terça-feira, 26 de março de 2013

PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)


“A perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano.” Edgar A. Poe


Mais uma semana com algumas leituras em simultâneo. E um regresso aos policiais. A este em particular até porque o ultimo lido de Robert Wilson, “O Ultimo Ato em Lisboa” me impressionou muito favoravelmente. Para quem não se lembra, a temática, histórica, passava pela exploração do volfrâmio português durante a Segunda Grande Guerra e um homicídio cometido décadas após que se completavam numa trama de suspense muito bem gizada e interessante. De todos os géneros sobre os quais vou escrevendo e sugerindo, o policial tem sido o mais presente nesta coluna, até porque se trata de um domínio da escrita que tem não só um universo de leitores muito dedicados mas que conta entre os autores com um cada vez maior número de criadores de muito bom nível. Robert Wilson, é britânico, mas tem uma singularidade, divide o seu tempo entre o seu país de origem e uma pequena quinta no Alentejo. Daí ser fácil de perceber todas as referências que faz à cultura portuguesa. Desde a gastronomia até à indicação de locais portugueses, passando pela inclusão de nomes de personagens com origem lusa. Como a verdade é que não temos entre nós grande comunidade de autores deste género é interessante também ler o que um autor como Robert Wilson consegue inserir do mundo português nos seus livros. Bem, mas o que verdadeiramente interessa, e é por isso que sugerimos este livro é o facto das histórias que Robert Wilson nos contam serem sempre carregadas de interesse e tensão. Este não é exceção a essa regra. Tem como habitualmente personagens bem construídas e uma trama que não é muito usual. Aqui a premissa é um rapto de uma jovem filha de um multimilionário indiano cuja contrapartida para a sua libertação é tudo menos evidente. Charles Boxer um negociador experiente é a quem cabe conduzir o processo contra um mundo cheio de personagens que habitam o lado negro da nossa sociedade. Um destes dias aqui voltarei para falar de outros livros de Robert Wilson e provavelmente os mais reconhecidos onde a personagem central é o inspetor Javier Falcón e de entre esses “O Cego de Sevilha” que li há já bastantes anos sem ter na altura ainda qualquer noção de quem era Robert Wilson, no panorama da escrita deste género. Gosto e recomendo, com a ressalva de sempre de que é uma sugestão para os amantes do género. E mesmo dentro do policial não ´o enredo típico. Espero que gostem. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)

terça-feira, 19 de março de 2013

NADAR PARA CASA de Deborah Levy (D. Quixote)


“A realidade é apenas uma ilusão, ainda que muito persistente.” Albert Einstein

Este livro de Deborah Levy é uma belíssima indicação que me foi dada na Fnac em Guimarães. Não conhecia nem titulo nem autora. Daí que, ao saber que o livro esteve na shortlist para o Man Booker Prize 2012, tenha feito alguma pesquisa. O que mais me surpreendeu, não foram as referências que encontrei a esta autora. Foi um certo desencanto pela escolha do júri do referido prémio em 2012. O Man Booker foi atribuído a Hilary Mantel pelo romance histórico “Bring Up The Bodies”, o que torna esta autora a única a ter recebido este prémio por duas vezes. O que me chamou realmente a atenção, e é um tema que é recorrente quando enquadrado neste universo dos galardões literários é o de saber se os prémios devem ser atribuídos somente pelo mérito ou se na respectiva escolha e análise dos candidatos, deve ser levado em conta o efeito que o prémio tem a vários níveis. Um, a projecção da obra e do vencedor, o que é mais ou menos óbvio, e por aqui, claro que a reincidência na entrega a um mesmo autor diluiu o efeito de difusão/promoção da leitura. Assim, ao atribuir o mesmo prémio duas vezes a um mesmo autor, independentemente do mérito, estaríamos sempre a deixar de ajudar outros autores a ficarem por baixo dos holofotes dos leitores. É uma posição que só em parte subscrevo. Um prémio, por natureza deve ser dado aos melhores, ainda que isso seja impeditivo do aparecimento de outros autores que pelos mais variados motivos não consigam a projecção que merecem. O sucesso no mundo editorial é algo que me escapa. De verdade. Tenho lido coisas magnificas perfeitamente desconhecidas do grande público, assim como, devo reconhecê-lo, nem sempre a categoria de best seller é inversamente proporcional à qualidade literária. Deixando estes considerandos para outros espaços, e voltando ao que aqui realmente importa, que é a promoção da leitura, devo dizer que este “Nadar para Casa” me surpreendeu muito positivamente. É uma obra fresca, bem composta, com personagens muitíssimo interessantes e que, um pormenor que aprecio bastante, remete para o nosso próprio universo, fazendo com que sejamos forçados a fazer pontes entre a ficção descrita e a nossa própria realidade. Katt (Ket) Finch é uma personagem que vive ao nosso lado, todos os dias, e à qual que só muito raramente damos a oportunidade de se revelar tal como é. Gostei muito. Recomendo e a exemplo do que tenho feito com outros, também Deborah Levy entra para a minha “shortlist” de autores a explorar. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)


quinta-feira, 14 de março de 2013

ENGANO de Philip Roth (D. Quixote)


