quarta-feira, 18 de julho de 2012

O PRISIONEIRO DO CÉU de Carlos Ruiz Zafón (Planeta)

"Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo."Friedrich Nietzsche



Para início de conversa devo afirmar que este livro que hoje se sugere foi, de facto, comprado no aeroporto. Não que, como mais de uma vez aqui tenho abordado, Carlos Ruiz Zafón, configure aquilo que genericamente se costuma designar por autor de leituras aeroportuárias. Tema que certamente me garantiria uma boa polémica com alguns dos puristas que enxameiam o terreno de piso incerto que é a critica literária, este de se saber quem, ou que tipo de livros, constituem essa categoria (muitas vezes injustiçada) de "leitura de aeroporto". Rótulos eventuais à parte o facto que aqui importa, e é o que me faz ciclicamente cá voltar com estas sugestões que podem ou não agradar, é o de que Carlos Ruiz Zafón é autor de um universo literário do qual me tornei claramente aficionado. Neste "O Prisioneiro do Céu", regressamos às personagens de "A Sombra do Vento" e a todo esse ambiente soturno e gótico que é a Barcelona dos anos 50 contada por Zafón. O "Cemitério dos Livros Esquecidos" é como já o disse a propósito de romance anterior, uma das criações literárias que mais fará sonhar leitores e bibliófilos por esse mundo fora, e volta a aparecer neste livro. O magnífico Fermín Romero de Torres, que é uma das personagens mais bem conseguidas que tenho encontrado em tudo o que tenho lido nos últimos anos, volta e revela-nos parte do seu passado, que curiosamente está quase desde sempre ligado ao de Daniel Sempere, numa teia que cada vez mais se desenha de forma visível. Este pequeno mundo barcelonês, com o seu lado fantástico e quase místico entra-nos com facilidade, e é por aqui que damos conta que vamos cada vez melhor conhecendo a natureza dos homens e da sua perfídia. Neste livro, que deixa uma vez mais uma porta aberta para uma resolução que se adivinha, e uma vingança que fica por fazer, vemos também uma pequena homenagem a Dumas e ao "Conde de Monte Cristo", transformando-se o Castelo de If no de Montjuic. Enfim, um livro que se lê de seguida, num fôlego, e com ânsia renovada de saber o que se irá passar a seguir. E conforme aqui tenho repetido, o que não me custa nada fazer, tem aquele que é o sinal do bom entretenimento. Quando acaba ficamos a pedir mais. Não se pode pedir muito mais do que isso. Nos livros e no
resto. Escrita numa ilha algures no Mediterrâneo, espero que esta sugestão vos apanhe em ou a caminho de férias. A ser assim, não percam tempo e aprisionem este livro que é à sua maneira um bocadinho de céu.
Boa Semana e… Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:

Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)



quinta-feira, 5 de julho de 2012

A GRANDE ARTE de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


“Toda a arte é um problema de equilíbrio entre dois opostos” Cesare Pavese


Há livros e livros. Deste estou positivamente a “ressacar”. Para início de conversa adianto já que é um extraordinário romance, que só por acaso também é um magnífico policial. De Rubem Fonseca outros melhor do que eu falarão com certeza, do seu trajeto, da sua obra, dos seus prémios, das suas características enquanto autor etc. Eu, que aqui nada mais pretendo, do que sugerir livros de que gosto ou gostei, tenho mais uma vez o meu papel extraordinariamente facilitado. Quem leu já algo de Rubem Fonseca sabe que a expectativa é sempre alta para todas as obras que se nos apresentam. Esta, de 1983, é, com grande probabilidade a que mais me fascinou até agora. Devo aqui confessar que conheci primeiro o protagonista destes romances, o advogado Mandrake, numa série televisiva que passou há algum tempo na RTP2, protagonizada pelo ator Marcos Palmeira e da qual na altura fiquei adepto. Para verem que sou um perfeito iniciado na obra de Rubem Fonseca esta série passou na TV em 2010. E a verdade toda é que devo a apresentação a este fantástico escritor ao meu Amigo Jorge Castelar que me ofereceu o “Seminarista” do qual já aqui falei e que de forma completamente automática me inoculou o vício de ler este Senhor. Do livro em si, e mantendo um certo hábito de não revelar demasiado, posso dizer que é um portento. As personagens são geniais, desde o protagonista que é o narrador na primeira pessoa estando em cena e na terceira quando relata factos terceiros, até uma galeria absolutamente espantosa. O registo, como já aqui o tenho dito é o que está somente ao alcance dos melhores, que é o da montagem uma atmosfera tão cheia de factos e personagens surreais que se tornam absolutamente reais. Sei que é um conceito difícil de explicar, mas se lerem tenho a certeza que concordarão comigo. Há um registo “noir” que acompanha a obra, grandes e pequenos vilões, uma violência que não se consegue deixar de acompanhar, os hábitos de vida de Mandrake, a sua relação com as mulheres, e um impressionante registo de factos e remissões para outros domínios culturais. Para dar alguns exemplos, a mitologia grega que perpassa o romance no seu todo, quer nos nomes de personagens quer na morte de uma das personagens principais, o surreal na cena absolutamente ímpar do anão “Nariz de Ferro” e a “vagina dentata”, a técnica de combate (Percor) e toda a “grande arte” da luta com lâminas a par do elenco enciclopédico das armas em si. Enfim, a descrição de todos os ambientes, dos mais degradados até aos salões mais luxuosos. É um livro absolutamente obrigatório e ficará para mim como uma referência por muito tempo, estou certo. Não percam mais tempo e leiam qualquer coisa deste senhor! Grande Arte é escrever assim, desta maneira, livros como este! Boa Semana e… Melhores Leituras! J
Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)