terça-feira, 23 de abril de 2013

O ALB´OON de Miguel Salazar (Edição Guimarães 2012 Cidade Europeia do Desporto)

“A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama verdade” Eça de Queiróz




De vez em quando, para minha grande felicidade, vou tendo amigos que publicam as respectivas obras. Nesta o Miguel Salazar, um distinto Vimaranense, tal como eu da safra dos anos sessenta, publica uma retrospectiva da sua obra enquanto observador da sociedade e mais particularmente do fenómeno desportivo. Não disponho aqui de espaço para tratar convenientemente o tema da caricatura com a relevância que merece, mas há que saber pelo menos dar-lhe o lugar de destaque que tem mantido ao longo dos tempos dentro daquilo que é a crítica de sociedade. O Miguel é um mestre nesta arte. Pratica-a desde os dezasseis anos e tem um currículo vasto nesta área. Basta dizer que não cabe aqui. Os livros, para quem deles gosta como eu, não são apenas literatura, são sobretudo a sua própria mensagem. E este, que é o catálogo da exposição com o mesmo nome que estará aberta ao público até 28 de Julho deste ano, é um daqueles objectos que nos sentimos orgulhosos de possuir. E tem muitas mensagens, acreditem. Numa viagem dividida ao longo de doze Capítulos, começando com os Primeiro Trabalhos do Miguel, passamos por várias figuras de Guimarães: os “Vimaranenses Ilustres”, “Glórias Desportivas Vimaranenses”, muitas figuras do Futebol, do Vitória Sport Clube e do Desporto em geral e muito para além disso, a pena afiada do Miguel Salazar retrata, também abundantemente, situações da vida social e desportiva da cidade pelo lado do humor. Dizem que o cartoon ao realçar os defeitos, nos dá uma melhor visão da verdade. Se é exactamente assim, não o posso afiançar. Mas que nos lança uma luz diferente sobre gentes e episódios, disso não posso duvidar. E é isso que o Miguel tem feito, tem-nos ajudado a ver o lado cómico (por vezes pelo lado da tragédia) de momentos e pessoas que tem ajudado a enformar aquilo que de facto é Guimarães. Perdoar-me-ão um certo bairrismo. Sei que nós Vimaranenses, somos caracterizados também por esse “excesso de identidade” que tão bem serve a visão de pormenor de alguém como o Miguel Salazar. Mas sei também, que é uma obra que qualquer verdadeiro Vimaranense deve ter na sua estante. E, estou tão certo disso, como da partilha que sei que tenho com o Miguel no amor a estas gentes, a esta Cidade, e às suas Instituições. Aconselho vivamente, o Livro e a Exposição! E continuarei a acompanhar de perto o que o Miguel tão generosamente nos vai ainda oferecer. Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
AGOSTO de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


Ainda há heróis!!!

http://www.publico.pt/multimedia/video/novas-livrarias-obidos-20130421-172636?autoplay=1


De vez em quando surge algo que nos faz acreditar......esta é uma dessas maravilhas!!!!!!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sete Letras


Um filme belíssimo realizado pela Sandra Carneiro!!!
Falarei disto mais à frente!

terça-feira, 16 de abril de 2013

AS ESGANADAS de Jô Soares (Editorial Presença)


“A gula mata mais do que a espada.” George Herbert


Não há que lhe fazer. Sou fã. Jô Soares, que dispensa qualquer tipo de apresentações enquanto “entertainer” é também um magnifico escritor. Sempre num registo muito próprio a que não falta nunca um humor também ele singular, tem fabricado algumas obras, infelizmente poucas, que me tem oferecido algumas horas de grande prazer. Sou um inconfesso admirador do género policial, disso tenho, penso eu, dado bastante testemunho nestas colunas, mas há ingredientes que acrescentam em muito ao género. É também aqui o caso. Neste livro, Jô Soares volta a introduzir-nos um serial killer pouco comum. A começar pelo nome e função. Caronte, herdeiro da funerária Estige, é, ao contrário do romance policial clássico, em que cumpre ao leitor a descoberta do putativo criminoso, desde logo descrito e anunciado como o autor dos terríveis crimes que assolam a sociedade carioca de finais dos anos 30. Jô Soares, colocando-nos na época já visitada do Estado Novo brasileiro, (já anteriormente retratado em “O Homem que matou Getúlio Vargas”) e nas vésperas da Segunda Grande Guerra, retrata a sociedade brasileira de então em muitas das suas particularidades. “As Esganadas”, as vitimas, são mulheres que tem entre si o facto de serem gordas e gulosas. A morte vem na improvável forma de doçaria típica portuguesa. A investigar estas mortes, um trio incaracterístico, com dois policias cariocas e um português, ex-polícia em Portugal que chega ao Brasil e se junta à investigação. Entram também lateralmente como personagens históricas Fernando Pessoa, descrito no caso que faz com que Tobias Esteves, o português em causa, é afastado da policia portuguesa por participação na encenação do suicídio de Alastair Crowley, no qual o próprio Pessoa tem participação. A forma como o autor dispõe a trama permite-nos ficar a conhecer melhor a época e os costumes de então. Há várias personagens e episódios reais que se entrecruzam na história, o próprio Manoel de Oliveira entra como piloto de automóvel no Circuito da Gávea. Assistimos ao relato de futebol da meia-final da Copa de Mundo de 1938 que o Brasil perde para a Itália. Todos os capítulos são também pontuados pelas notícias dadas via rádio, sempre com anúncios das mais curiosas novidades. Enfim, um mundo de coisas. Umas novas, outras nem tanto, mas sempre interessantes. Como sempre, falta aqui espaço para poder falar de tudo o que importava para poder despertar o interesse para esta obra. Mas o mais simples será dizer que gostei, mais uma vez. E que recomendo sem temor. Fico a aguardar o próximo.
Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
AGOSTO de Rubem Fonseca (Sextante Editora)

terça-feira, 9 de abril de 2013

A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)


