quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Deixa Lá e Más Novas de Edward St Aubyn (Sextante Editora)


“Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso” Fernando Pessoa

Um verdadeiro achado. Nem mais nem menos. Fruto da minha divisão mensal (e mental) de recolha de livros novos para a “Estante”, e que recordo, obedece a uma ordem mais ou menos estabelecida. Primeiro um livro de um autor que já conheça e do qual queira aprofundar a obra, depois um qualquer livro que esteja em voga (dentro de alguns parâmetros, evidentemente), depois uma obra aconselhada por amigos ou por  colegas leitores cuja opinião é sempre muito valiosa para mim, e por ultimo, uma escolha mais aleatória, mais livre se quisermos. Nem sempre esta ultima forma de trazer livros tem resultado. A quantidade verdadeiramente avassaladora de publicações que as livrarias oferecem torna a tarefa cada vez mais difícil. Mas uma ou outra vez acertamos no alvo. É o caso deste “Deixa Lá” e “Más Novas”, que aprendi, são os dois primeiros volumes de um total de cinco que compões a história da vida de Patrick Melrose e da sua família. O primeiro, que retrata a primeira infância de Patrick sob a influência de um ambiente famliar completamente disfuncional, numa família da aristocracia inglesa, com uma mãe e um pai não existentes e que cometem todo o tipo de abusos sobre Patrick e sobre todos que com eles convivem. Um compêndio sobre o snobismo, o desprezo e a degradação moral, que se reúnem na personagem David, o pai de Patrick. Uma lição sobre um mundo à parte, com contornos abjectos e sombrios, escrito de forma absolutamente superior. No segundo, Patrick viaja para Nova Iorque para resgatar as cinzas do pai que morre de repente. Já com vinte e dois anos, Patrick é o centro de um vórtice de abuso de drogas, álcool e de uma profunda vacuidade, da qual não parece ser capaz de se afastar. Um segundo capitulo que descreve uma descida ao mais profundo e aviltante universo interior de Patrick que nos parece fatalmente destinado a coisas menos boas. Poderoso, simbólico, e muitas vezes terrivelmente presente, na forma como StAubin nos pinta o degredo galopante desta personagem. Fico claramente à espera de continuar a ler, e a viver de forma indireta, esta história tão espetacularmente escrita. Aconselho sem reservas.  
Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
ESCREVO PARA AJUSTAR CONTAS COM A IMPERFEIÇÃO de Ricardo Guimarães (Modo de Ler)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DANUBIO de Claudio Magris (Quetzal)
OS ANEIS DE SATURNO de W.G.Sebald (Quetzal)
ADMIRAVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley (Antigona)
OS VELHOS DIABOS de Kingley Amis (Quetzal)
TELEFÉRICO DA PENHA (IMAGINÁRIO E REALIDADE) de Esser Jorge Silva (Edições Húmus)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA)
HAM ON RYE (PÃO COM FIAMBRE) de Charles Bukowski (Ulisseia)
FESTA NO COVIL de Juan Pablo Villalobos (Ahab)
AMSTERDÃO de Ian McEwan (Gradiva)
THE CATCHER IN THE RYE (À ESPERA NO CENTEIO) de J.D. Salinger (Quetzal)
ALFABETOS de Claudio Magris (Quetzal)
PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS de Afonso Cruz (Alfaguara)
O TANGO DA VELHA GUARDA de Arturo Pérez-Reverte (ASA)

 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

ESTRADA PARA LOS ANGELES de John Fante (ALFAGUARA)

Se tiveres as palavras, existe sempre uma hipótese de que irás encontrar o caminho” Seamus Heaney

