quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

SE OS MORTOS NÃO RESSUSCITAM de Philip Kerr (Porto Editora)


“Todos os opressores… atribuem a frustração dos seus desejos à falta de rigor suficiente. Por isso eles redobram os esforços da sua impotente crueldade.” Edmund Burke


Uma vez mais regresso a um policial e um autor que já não lia há bastante tempo. Creio que o seu livro mais conhecido será “O Projeto Janus”, no entanto não foi por aí que vim a chegar aqui. Há dois livros mais antigos, de 1999 e 2001, respectivamente “A Vingança Serve-se Fria” e “O Segundo Anjo”, que me recordo ter lido com prazer na altura. O primeiro um thriller e o segundo um techno thriller futurista, ambos com bons enredos e boas personagens. Como Philip Kerr tem já bastante obra publicada e não sou conhecedor bastante desta, vou-me ficar pela sugestão desta sua última publicação. A obra, para não revelar demasiado, tem como cenários duas cidades que vivem ambas debaixo de regimes opressores e totalitários, Berlim nos anos 30, anos de afirmação do nacional-socialismo e da perseguição aos judeus e Habana com a subida ao poder do ditador Fulgêncio Batista. Bernie Gunther, a personagem principal, é um detective dotado de uma análise caústica a tudo o que o rodeia, num registo muito ao jeito de Chandler, com doses bem distribuídas de humor. A narrativa, também num tipo habitual em determinados autores do policial noir, é na primeira pessoa, o que também ajuda a dar um toque de romance ao melhor estilo Raymond Chandler ou Dashiel Hammett. Sobretudo a forma como Philip Kerr descreve os ambientes que envolvem a história, a excelente caracterização das personagens e um ritmo espectacular, tornam este num livro que não tenho a mais pequena dúvida em aconselhar. Claro está que a preferência por policiais fará aqui sempre o desempate. Para os aficionados do género é uma aposta segura, para quem ande à procura de outros territórios, pode sempre ler este livro numa perspectiva histórica que também não ficará desiludido com o nível de rigor e informação sobre a atmosfera dos tempos contados, quer para os anos 30 em Berlim, quer para os anos 50 em Cuba. Resumindo, um livro a ler e um autor a melhor conhecer. Aproveitem e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A LEBRE DE OLHOS DE ÂMBAR de Edmund de Waal (Sextante)


“Os bens que mais nascem do ânimo que da fortuna, melhor se asseguram, porque aqueles guardam-se no peito, e estes cansam os ombros” Pde. António Vieira


Provavelmente um dos melhores livros que terei o privilégio de ler em 2013. Uma obra espantosa e maravilhosa. Um daqueles raros livros que junta um propósito particular de um autor a uma história que se transforma numa epopeia familiar que transcende claramente a mera investigação sobre o seu próprio passado. Edmund de Waal, autor deste livro único e deste único livro, é um ceramista britânico que recebe por herança um conjunto de miniaturas japonesas conhecidas como netsuke, de um tio-avô. Tendo por ponto de partida o percurso dessas peças carregadas de significados no seu périplo entre o Japão e a Europa, Edmund de Waal traça também o percurso dos seus antepassados, uma poderosa família judaica de origem Russa que estende o seu império financeiro por toda a Europa no final do Séc. XIX e primeiro terço do Séc. XX, os Ephrussi, que chegaram a controlar todo o comércio mundial de cereais, antes de se estabelecerem em Paris, Viena, Londres e Odessa como banqueiros. Numa viagem absolutamente deliciosa e só ao alcance de um enorme escritor, ultrapassamos com uma rapidez estonteante aquilo que poderia ser mais uma tentativa de recuperar memórias familiares para fruição particular do autor, para um registo da vida dos seus mais emblemáticos antepassados que nos transmite uma sensação de profundidade e de perspectiva histórica muito difícil de conseguir. Este livro, que ganhou o Costa Award na Categoria de Biografia, é, para mim, muito mais do que esse rótulo que se me afigura neste caso absoluta e imerecidamente redutor, um extraordinário romance em que, só por casualidade, as personagens existiram de facto. Vinha amplamente recomendado, é certo, (só a indicação de José Rentes de Carvalho para mim bastaria) mas, apesar dissol, é sempre difícil que todos os livros que nos recomendam se mantenham ao nível das expectativas criadas. Também tenho a certeza que assim acontece com o que aqui vou periodicamente indicando, e que não poucas vezes os meus gostos não se reflectem nos de outros leitores, mas é essa também uma das grandes riquezas dos livros, o seu efeito absolutamente ad hominem. É um daqueles livros que se acaba com tristeza, daqueles que, de tão bem escritos gostaríamos de poder continuar a ler sempre um pouco mais. Excelente, não percam. Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
SE OS MORTOS NÃO RESSUSCITAM de Philip Kerr (Porto Editora)


Falta pouco...


