quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O HOMEM DESPEDAÇADO de Gustavo Melo Czekster (Dublinense – Brasil)

"No conto tudo precisa ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida." Eça de Queirós
Antes da sugestão, a história. Este livro, e antecipo já, este delicioso livro, fez o seu caminho atravessando o Atlântico por mão da Lelena Terra Camargo, mentora do blogue “Bípede Falante” e grande divulgadora de Arte e Literatura que venho acompanhando há já alguns anos, por via do acesso ao referido blogue e também pelas redes sociais. Para ela vai desde já o meu sincero e merecido agradecimento. Há poucas coisas tão valiosas na vida como um bom livro, que estão nível de um bom Amigo, mas, infelizmente, nem um nem outros se atravessam na nossa vida com a frequência que desejamos. Este livro, ao qual tenho acesso por privilégio, já que não está publicado em Portugal, é um livro de contos, e ao que me apercebo uma obra de estreia. Há certamente vantagens e inconvenientes em não conhecermos os autores das obras que nos surgem, a mais-valia mais evidente é o não termos quaisquer “parti pris”, nem preconceitos. É o caso. Li-o sem mais referências que não fossem a da sugestão, entusiasmada diga-se, da Lelena. E que belíssima surpresa me estava reservada meus caros, este é um livro raro. O conto é, para mim uma das formas prediletas de escrita. Já por aqui falei de autores aos quais o género não é alheio, Gabriel Garcia Marques, Oscar Wilde, Dalton Trevisan, e o meu particularmente querido José Rentes de Carvalho, para citar alguns dos nomes que fizeram que as minhas horas de leitura de contos fossem de excelência. O conto é uma arte, muito alicerçada, na minha opinião numa dupla onde entram com certeza o ritmo e a intensidade do que se conta. Gustavo Melo Czekster, independentemente de tudo, entra neste género pela porta grande. Os seus contos são acima de tudo intensos, com fundo e conteúdo. Tratam a Vida e a Morte por tu, conseguem cozer uma sensibilidade muito fina com momentos literários de grande violência. É um livro que merece a pena ser lido, tem, como todos os muito bons livros de contos encerrado neles, parábolas, alegorias e fábulas. Não falha num elemento tradicional do bom contista que é o desfecho sempre surpreendente, e aqui com o acréscimo (opinião minha) de o ser, quase sempre, deliciosamente amoral. Não gosto de antecipar muito dos livros que por aqui vou sugerindo, uma razão é a do espaço que o jornal me concede, a outra é porque o prazer da leitura está muito mais na descoberta do que na concordância ou discordância com as minhas opiniões, que são, para o caso, irrelevantes. No entanto, neste caso, pela cosmogonia particular que cada um destes dois contos encerra, relevo um par de histórias: “eu, tu, eles, os homens tridimensionais” e “divertissements sobre a dilatação dos porcos”. O livro é também ele um circulo que se fecha sobre si mesmo, com algumas recorrências de personagens e ambientes buscando um sentido mais amplo que se tomarmos cada conto como uma peça isolada. Não, há aqui uma engrenagem que funciona pela soma das partes também. À pergunta que fecha o primeiro e o último dos contos, dou eu a minha resposta: a este livro rendo-me mesmo sem luta, aliás com todo o prazer.
No momento em que escrevo esta crónica a publicação está a cargo da Editora Dublinense de Porto Alegre – Brasil, deixo aqui o contacto para quem estiver interessado na compra, ou o que seria bem melhor na edição em Portugal: contato@dublinense.com.br.
Uma vez mais o meu sincero agradecimento à Lelena pela gentileza da oferta e ao Gustavo Melo Czekster por autografar o meu exemplar.


Boa “rentrée” e… Melhores Leituras! J



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

MAIGRET & A AMIGA DE MADAME MAIGRET de Georges Simenon (ASA)


"Provamos através da lógica, mas descobrimos a partir da intuição." Jules Poincaré
 
A “Estante Acidental” regressa depois desta quinzena de interrupção estival, que, esperamos possa ter sido de férias para todos os que partilham o prazer da leitura. Nesta altura, por motivos vários e dos quais já por várias vezes aqui se tem falado, aparentemente lê-se mais. E isso é, no meu ranking das coisas boas, próximo do excelente. Não importa muito o que se lê, desde que se leia. Sei que haverá sempre quem conteste e com boa argumentação mas, há tempo para avançar para outros patamares. Importante é ler. E para tudo há um ponto de partida. Sei-o por experiência de anos a tentar incutir hábitos de leitura em tudo o que mexe à minha volta, a taxa de sucesso é bastante duvidosa, mas não desisto. A sugestão desta semana vem na sequência de um regresso estival a leituras de policiais mais antigos. Tenho até um amigo de leituras que está neste momento a revisitar a famosa “Coleção Vampiro”, tarefa de altíssimo gabarito. No entanto, de todos, os relativa, e os absolutamente famosos personagens saídos de romances policiais, nunca estaria a galeria minimamente composta sem a presença do Comissário Maigret, essa criação genial e intemporal de Georges Simenon. Não é uma personagem que os leitores mais jovens reconheçam com a facilidade que a minha geração o faz, não tenho notícia de nenhum remake televisivo das histórias de Maigret nem de reposições da série que no meu tempo passou, o que, claramente não ajuda à divulgação do nome. Mas a identificação do sobretudo, do chapéu, dos cachimbos e o estilo inconfundível do Comissário Maigret, continuam a fazer um género à parte no meu pequeno mundo de figuras do universo policiário. Criado por Simenon em 1929 Maigret é o personagem principal em nada menos que oitenta e quatro livros, este Maigret & a Amiga de Madame Maigret é publicado em 1950 e foi também um dos episódios adaptados para televisão. Da história, adianto apenas que começa com uma denúncia anónima e é de facto a Madame Maigret que vai contribuir para o aparecimento da pista certa para a resolução de mais este caso. De qualquer forma este titulo é apenas o pretexto, porque o que é bom é recuperar estas leituras, quaisquer que sejam. Maigret e Simenon merecem-no, e nós também. Para a semana falarei de um pequeno livro, delicioso, que cruzou o Atlântico por oferta de uma amiga que tem dedicado muito de si à divulgação das Artes e Letras, aguardem que valerá a pena!
Bom final de Agosto e… Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
O HOMEM DESPEDAÇADO de Gustavo Melo Czekster (Dublinense – Brasil)