sexta-feira, 26 de julho de 2013

Novas Entradas - Leituras Estivais





O MEU PÉ DE LARANJA LIMA de José Mauro de Vasconcelos


“Tudo quanto é belo manifesta o verdadeiro” Vitor Hugo


Na minha busca de sugestões de leitura, faço aqui uma pequena pausa para todos aqueles que incessantemente se refrescam na novidade e na descoberta de novas obras e autores, para voltar um pouco atras no tempo e partilhar um pequeno prazer que também ajudou a formar a minha vontade de ler mais. Não sei se é um livro para crianças, para jovens ou para adultos, não me compete nem me apetece classificar. A meu ver é um livro de todos. Não para todos certamente, mas de todos, porque é uma obra que fala de algo especial de uma forma absolutamente maravilhosa. Não é fácil reproduzir a infância. Seja em que arte for, a infância encerra em si algo de especial e muitas vezes intangível. Esta obra consegue-o, e não me lembro de muito mais, na escrita, exceção ao Principezinho de Saint-Exupéry, que com um registo diferente também é capaz de nos maravilhar. A história é simples e complexa, mas faz-nos ver o mundo pelo seu lado maravilhoso. Maravilhoso e triste, sim porque é uma história triste com momentos verdadeiramente tocantes. Continuo, esta semana, a imaginar que só vai ler esta coluna, quem por um ou outro motivo, não tem hábitos certos de leitura. Este é um bom sítio para começar. Não é por acaso que “O Meu Pé de Laranja Lima” é uma das obras em português com maior número de traduções. É uma espécie de clássico moderno (convém relembrar que é de 1968, o que torna este livro num senhor quase da minha idade). Estou certo que muitos já o terão lido. Não estou certo que seja sempre a idade ou o momento certo para o ler ou reler. Mas estou seguro de que quem entre neste pequeno mundo, vai entender que é nas pequenas coisas, no olhar que se tem sobre o que se perde o que se ganha, e na simplicidade com que se olha de facto o mundo, que reside a essência da vida. Na altura em que o li pela primeira vez adorei, e a verdade é que ao relê-lo, reencontrei essa visão de pormenor que por vezes, no turbilhão dos dias apressados, nos escapa. É um prazer que se encontra também nos livros, o do reencontro. É uma maravilha quando estamos na estante, aparentemente ocupados a arrumar os livros mais recentes e redescobrimos algo de que gostamos e sem dar por isso voltamos a outros dias e outras vidas. É um livro de sempre, e isso não se diz deles todos. Voltem a ele ou descubram-no.
Boas Leituras e Boas Férias se for o caso!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
LOBO VERMELHO de Liza Marklund (Porto Editora)
O JOGO DO LEÃO de Nelson DeMIlle (Marcador)


A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri ( tradução de Vasco Graça Moura ) BERTRAND


"Os verdadeiros paraísos são os paraísos que se perderam." Marcel Proust



Os recursos tecnológicos disponíveis deixam me ao dispor apenas um IPad para escrever a crónica desta semana. Pouca ou nenhuma rede no local se onde escrevia dificultaram de certa forma o modo de fazer chegar esta crónica aos destinatários, no entanto com um pouco de engenho e os "gadgets" certos a coisa resolveu-se. De férias em parte incerta resolvi sugerir uma leitura mais arriscada. Uma leitura à qual só recentemente temos acesso com tradução em português. E é um facto que remete para algo que foi durante muito tempo um verdadeiro problema para quem lê em Portugal. Refiro-me à escassez de clássicos traduzidos que durante muito tempo, e falo por mim, toda a minha adolescência e parte da idade adulta enfrentei dificuldades acrescidas para ler obras de clássicos italianos, gregos ou mesmo alguns autores de séculos mais próximos, que, ou lia no original, o que, convenhamos não só nem sempre é fácil como de outras se torna num obstáculo intransponível. Enfim, bem haja a quem, decerto com problemas comuns se encheu de coragem e resolveu traduzir e mais ainda publicar obras cujo mercado será reduzido, mas que cumprem um papel fundamental no que se pretende um acesso verdadeiramente democrático ao ato de ler. É o caso desta tradução de "A Divina Comedia", de Dante Alighieri, tarefa heróica levada a cabo por Vasco Graça Moura.  Dito isto, manda a verdade que afirme que é uma leitura em processo e não um livro que já tenha terminado. É, mal comparado como aconselhar a leitura dos Lusíadas, é também uma obra épica. De resto, muitos já não serão alheios a partes deste livro como a citação que consta nas portas do Inferno. O livro em si é dividido em três partes, Inferno, Purgatório e Paraiso é uma viagem de crónica social e de costumes do seu tempo, o que de resto, é na essência, o nosso tempo enquanto homens. O resto é simplesmente prazer de descobrir e de ler. O que aqui não é certamente pecado.

Boas Ferias se for o caso e Boas Leituras.





segunda-feira, 1 de julho de 2013

UMA VERDADE INCÓMODA de John le Carré (D Quixote)


“ A percepção é o pensamento do pensamento alheio” Fernando Pessoa

John le Carré dispensará apresentações. Mesmo para quem nunca dele tenha lido nenhuma obra. A passagem ao cinema de vários dos seus títulos contribuiu decisivamente para propagar o seu nome muito para além da literatura. Dos que já li, o clássico de espionagem “O Espião que Saiu do Frio” de 1963, “A Vingança de Smiley” de 1979, “O Alfaiate do Panamá” de 1996, “O Fiel Jardineiro” de 2001 e “Um Traidor dos Nossos” de 2010, tenho opiniões diversas. E se não gostei particularmente deste ultimo de 2010, tenho que reconhecer que este “Uma Verdade Incómoda” recém-publicado pela D. Quixote me fez inverter alguma pequena desilusão que tinha tido com o predecessor. Não só é um enredo actual como, e aí sim principalmente nos dá a visão desiludida e desencantada do panorama geo politico actual baseada em duas versões ficcionadas de si próprio. Gosto muito das personagens e da respectiva “bagagem” que Le Carré traça nos diversos livros que já li. Neste não elejo nenhuma em particular, mas é sobretudo o seu universo interior que aqui tem a carga mais positiva para a obra. Mais uma vez a intriga e a conspiração dão o mote a um livro que vai para além do mero entretenimento. John le Carré empresta cada vez mais carga política ao que escreve e desafia-nos a mergulhar uma outra vez num universo que tem vindo a tratar de forma muito particular. Sempre sem antecipar a trama, posso no entanto falar do efeito que provoca. É uma obra de desesperança, que não oferece saídas nem soluções. Apenas nos fornece o quadro onde nos cabe a nós enquanto leitores inscrevermos as nossas próprias convicções à luz de uma visão de um presente aparentemente sem futuro. Uma vez mais, e estou mesmo a concluir que cada vez menos é coincidência, é um autor com mais de oitenta anos, a juntar a uma pequena galeria de eleitos que tem feito as minhas ultimas e melhores sugestões aqui na “Estante”. Começado que está o Verão, e sabendo também da existência de leitores mais ou menos sazonais (ou estivais, se preferirem) parece-me uma boa companhia para acompanhar alguns momentos de ócio. Gostei.  
Boas Leituras e Boas Férias se for o caso!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)