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A INFORMAÇÃO de Martins Amis (Quetzal)


“A censura é o imposto da inveja sobre o mérito” Laurence Sterne 


Esta semana a sugestão é um livro especial. Esta obra, escrita ao longo de alguns anos por Martin Amis (filho de Kingsley Amis, cuja obra já referimos aqui na “Estante”), constituiu um facto editorial de monta, tendo sido feito o maior adiantamento do mercado editorial sobre a futura publicação deste livro. A esse propósito o autor perdeu inclusivamente a amizade de Julian Barnes (outro autor já aqui sugerido também). Assim, este “A Informação”, para além do valor intrínseco enquanto obra literária, tem também a sua própria história. E a história é muitíssimo interessante, e autobiográfica a fazer fé nas afirmações do autor. Dois amigos, diferentes entre si nos mais variados aspectos mas ambos com pretensões a escrever. Richard Tull seria à partida o mais equipado para ter sucesso, ganha em quase tudo a Gwyn Barry, no entanto quando o mais estrondoso sucesso editorial acontece a Gwyn, Richard, que ganha a vida a recensear publicações de autor, torna-se no exemplo acabado do invejoso. Um teria à partida melhores condições individuais para perseguir o reconhecimento do mundo literário, no entanto os seus primeiros romances são ignorados pela critica, ao passo que a publicação de um livro de Gwyn, faz o seu caminho até aos lugares cimeiros das listas dos mais vendidos. Começa assim o eterno debate entre a qualidade literária e a quantidade de vendas, entre a profundidade e a complexidade da linguagem literária versus a superficialidade e a descomplicação da escrita. Temas de sempre no que toca a livros e autores. E é nessa teia onde se cruza o sucesso e o fracasso, que Martin Amis, dono de uma escrita com uma linguagem muito própria constrói um excelente livro, cheio de detalhes deliciosos e personagens que povoam e ilustram a sua visão da sociedade pós moderna aqui retratada. De ressaltar que o livro é de 1995, mas a história e os personagens são de sempre. Mais uma excelente ocasião de leitura à volta de um cenário que tem sido desde sempre um dos meus favoritos, o do meio editorial e literário. Se puderem não percam, vale mesmo a pena! Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
A LEBRE DE OLHOS DE ÂMBAR de Edmund de Waal (Sextante)
SE OS MORTOS NÃO RESSUSCITAM de Philip Kerr (Porto Editora)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO de Steven Saylor (Bertrand)


“Viajar, num sentido profundo, é morrer. É deixar de ser manjerico à janela do seu quarto e desfazer-se em espanto, em desilusão, em saudade, em cansaço, em movimento, pelo mundo além.” Miguel Torga 


Deste autor e desta série penso que tenho tudo o que até agora foi publicado em Portugal. Steven Saylor é um académico que inventou uma forma muito interessante de nos fazer entrar na História. Para ser mais correto, não é apenas a forma, mas sobretudo uma interessantíssima personagem, que nos faz percorrer as mais extraordinárias etapas históricas da Roma imperial. Antes de entrar no livro propriamente dito há um pequeno mistério a resolver, facto do qual ainda não apurei o motivo, o certo é que, para uma dezena de livros que tenho deste autor e desta série a editora foi a Quetzal, sendo que neste há aqui uma possível “compra do passe” pela Bertrand. Detalhes. O que importa é que continuem a publicar estes livros absolutamente deliciosos. Para quem gosta do género policial histórico está aqui devidamente entregue. A personagem central é Gordiano O Descobridor, um cidadão romano que ganha a vida a resolver crimes e enigmas. Neste volume, Steven Saylor oferece-nos uma fantástica viagem que Gordiano empreende com a idade de dezassete anos, na companhia do celebérrimo poeta, Antípatro de Sídon. Propõe-se ambos visitar as Sete Maravilhas do Mundo numa viagem plena de descobertas. Gordiano, neste livro, para além de se ir tornando homem, em mais do que um aspeto, encontra em cada uma das paragens um enigma a que empresta as suas capacidades de observação e investigação. A história decorre desde Roma, de onde partem, passando pelo Templo de Ártemis em Éfeso, pelo Mausoléu de Halicarnasso, pela Estátua de Zeus em Olímpia, pelo Colosso de Rodes, pelas Muralhas e Jardins Suspensos da Babilónia e pela Grande Pirâmide do Egito. Em teoria estaria terminada a viagem, mas não. Gordiano vai terminar a sua jornada em Alexandria, no Farol. Assim, às Sete iniciais se acrescenta uma outra Maravilha do Mundo. E é aí que, para além de todas e cada uma das peripécias que se vão sucedendo na viagem, se revela um pano de fundo conspirativo que acompanha todo o livro. Todas as dúvidas e justificações históricas são ainda explicadas de forma absolutamente impecável numa nota final que o autor nos oferece. Termino dizendo que sou, desde o primeiro livro um cliente regular e que assim me manterei. Leitura bem-disposta, com um nível de conhecimento histórico e pormenor que é absolutamente hipnótico no ritmo que imprime à trama e nos obriga a ler os livros quase de uma vez só. Gosto muito. Aconselho. Se puderem, comecem pelos primeiros, que vão ver que depressa cá chegam. Boa semana e… Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
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A INFORMAÇÃO de Martins Amis (Quetzal) 