“A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero.” Henry Thoreau

A primeira coisa a dizer aqui acerca de “A Piada Infinita”, é que não é possível, sob que angulo for, deixar aqui uma opinião firme sobre a obra. Em primeiro lugar pelo tamanho da obra, 1198 páginas, nesta edição da Quetzal. Mas mais, muito mais, pela complexidade e pelos incontáveis momentos de eventual remissão desta obra para a própria realidade do seu autor. Começaria talvez por aí. David Foster Wallace é uma espécie de estrela rock da literatura, neste caso, com mais propriedade a verdadeira “dead rock star”, o seu suicídio aos 46 anos de idade e uma obra que vem a ser considerada fundamental na literatura norte americana do último quartel do Séc. XX, assim o determinam. Deixa quando, depois de mais vinte anos de uso de medicação para uma depressão crónica, ainda uma última obra, acabada, encontrada ao seu lado, “The Pale King”, que viria, na sua publicação póstuma a receber o Pulitzer. Este livro de que hoje se fala aqui, A Piada Infinita”, “The Infinite Jest”, no original, é absolutamente único, e uma daquelas obras que só se concebem e produzem a partir de um caracter genial e/ou marginal. O autor, de difícil ou mesmo impossível catalogação é mais ou menos descrito como estando perigosamente entre a loucura e o génio, diz-se também que é um discípulo de Pynchon. Confesso que em certas alturas da narrativa me pareceu. Mas A Piada Infinita é mais uma espécie de disco duro com milhares de partições. Há uma história que se conta, numa realidade lateral à nossa, em que se misturam a relação do eu com o social, sempre assente num registo de fragilidade mental e física, há consumos aditivos de drogas, desporto e espectáculo (o ténis, tal como na vida de David Foster Wallace), e há uma trama que envolve o assassinato de um Presidente de um estado novo (ONAN) que reúne os EUS, o Canadá e o México, e terroristas separatistas, e agências governamentais, e…e… Há um tempo e uma narrativa sempre completamente não linear, não cronológica. Mas estranhamente hipnótica para o leitor. Não sugiro apenas por se tratar de um livro do qual se diz por aí que deve ser lido, mas sobretudo porque é uma viagem a um labirinto mental, onde uma vez entrados (e a própria entrada não é fácil), também não é nada evidente que possamos sair. Pelo menos ilesos. É um livro para nos acompanhar uns meses. Ou talvez anos. Ou para a vida. Leiam e escolham.
Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)


quarta-feira, 3 de abril de 2013

PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)


“O viajante ainda é aquele que mais importa numa viagem.” André Suarés

“Pela Estrada Fora”, ou, talvez mais conhecido pelo seu título original “On the Road” é uma obra que integra sistematicamente a quase totalidade das listas dos 100 melhores livros, ou dos 100 livros fundamentais do século XX. Só por isso merece a pena ser lido. Esta edição tem contudo um interesse e um valor acrescido. Trata-se da versão original da obra. Concretizando: Jack Kerouac escreveu este livro no espantoso prazo de três semanas, (alegadamente com recurso a vários estimulantes). Isto em 1951. As recusas por parte das editoras, sucederam-se até 1957, quando o livro foi publicado pela primeira vez. O certo é que o livro que é então publicado não é exactamente o mesmo que Kerouac escreveu. É um rescrito (ou melhor uma obra corrigida e expurgada de alguma crueza do original, que à época, e segundo os padrões morais vigentes não eram aceitáveis) do seu editor Malcom Cowley, que depura o estilo original. Esta edição da Relógio d´Àgua, é, ao contrário, a reprodução do “rolo original” (tal como figura em subtítulo). Jack Kerouac, escreveu este livro num rolo, em continuo, num processo de criação livre que deixa verter as ideias quase sem filtro, directamente do processo mental para o papel. A própria mudança de folhas de papel na máquina de escrever implicaria a interrupção do fluxo de ideias que se pretendia livre. Mas o interesse na obra não se esgota claramente nestes pequenos “fait-divers” que, muitas vezes, se sobrepõem ao real valor das obras. “Pela Estrada Fora”, torna-se, uma espécie de panfleto de uma geração. Torna-se uma referência para a chamada “geração beat” e influencia claramente a sociedade juvenil da época. As personagens, Sal Paradise e Dean Moriarty, na sua, (e talvez numa das nossas, mais famosas viagens), cruzam os Estados Unidos de carros numa jornada de descoberta e de todas as liberdades. É bom de ler. Espero que gostem. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)