terça-feira, 14 de agosto de 2012

KYOTO de Yasunary Kawabata (D. Quixote)


“A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem” Simone Weil


Quem andar minimamente atento às linhas finais desta crónica não ficará surpreso com esta sugestão. Este livro estava em “lista de espera” há largos meses. Não por nada de especial, simplesmente foram entrando para a “Mesinha de Cabeceira” artigos dos quais estava mais à espera. E a verdade é que foi bom aguardar. A literatura oriental, tem sido de facto um dos territórios inexplorados nas minhas incursões de leitura. Salvaguardando Haruki Murakami, de quem já por aqui tenho falado mais do que uma vez, e que foi a determinada altura uma pequena obsessão temporária, pouco mais me resta. Yasunary Kawabata nada mais significava para mim do que um nome na já longa lista de laureados com o Premio Nobel da Literatura, mais precisamente em 1968. Ora, o que também faz algum sentido dizer aqui uma vez mais,é o facto de que não é a quantidade de prémios, artigos, criticas ou polémicas que me levam a ler este ou aquele autor. Felizmente conto entre os meus amigos alguns leitores tão ou mais “furiosos” do que eu, o que para além de me facilitar imenso a tarefa, ainda me arranja belíssimas leituras em “segunda mão”. E foi assim mais uma vez que este exemplar me caiu no colo. É sempre complicado rotular uma leitura que foge um pouco ao registo que me é mais habitual (ou, se calhar é mesmo um registo que tem a ver com a orientalidade e a época). Este livro é uma obra de uma beleza extraordinária. Entra num universo de difícil penetração que é o da psique feminina, mas fá-lo com uma leveza e uma graça absolutas. Toda a construção é de uma subtileza e de uma sensibilidade que nos leva de imediato para o universo que é descrito e no qual mergulhamos pouco a pouco até ficarmos completamente submersos nesse ambiente. Há um fator que nem sempre tenho referido mas que é, talvez, uma das características que marca (para o bem e para o mal) a forma como se conta uma história: o ritmo. Neste o tempo parece quase mover-se à medida da história, acompanhado pelas magnificas descrições dos ambientes naturais de Kyoto (também ela protagonista quase principal da história), dos usos e costumes e ritos que o Japão do pós-guerra ainda vai conseguindo manter. Da história propriamente dita, mais uma vez escondo o jogo, vão ter de ler para saber. E acho que é mesmo a melhor forma de terminar esta sugestão é essa: ler mais para saber mais. Este é mais um livro e um autor que acrescentam. Aproveitem. Boa Semana e… Melhores Leituras! J
Na Mesinha De Cabeceira:
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)

O JOGO DO ANJO de Carlos Ruiz Zafón (D. Quixote)

"O jogo é um corpo-a-corpo com o destino." Anatole France

Chegados que somos a vésperas de férias do jornal, que retomará publicação em Setembro, deixo aqui mais uma sugestão para o período que se segue e que, espero, seja também de descanso e de boas leituras. Uma vez mais, a ordem dos fatores se tornou arbitraria, nesta minha incursão pelo universo literário de Carlos Ruiz Zafón. Este é o segundo livro da esperada e celebrada tetralogia deste autor. Comecei pela “Sombra do Vento” e, como decerto se recordarão, aqui sugeri recentemente “O Prisioneiro do Céu”, a mais recente das obras deste conjunto. De qualquer forma a intenção anunciada do autor é a de que cada um destes tomos seja tomado como um livro único, uma história centrada em si mesma, se bem que, como sabem os que já leram mais de um destes livros, tudo esteja interligado. A estrela de toda esta saga é Barcelona, os seus ambientes e cenários desde a primeira Exposição Universal. Carlos Ruiz Zafón, criou uma panóplia de personagens riquíssimas que habitam uma Barcelona mística, gótica e onde o fantástico se cruza com uma atmosfera sempre densa em suspense e inquietação. As personagens centrais continuam neste como no primeiro à volta da livraria dos Sempere, da fabulosa criação que é o “Cemitério dos Livros Esquecidos” e do seu guardião Monfort, do senhor Barceló, apenas faltando aquele que é, na minha singular opinião o espantoso Fermín Romero de Torres.Há no entanto algo que é infinitamente superior à simples soma das partes destes magníficos romances que é o que perpassa toda a obra: uma evidente e singular celebração dos livros, de quem os escreve, de quem os lê, ou simplesmente cuida e protege. Todos estes livros são um hino e uma homenagem ao livro e à escrita e ao amor à literatura. Não fora o talento absolutamente desarmante de Carlos Ruiz Zafón para nos levar ao sabor da pena por uma cidade mágica e personagens inesquecíveis e a ideia de base permaneceria um dado positivo. Na minha opinião, e relembro que esta coluna faz apenas sugestão literária, este foi, dos três livros lidos aquele de que mais gostei. Não tenho aqui espaço para grandes explicações sobre esta manifesta preferência, mas estou certo que vale a pena entrar neste “Jogo”, nem que seja para discordar completamente comigo. Esperando que este período de interregno estival sirva para descanso e períodos de excelentes leituras, despeço-me até Setembro com votos de:

