segunda-feira, 30 de abril de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Bufo & Spallanzani de Rubem Fonseca (Sextante)


 “O sono é um entreacto no drama da vida.” Jean Commerson


Cumprindo uma auto imposição de que aqui dei conta há algumas semanas, fui em busca de mais obras de Rubem Fonseca. No espaço de tempo entre a última sugestão que fiz da obra deste autor, “O Seminarista” e que tão bem me abriu as portas desta escrita deliciosa e genial, o próprio autor esteve em Portugal integrado no “Correntes d´Escrita”, espécie de congresso de letras da lusofonia. Dentro desse contexto quero crer que muitos dos meus amigos que comigo partilham este “vício” das leituras, terão tido a oportunidade de o ficar a conhecer melhor pela exposição mediática que teve. Para quem ainda não leu, fica aqui mais do que uma sugestão, um aviso para a perda que é não conhecer este registo absolutamente único de mais um dos autores sénior que constituem cada vez mais uma espécie de Senado das Letras a que me vou cada vez mais rendendo. Este “Bufo & Spallanzani” é mais um policial, e é tão-somente o policial mais atípico que me recordo de ler. Em tudo, desde as personagens, ao título mas sobretudo na estrutura da narrativa que é absolutamente genial. É uma espécie de livro que se escreve por dentro, como poderão verificar pela leitura. Começa de forma absolutamente normal para qualquer romance policial, com o proverbial crime e o proverbial polícia que inicia a tarefa das investigações, mas este registo dura um par de capítulos, porque a história começa a traçar curvas e diagonais entre a história de início e a história do próprio narrador, cozinhada da forma absolutamente brilhante. O que mais admiro na forma como Rubem Fonseca escreve é a sua infinita capacidade de ironizar e de dar às suas personagens aquele carater de beira-de-precipício que as ajuda a tornar absolutamente credíveis. Este livro em particular constitui-se como um exercício de escrita em que o rótulo de romance policial é absolutamente acessório. É para mim, pelo menos, um excelente livro, que, por acaso anda à volta de um crime. A construção da personagem principal é magistral, ressalto o capítulo “O meu passado negro” onde se começa a conhecer o percurso do protagonista e que é um delírio de bem escrito e imaginado. Para quem conhece não é nada de novo certamente, para quem não conhece, recomendo absolutamente. A realidade pode, em confronto com os livros de Rubem Fonseca (pelo menos este par deles que já li) estar claramente a perder para este mundo que de tão bem ficcionado e escrito não se consegue parar de ler. Muito bom! Aproveitem! Boas Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

RAVELSTEIN de Saul Bellow (Quetzal)


 “Uma vida bem escrita é quase tão rara como uma bem vivida.” Thomas Carlyle

Autor e livro novos para mim. Saul Bellow, que, pelos vistos estranhamente andava a perseguir não pela sua mais famosa “As Aventuras de Augie March” (que também já me foi citada por várias vezes) mas de uma obra chamada “Seize the Day” de 1965, a qual nem sei se está traduzida para português. Publicada ao que (não) consegui apurar, não está. Enfim, dentro deste meu espirito de busca de novidades onde estão sempre alguns autores e obras que vou recolhendo por sugestão de amigos e conhecidos, estava Saul Bellow. Pois, sem o saber a minha grande amiga Xana ofereceu-me este “Ravelstein” que, serviu, e de que maneira para me iniciar em mais este caminho por um autor diferente. Se é novidade para mim, também não é mais do que justo reconhecer que Saul Bellow é um nome grande da literatura norte-americana, foi prémio Nobel da Literatura em 1976 e entre outros galardões literários conseguiu também um Pullitzer. Ora, sem absolutamente mais nada a que me agarrar em termos de referência, lancei (literalmente) mãos à obra. E, a verdade é que se o incluo nesta coluna semanal de sugestões é por tudo menos por favor. Gostei mesmo muito. Vou repetir-me uma vez mais, mas é apenas mais uma confirmação de que o que me parecia coincidência, se está lentamente a tornar num padrão evidente. Os autores que mais aprecio ultimamente são todos maiores de idade, começou essa verificação com o enorme J. Rentes de Carvalho, passou pelo Andrea Camilleri e, sem querer ser exaustivo, está a continuar com Saul Bellow, que escreveu este “Ravelstein” já bem entrado na idade. O livro em si é uma construção de uma personagem peculiar, o próprio Ravelstein, biografado pelo seu melhor amigo Chick. A forma como se descreve a personagem e o seu entorno é magnífica e ilustra, para mim pelo menos, uma forma de escrita elevada e atenta. O melhor deste livro, está no facto de se poder olhar o mundo pelos olhos de quem narra a história de uma amigo. A personagem Ravelstein é de certa forma uma justaposição de muitas outras, mas é através dela que o narrador (e também por sua vez Saul Bellow,) nos dá uma visão abrangente de um mundo e uma forma de o viver que é de um grande escrutínio social. Gostei e recomendo. E vou agora com outra força tentar ler mais de Saul Bellow. Obrigado Xana ;) Boas Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Bufo & Spallanzani de Rubem Fonseca (Sextante)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O ASSASSINO À CHUVA E OUTRAS HISTÓRIAS de Raymond Chandler (Afrontamento)


"É preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências salvam-nos das grandes.” Clarisse Lispector