“Nenhuma coisa desengana a quem quer enganar-se.” Padre António Vieira

Mais um livro de Philip Roth. Mais uma excelente surpresa. Uma obra original e num registo que para manter a coerência literária e a qualidade ao longo de todo o livro, só mesmo ao alcance de um enorme contador de histórias. Não é um livro fácil de catalogar, ao invés, é extraordinariamente fácil de ler. É um conjunto de diálogos entre dois amantes, e é mesmo só isso. Claro que falando de Roth este “só isso” contém um universo de ideias. O que é no mínimo extraordinário é que o que poderia ser um apêndice de outra qualquer obra se torna aqui numa história que vale por si só e nos oferece uma visão sobre este cenário a partir de um ângulo muito particular. Fazer caber toda uma história, todo um cenário e respectivas personagens num enquadramento puramente oral não é fácil, e, pelo menos para mim, é uma abordagem nova. Creio já por aqui ter afirmado que o experimentalismo literário e a busca do original pelo original, que caracteriza muitos autores a trilhar a sempre difícil senda da afirmação junto dos leitores e da critica, nem sempre tem os melhores resultados. O mercado da edição está inundado de “novas formas”, “visões renovadas” e abordagens radicais ao ato de escrever. Ao nível conceptual há muita escrita moderna que está para o ato de contar uma história ou passar uma mensagem como a arte contemporânea situada num patamar em que apenas parece interessar o ato em si ou o seu resultado e não a quem se destina, (se é que se destina a alguém). A mim, afigura-se-me difícil abarcar determinados conceitos, até porque tenho a vantagem de pelo meu lado pensar saber com alguma clareza do que não gosto. E disso, como é o propósito último desta coluna, não se fala aqui. Estou certo que as minhas indicações não serão nem sempre nem nunca consensuais, mas são do meu gosto. E é disso que aqui se trata, da minha triagem particular aos livros que me vão passando pelas mãos. Do que li até agora de Roth, ainda não apanhei nada que seja menos bom, ou que satisfaça pela metade, como em muitos outros autores (e em alguns de que gosto mesmo mais do que Roth). É este livro um exemplo de como se pode ter um caminho diferente sem abdicar do que fundamentalmente interessa. Gostei. Muito. É o Philip Roth que conhecemos, a usar uma luz nova para iluminar alguns dos seus temas de sempre, a reter, como sempre, aqui mais disfarçada, mas ainda assim evidente, a discussão sobre a visão sobre os judeus e o anti-semitismo de ambos os lados de cada um destes fantásticos diálogos. Pode também considerar-se um excelente livro de pequenos contos. Aconselho vivamente. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
NADAR PARA CASA de Deborah Levy (D. Quixote)


quarta-feira, 6 de março de 2013

GLAMORAMA de Bret Easton Elis (Teorema)


“Todos vêem o que pareces, poucos percebem o que és.” Nicolau Maquiavel


Enquanto várias leituras de volume e densidade altas não terminam e me libertam para as respectivas sugestões, tenho que me socorrer de leituras mais antigas para continuar o meu pequeno propósito de “evangelização literária” J. Ironias à parte, devo fazer constar que o protocolo estabelecido entre o jornal e a Fnac, que me tem permitido escolher alguns bons livros, tem também contribuído para que o meu atraso em relação às obras que se vão acumulando na “mesinha de cabeceira” se acentue. Há claramente livros que se lêem com muita rapidez e outros cuja leitura nos obriga a outro ritmo e a outro empenho. É o caso. Estou presentemente a ler Thomas Pynchon e David Foster Wallace (e diz-se que este é uma espécie de discípulo daquele) o que, para quem conhece o fôlego das respectivas obras, de certa forma me desculpa de não trazer, desta vez, nada de “fresco”. Ainda assim, fazendo uma busca pelas minhas leituras anteriores e querendo sempre sugerir algo que possa ser apreciado, volto a um dos meus autores de eleição que é Bret Easton Elis, famoso por obras como “American Psycho”, “Menos que zero” e “Quartos Imperiais” estes dois últimos dos quais já aqui falei em anteriores sugestões. Para quem goste dos universos distópicos e da descrição da vacuidade das sociedades modernas, Elis é um mestre, é o típico escritor que representa bem a  Geração X abordando a vida das sociedades urbanas (de algumas elites, mais precisamente) recorrendo à criação de personagens que são a verdadeira essência dos quadros literários que vem desenhando. Este “Glamorama” vem a ser uma descrição da decadente moderna cultura da celebridade mais um menos instantânea e da gratuitidade do meio que a envolve. É um retrato de autor de um mundo que faz da aparência a essência. Todo o livro se desenrola à volta de uma franja da sociedade que vive num mundo de intensa voracidade consumista e da obsessão da auto-imagem perfeita. É assim, que, num ambiente paralelo onde surgem a cada páginas nomes de celebridades reais se constrói um thriller com um grupo de modelos (de moda sim) que é simultaneamente um grupo terrorista. Quem conhece Bret Easton Elis, sabe que a sua escrita é não-linear, mas é poderosa, e consegue infalivelmente descrever realidades muitas vezes simplesmente divertidas, outras tantas, profundamente incómodas. Não creio que seja a obra ideal para entrar na leitura deste autor, para isso sugeriria “Menos Que Zero” , o seu primeiro sucesso, mas para quem já leu alguma coisa e ainda não conhece esta, pareceu-me uma boa sugestão. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
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