Livros de Fevereiro





UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)


“A guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres.” Heráclito


Livro que me foi oferecido por um amigo e que estava em segundas leituras já há bastante tempo. Tive agora finalmente oportunidade de o terminar e de aqui partilhar as minhas impressões sobre ele. Glenway Wescott é um nome relativamente obscuro no panorama literário norte-americano do século XX, mas é-o tão-somente porque numa vida relativamente longa publicou muito pouco, uma meia dúzia de livros entre o romance o conto e o ensaio, a par de um diário. É no entanto um dos escritores pertencentes à chamada “geração perdida”, tendo sido contemporâneo de Hemingway em Paris (de quem se diz que terá nele baseado a sua personagem Robert Prentiss no fenomenal Fiesta (The Sun Also Rises). A sua obra mais conhecida é “O Falcão Peregrino” e valeu-lhe por parte da critica um numero assinalável de comparações muito lisonjeiras. Este “Um Apartamento em Atenas”, é um excelente livro, que toca temas difíceis de abordar com uma mestria assinalável. É a história de um casal de gregos que, debaixo da ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, se vê na obrigação de acolher em sua casa um oficial alemão e com ele conviver. É nesta visão diária, da vida de um casal com dois filhos, eles próprios problemáticos, que se pinta um fresco impressionante sobre a submissão humana, vista de vários ângulos e retratada com um excelente domínio da linguagem. É uma obra sob muitos pontos de vista seca, dura, sem artifícios literários, mas dá-nos a noção exata da medida de cada um quando confrontado com a sua circunstância. Apesar de ser um livro em que o diálogo é sobretudo feito entre o autor e nós, os seus leitores, fico com a sensação que, com o encenador e os atores certos daria uma peça de teatro de efeito espantoso. É de ler. Com toda a certeza. Boa semana e… Boas Leituras!!! J

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PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
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AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO de Steven Saylor (Bertrand) 


PERSEGUIÇÃO ESCALDANTE de Janet Evanovich (Topseller)


“O bom humor é a única qualidade divina do homem” Arthur Schopenhauer


Enquanto se anda às voltas com algumas leituras mais volumosas e densas, para intervalar, nada melhor que uma olhada para os escaparates dos que mais vendem. A fazer fé no que tenho visto recentemente, há editoras claramente apostadas em agarrar o mercado dos campeões de vendas. Assim parece ser o caso desta “Topseller”. Janet Evanovich é a autora. Confesso que não conhecia. Já da personagem tinha ouvido falar, e já me tinha cruzado com um filme baseado no seu primeiro policial desta série em que a heroína é Stephanie Plum, “One For The Money”. Este livro é já, pela ordem de publicação a vigésima obra desta série, pelo que, correndo o risco de apanhar o comboio a meio da viagem, resolvi ainda assim arriscar. E, o que parece, a maior parte das vezes é. Dizia a capa que Janet Evanovich é uma campeã de vendas a nível global, tendo já despachado para os escaparates qualquer coisa como 75 milhões de livros. É obra. Sempre a meio entre a crítica mais séria e hermética e o que se lê de facto ainda que se não admita, a verdade é que o registo é de uma leitura muito agradável. Não faço aqui qualquer valoração, porque não faz sentido. É um policial escrito por uma mulher, o que não é original, é um policial em que a personagem é uma mulher o que tampouco o é. Mas tem um estilo muito próprio e um humor que acompanha o livro todo. Personagens quase todas engraçadas, ou pelo menos com lados ou tiques com alguma piada. Não é um livro que provoque grandes gargalhadas, mas lê-se com um sorriso. E, como tenho vindo aqui a pregar ao longo destas sugestões, o que haverá de melhor do que algo ou alguém que faça com que as pessoas leiam? É este o caso. Uma história engraçada, personagens engraçadas, uma leitura fácil, ligeira e que nos deixa bem-dispostos. Há dias em que só se pede algo assim. Se estiverem nessa onda, aproveitem. Boa semana e… Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO de Steven Saylor (Bertrand)