Bom Agosto e… Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:

Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

OS DIÁRIOS SECRETOS de Camilla Läckberg (D Quixote)


"Se revelares os teus segredos ao vento, não o culpes por os revelar às àrvores." Khalil Gibran

Chegados que somos aos primeiros dias de Agosto, estou certo que são muitos aqueles que estão perto do seu período habitual de férias. Sem cair na tentação de voltar a falar das leituras estivais, pelo menos no seu aspeto qualitativo, há algo que posso fazer, e que é o que aqui me faz regressar, com esta, pelo menos há cento e trinta e cinco vezes já. Aconselhar um livro que entretenha. No fundo, aconselhar aquilo que a literatura tem como ultimo motivo, revelar pelos olhos de outros, novas pessoas e novas paisagens onde acontecem coisas que existem de facto ou são criadas para nosso prazer. Não tenho essa contabilidade fechada, mas desconfio, que dos muitos livros e autores que aqui tenho aconselhado, uma boa porção andará perto do género policial. Ora nos últimos anos, o que no meu caso particular não era conhecimento novo, o mercado editorial foi buscar alguns autores a uma zona especial do globo, onde este tipo de livros tem não só muita procura, mas sobretudo uma excelente oferta: os países nórdicos. Assim, já por aqui foram aconselhadas obras de vários dos mais famosos e consagrados autores, bem como o de algumas novidades que considerei interessantes. A verdade é que é este um desses casos, o nome de Camilla Läckberg, já integrava a minha lista de compras há algum tempo, sobretudo a partir de um romance que foi amplamente publicitado e que será, suponho, o seu mais conhecido “A Princesa de Gelo”. Aqui, como acontece na maior parte das vezes interveio o destino e mão amiga ofereceu-me este “Os Diários Secretos” para fazer a iniciação a mais este universo literário. Pois a ampla gama de recomendações que esta autora trazia…a titulo de exemplo a tradução da sua obra em mais de 50 países, e números de vendas absolutamente impressionantes de mais de oito milhões de exemplares vendidos, não deslustra depois da leitura. É mais uma autora a passar para um patamar de atenção especial. O casamento de duas personagens centrais, a escritora Erica Falk e o inspetor Patrick Hedström, dão lugar a um enredo muito bem gizado e a uma estória que flui a bom ritmo com um pano de fundo também ele muito interessante. É provável que a muitos esta sugestão já não apanhe de surpresa, mas a mim vai-me fazer com certeza voltar a ler livros desta autora. Para fechar dentro do espirito em que iniciei mais esta sugestão apenas um pequeno apontamento, é um livro tão bom em Agosto como no resto do ano, if you know what I mean”. J
Boa Semana e… Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:

Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)

A SORTE DE JIM de Kingsley Amis (Quetzal)


"Quanto maior for a sorte, menos se deve acreditar nela."Tito Livio



Mais uma semana, esta de regresso ao trabalho após umas curtas mas proveitosas férias, em termos de leituras, claro está. Acontece com uma periodicidade certa e com uma certeza quase matemática que as prateleiras principais de todos os espaços que oferecem livros para venda na chamada “época alta” de férias, disponibilizam sempre uma maior oferta em termos de quantidade do que em termos de qualidade. Há uma certa “leitura de massas” que se pode apreciar mais significativamente nesta altura do ano. Assim, lá vemos pelas mesas das esplanadas e pelas areias das praias muitos livros de autores que quase sempre não nos surpreendem. Entendo desde sempre que não deve haver ditadura de gosto relativamente aos livros. No estado em que a literacia anda e tem andado no nosso País, já é um avanço considerável que as pessoas leiam livros maus, e pode mesmo ser por aí que a tendência se consiga estabelecer numa certeza de que mais e melhores livros se vão ler. Oxalá. Relativamente à sugestão da semana, este “A Sorte de JIM” de Kingsley Amis, é um tiro completamente ao acaso numa visita à Fnac. Não me foi nem aconselhado, o que é a maioria dos casos dos livros que aqui vou sugerindo, nem mesmo tinha qualquer noção prévia de quem é Kingsley Amis. Assim se fazem por vezes boas descobertas, numa mistura de sorte e risco. A verdade é que este se revelou um livro que vale mesmo a pena ler. Pela fantástica personagem que é James (Jim) Dixon, pelo ambiente académico e respetiva fauna que o redeiam, mas sobretudo pela leitura que Jim vai fazendo do mundo. O tema e o ambiente fazem por vezes lembrar os livros de David Lodge, mas o registo é diferente. Seja para o passear pelas esplanadas ou praias ou para leitura mais doméstica, aproveitem, vale a pena! Termino dizendo que esta não é também uma leitura nova, é um romance já com uma idade respeitável, tendo sido lançado em 1954, pelo que não seja de estranhar que a sua principal qualidade, seja precisamente a intemporalidade da visão de Kingsley Amis, através dos seus personagens, sobre a vida nos seus aspetos mais de pormenor. 
Boa Semana e… Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:

Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)