Livros Cotovia)


"O roubado que ri furta algo ao seu ladrão” William Shakespeare
Há já algumas edições que aqui não se sugeria um policial. É, como se pode concluir da percentagem assinalável de sugestões do género, uma das minhas leituras favoritas. Este de que se fala hoje foi-me recomendado ( e dado a ler, valha a verdade…) pelo meu bom amigo Miguel Bastos, vimaranense dos sete costados emigrado em terras do Vale do Sousa. E a verdade toda é que até agora não tem falhado um único tiro, este não foi a excepção. Lawrence Block é um autor consagrado ne género, que apesar de tudo me era completamente desconhecido. São os casos em que mais prazer tiro da leitura, quando não conheço absolutamente nada do autor e a expectativa está somente ao nível da recomendação. Posso-vos dizer que gostei, apesar de também me ter sido dito que haverá obras menos conseguidas por Lawrence Block, esta não é certamente uma delas. De qualquer forma, como tenho o hábito de fazer, vou mais uma vez desfiar o novelo das obras deste autor e estarei atento ao que me aparecer. Lawrence Block tem enorme sucesso com, sobretudo, duas personagens diferentes nos seus romances uma é um ex-policia alcoólico Matthew Scudder, cujos livros decorrem num ambiente mais pesado e Bernie Rhodenbarr, o simpático e urbano ladrão que é a personagem principal deste “Ladrão que estudava Espinosa”. É um registo realmente ligeiro este onde se move Bernie e a sua parceira Carolyn, que fazendo justiça ao dito “ladrão que rouba ladrão…” rouba a namorada a Bernie. Neste livro, e nas obras em que Rhodenbarr é o protagonista, cabe-lhe normalmente provar a sua inocência num crime que não cometeu, e neste, em particular, tem que provar que é tão somente um simples ladrão e não um assassino. É uma trama bem montada, que só se revela completamente nas ultimas páginas, na melhor tradição da escrita policiária. Personagens interessantes, um enredo na melhor tradição policial e algum humor, fazem deste livro uma boa companhia para algumas horas. Um livro já de 1980, e que, repito, me vai obrigar a mais uma busca de novas obras deste autor que me despertou definitivamente a curiosidade. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Acidentalmente chegamos às Cem!


"Eu sempre imaginei que o paraíso deve ser algum tipo de biblioteca” Jorge Luis Borges
Esta semana esta coluna chega à sua centésima edição. Fizeram-se aqui mais ou menos o mesmo número de sugestões de leitura. Dentro do aleatório que é aquilo que tenho vindo a ler, ou coisas mais antigas cujo prazer de ler me apeteceu partilhar. O número em si, não significa nada, mas é uma boa oportunidade para falar um pouco da minha relação com os livros. Uma boa porção daquilo que sou hoje devo-o ao que li. Muito mais do que o que vivi por mim, grande parte da experiência de vida que me acompanha tomei-a emprestada de muitos e bons contadores de histórias. Hoje, talvez seja mais difícil acompanhar (e sobretudo escolher) tudo o que de bom vai sendo publicado. Numa lógica de “publish or die” que vem a ser o grande lema de editores e livreiros, temos as estantes das livrarias, as de facto e as virtuais, positivamente vergadas ao peso de muita coisa que não vale o papel em foi impressa. A selecção nunca é fácil de fazer. Passa muito pelo que me vão dizendo e indicando os meus amigos e companheiros de leitura. A todos eles, devo muito. Uma boa sugestão de leitura tem para mim um valor incomparável. É verdade que como toda a gente que lê tenho os meus favoritos, aqueles autores de quem se espera a próxima obra com a expectativa de quem vai rever um amigo ausente. E que normalmente não me desiludem. Não sei muito bem o que é um bom livro. É de certeza uma perspectiva individual, tão certo como um livro é uma história diferente para cada um que o lê. Ao contrário do cinema ou do teatro em que vemos o que nos é mostrado, um livro dá-nos a todos e a cada um a liberdade de construirmos os nossos cenários e personagens de acordo com o nosso próprio mapa mental. É por isso que somos tão diferentes e individuais quando postos em frente de uma mesma obra, porque a vemos e sentimos de forma absolutamente diversa. Esta semana, aproveitando descaradamente este pseudo centenário não vou sugerir nada em particular. Parece-me sobretudo importante que se vá introduzindo aos poucos nos outros uma maior paixão pelos livros e pela leitura. Não sei se esse é um papel da Escola, dos Pais ou da Sociedade, mas é de certeza O papel da Educação. Quanto mais e melhor lemos, mais armas possuímos para nos defendermos. A vida não está de certeza toda nos livros, mas que sem eles faria menos sentido, disso não tenho a mais pequena dúvida. Assim, cá voltarei para a semana, já não para verter algumas banalidades acerca de livros e leituras como hoje, mas para fazer o que, afinal aqui sempre me propus, partilhar aquilo que tenho lido e gostado. Obrigado a todos que de uma forma ou outra me fazem sentir que vale a pela ler e partilhar. Abraços e Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)