O romance policial sofreu sempre, e acho que sofre ainda de um certo complexo de inferioridade literária na mente de algumas pessoas. Para mim nada de mais longe da verdade. Sou, e aqui o tenho reafirmado ao longo destas sugestões um leitor ávido de bons policiais. Felizmente (não só para mim) há muitos e bons autores que fizeram deste género uma fonte inesgotável de horas de prazer. Mas há que reconhecer que há quem tenha feito um pouco mais do que a maioria para elevar o nível dentro deste clube restrito. E Raymond Chandler é absolutamente incontornável nessa eventual lista. Este livro “O Assassino à Chuva e Outras Histórias” é nada mais, nada menos do que um clássico. Publicado nos anos 30 do século passado, esta obra reúne as primeiras incursões de Chandler neste universo. E define-o, de certa forma. Descobre-se um grande escritor, que acidentalmente escreve sobre um mundo que é também ele de facto, violento. Com um cenário real à sua volta de uma Grande Depressão e fazendo da Los Angeles do cinema e de uma certa degradação moral o seu território de eleição, Chandler oferece-nos um panorama absolutamente impar à época. O estilo é absolutamente único e foi percursor, ainda esta semana comprei uma obra do genial Rubem Fonseca (de que falarei certamente aqui daqui a muito pouco tempo…), e lá estava num dos comentários da badana a comparação a Chandler. Para entremear, também digo aqui que as comparações me aborrecem um pouco em literatura. Um autor é um autor, são todos diferentes, o que por vezes há (e cada vez mais…) são autores que infelizmente andam muito longe daquilo a que eu gosto de pensar que é um escritor. Raymond Chandler, mostra-se logo nestes seus primeiros escritos um escritor muito consistente e que impõe um ambiente muito próprio. É um mestre nos jogos de cambiantes, no conduzir o leitor para estados de tensão e suspense. É um leitor da sociedade e do homem muito atento e que nos traça um perfil da violência em si mesma que, e falo aqui só por mim, não conheço antes de Chandler. Para ponto de partida não posso recomendar melhor, para quem queira entrar no universo de Chandler, até porque, inevitavelmente irá dar por si a seguir os passos de um dos mais famosos detetives literários de sempre: Philip Marlowe. Acreditem que vale a pena. Boas Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Bufo & Spallanzani de Rubem Fonseca (Sextante)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)
Ravelstein de Saul Bellow (Quetzal)

Já cá mora...


CONTOS COMPLETOS (1947-1992) de Gabriel Garcia Marquez (D. Quixote)


"Um livro de contos é um livro ligeiro de emoções curtas: deve portanto ser leve, portátil, fácil de se levar na algibeira para debaixo de uma árvore, e confortável para se ter à cabeceira da cama. Não pode ter o formato dum relatório, que, sendo destinado em definitivo a embrulhar objectos, deve ter de antemão o tamanho cómodo do papel de embrulho; nem pode ter o volume dum calhamaço de erudição histórica, impresso com o fim de ornamentar uma biblioteca.” Eça de Queiróz


Não resisti à citação Queirosiana acima. É um facto que o conto, a novela ou “short story” é um registo literário que não é um domínio universal. Há imensos factores a determinar a qualidade dos grandes “contadores de contos”. Há desde o registo mais factual, e nesse campo há muitos autores que se nota que vem claramente do jornalismo para esta área ( e Gabriel Garcia Marquez não é aqui a excepção), e há-os que dentro de um campo mais especificamente literato também por aqui fazem umas incursões. Eu devo dizer que sou um aficionado deste género e que tenho tido, felizmente, a sorte de ter lido muitos e muito bons livros de contos. Lembro-me sobretudo de ter descoberto, já no final da adolescência num alfarrabista amigo, um pequeno livro de contos de Oscar Wilde, que li, e nele fui encontrar histórias da minha infância, que erradamente atribuía ao domínio da cultura popular. Um dia aqui falarei dessa boa surpresa. Hoje no entanto o tema é outro. É um regresso a um dos meus autores favoritos, e que durante o tempo em que durou a tremenda ilusão que me causou o “Cem Anos de Solidão” esteve num patamar cimeiro das minhas preferências. A este respeito, e correndo o risco de me repetir, foi talvez o único dos grandes livros da minha vida que não consegui reler. Ainda não sei o porquê desse impedimento, mas a verdade é que quando alguns anos depois da leitura inicial peguei no livro para o reler, não consegui passar da primeira página. Um destes dias tento outra vez. Voltando à sugestão (ou sugestões ) desta semana, é absolutamente fácil recomendar esta obra. Estão neste volume (que contradiz em parte a recomendação de Eça de Queiróz acima, mas que se compreende que todos estes contos obedeceram a ela cada um na sua vez), dizia, estão neste volume 45 anos de escrita, representados numa coleção de 41 contos. Para quem já leu Gabriel Garcia Marquez, é quase abusivo tecer considerações ou mesmo tentar apontar méritos à sua escrita. Para quem, por azar, nunca tenha lido, tem aqui muitos e bons caminhos para iniciar esse trilho. Por manifesta falta de espaço a que esta coluna me obriga, voltarei a este volume de contos com a minha opinião sobre aqueles de que mais gostei. No entretanto, comprem, e aproveitem, é no mínimo mágico. Boas Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)
Ravelstein de Saul Bellow (Quetzal)