quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

LÚCIO FETEIRA (A História Desconhecida – Das Origens à Glória Vol. I) de Miguel Carvalho (Quidnovi)


"Nenhum homem é suficientemente rico para comprar o seu passado” Oscar Wilde
Este livro é seguramente um caso muito especial. Para início de conversa e fornecendo a respectiva declaração de interesses, fica desde já registado que o Miguel Carvalho é um querido amigo meu em territórios que extravasam em muito o âmbito literário. É difícil, como sabem todos os que o conhecem, separar o Miguel daquilo que escreve. Sem puxar para aqui outros galões que não os da amizade (e o Miguel tem-nos como poucos) deixem-me dizer aquilo que já de outras obras dele me atinge naquilo que ele escreve. As palavras para descrever a obra de um amigo são de parto difícil, porque se há a tentação estúpida e inconsequente de sermos um juiz mais imparcial pela proximidade, há também um conhecimento mais próximo do autor que pode afectar pela confusão entre o que conhecemos do autor e do que ele reflecte na obra. Tudo isto é com o Miguel Carvalho um exercício de grande inutilidade, e felizmente pelas mais simples e melhores razões. A obra fala por si. É irrelevante que quem a escreve seja, de facto, tal como o produto do seu trabalho alguém que se traduz na vida, como na escrita, pela integridade, pelo humanismo e sobretudo pela verdade. A obra tem sido amplamente divulgada, novos desenvolvimentos num caso de homicídio extraordinariamente mediatizado entre Portugal e o Brasil despertaram um interesse pela vida e obra de Lúcio Tomé Feteira, um homem invulgar que ascendeu a uma posição de riqueza e poder ainda hoje difíceis de quantificar. Foi a hercúlea tarefa a que o Miguel se dedicou, com um trabalho de pesquisa que elenca factos e episódios recolhidos em inúmeras fontes e contactos que depois se traduzem numa história que vai para além do mero registo biográfico/factual. É esse o grande talento do Miguel, que quem o tem acompanhado em outras publicações anteriores e sobretudo no trabalho que faz na Revista Visão, reconhece sem esforço. O Miguel (d)escreve sem nunca perder de vista o essencial, e o essencial somos nós, as pessoas, a gente que passa pela escrita do Miguel tem sempre uma vida diferente, insuflada por uma forma de escrever e contar que nos dá um quadro profundamente humano, que procura por cima dos factos chegar ao que os transforma. Não sei se neste caso, (como em grande parte dos registos biográficos) se consegue chegar verdadeiramente ao âmago, à essência do retratado, mas se neste não se chega por via do que nos conta o Miguel, muito dificilmente se chegará por melhor caminho. Revelo aqui, porque me foi permitido fazê-lo, que este livro é, antes e mais do que o produto do esforço, dedicação e talento de um amigo, um momento raro e de grande significado para mim, que foi o facto de o Miguel me ter enviado as provas do livro para leitura antes da edição e de surpreendentemente me ter incluído nos agradecimentos finais. O agradecimento é obviamente meu, muito pela confiança, muito pela obra, mas sobretudo e absolutamente pela Amizade. Se há livro que posso sugerir sem qualquer espécie de hesitação é este. Não hesitem também e mergulhem sem medo na história de um homem invulgar, invulgarmente bem retratado pelo Miguel Carvalho, pelo menos até onde este primeiro volume nos deixa! Aguardemos pois o próximo e…. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

FERRUGEM AMERICANA de Philipp Meyer (Bertrand)


"Não adianta discutir com o inevitável. O único argumento disponível contra o vento de leste é vestir o sobretudo” James Lowell
Presente de aniversário de uns queridos amigos e amplamente recomendado, este “Ferrugem Americana” não oxida minimamente o leitor. É um grande romance, na melhor tradição americana. Sou insuspeitamente um admirador de Hemingway, de Faulkner, de Steinbeck e de outros que o século XX nos ofereceu como grandes pintores da paisagem americana. Este é um retrato de uma América profunda, de um cenário de devastação pós-industrial (tem muito daquilo que se ouve e lê nas musicas de Bruce Springsteen). É uma obra que desce à vida do americano médio numa cidade atacada pelos fumos da globalização, do desemprego colectivo, da desilusão em massa. De um presente que não oferece saída. É um romance que nos pinta um certo fim do sonho americano. Os escritores que mais aprecio são, na sua maioria, grandes construtores de personagens. Philipp Meyer é exímio nessa tarefa, que é quase sempre o núcleo daquilo que se pretende contar. Não gosto e sempre que posso tento sugerir a leitura pelo impacto que me causa e não antecipando a respectiva história. Uma coisa é descrever o que se passa no livro, o que de certa forma, pelo menos a mim, me mata um pouco o interesse, e outra bem diferente é tentar passar o que se sente ao ler determinada obra. Esta, a par de algumas, e, valha a verdade, cada vez menos, impressionou-me. É bom saber que nas novas gerações de escritores, (Philipp Meyer nasceu em 1974), há vozes destas. Com profundidade, com introspecção e não meramente “escritores a metro” que fazem desaguar nas livrarias páginas e páginas de escrita menor, tantas vezes incensadas apenas pelos mecanismos de propulsão de vendas. É assim o mundo de hoje. Alguns publicam tudo e a toda a hora, com muito pouca mensagem, com muito pouco para dar ao leitor. Não confundir com esta história de Isaac e Poe (sobretudo estes) que nos dá uma outra mensagem, à medida dos tempos que vivemos. São jovens, desiludidos e com horizontes, um e outro à sua maneira, mas sem estrada para caminhar. Há livros que reproduzem a vida tal como ela é, sem artifícios, sem apelos a nada que não seja uma intensa e profunda verdade. Este é claramente um deles. De um novo autor a prometer muitas e boas coisas no futuro. Não deixem de ler, em geral, e este livro em particular. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)