Depois do fantástico “A Primavera há-de chegar, Bandini”, e do prometido regresso à obra de John Fante, este segundo livro do chamado “Quarteto Bandini”, “Estrada para Los Angeles”. Consegue-se entender porque é que Fante é rotulado de “Deus” por Bukowski. É uma escrita tudo menos mainstream, e neste caminho de Arturo Bandini, somos levados por Fante a descer ao mundo frenético, neurótico e obsessivo, de um jovem adulto em total confronto com a vida e consigo mesmo. Escrito na primeira pessoa, é o próprio Arturo Bandini, que nos pinta todo o cenário. A sua relação conflituosa com a familia, a mãe e a irmã e um tio. Neste livro a figura do pai, central no primeiro, quase desaparece. Entra em cena todo um mundo de inseguranças e destemores que caracterizam este personagem no final da adolescência. É um retrato impressionante de uma mente e de um escritor-personagem em embrião, que não poupa em ódios e excessos. Conseguimos ver de facto a totalidade do personagem e todos os seus angulos de visão relativamente à vida. Uma vida que continua debaixo do efeito da Grande Depressão americana. Uma vida dura, que se opõe às vidas dos outros, dos ricos, dos pobres, dos emigrantes, do trabalho e do sacrificio. Um romance que me deixou mais uma vez uma forte marca de singularidade. Fante é de facto um mestre! Até ao próximo Bandini. E espero que o façam também....
Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
FESTA NO COVIL de Juan Pablo Villalobos (Ahab)
À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
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DANÚBIO de Claudio Magris (Quetzal)
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ADMIRÁVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley (Antígona)
OS VELHOS DIABOS de Kingley Amis (Quetzal)
DEIXA LÁ e MÁS NOVAS de Edward St Aubyn (Sextante Editora)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
TELEFÉRICO DA PENHA (IMAGINÁRIO E REALIDADE) de Esser Jorge Silva (Edições Húmus)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA)



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O HERÓI DISCRETO de Mario Vargas Llosa (Quetzal)

Um grande sacrificio é fácil, os pequenos sacrifícios contínuos é que custam.” Goethe

Devo confessar de início, que não sendo o primeiro livro de Mario Vargas Llosa em que peguei, foi o primeiro que terminei. Acontece-me, e penso que será razoável supor que à maioria também, encontrar por vezes obras, que por um ou outro motivo, não conseguimos terminar. Tento sempre, ainda que por vezes a leitura passe de algo muito gratificante para perto do que se costuma chamar sacrifício, tento sempre fazer força para avançar em alguns livros, ou em alguns capítulos que teimam em não me oferecer motivo de interesse. Nem sem consigo. O que, também não é rótulo definitivo, nem para a obra em questão e muito menos para o respectivo autor. É mais do que frequente que a obra literária não seja sempre ao mesmo nível. Abundam os exemplos de autores de um único livro bom. Não é certamente o caso de Mario Vargas Llosa, apenas terei encetado a viagem pelo trajecto errado. Acontece. Já este “O Herói Discreto”, agradou-me muito. Quer no conteúdo, quer na forma. Duas histórias aparentemente sem relação construidas com base em personagens muito bem elaboradas até ao cruzamento entre ambas. Um retrato bem conseguido a todos os níveis, com uma forma de desenhar os diálogos muito pouco comum, mas de um efeito excelente, com constantes avanços e recuos e integrando a própria acção nas falas dos personagens. Difícil concerteza mas conseguido na totalidade, quase se não dá por isso. Um livro muito bom, com ritmo e de leitura quase compulsiva. E para terminar mais uma personagem a reter, Edilberto Torres. Para tirar dúvidas...é ler.
Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
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LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
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RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA) 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

HISTORIAS DE LOUCURA NORMAL de Charles Bukowski (Alfaguara)

Louco não é o homem que perdeu a razão. Louco é o homem que perdeu tudo menos a razão” Gilbert Chesterton

De Bukowski quase tudo se pode dizer. Louco, visionário, poeta, provocador, subversivo, excessivo, alcoólico, génio, ou todo um mundo de contrários. Há, no entanto, uma caracteristica que marca os autores que deixam culto, não admitem zonas cinzentas. Ou se entra ou se fica à porta. E parece-me fácil de entender que assim seja. A obra de Bukowski, apesar do cada vez maior consenso (que se estabelece sempre com maior facilidade para além do homem e muito mais para além da morte deste), é claramente singular. A marginalidade do autor está em cada linha que escreve. O excesso, o não se conter em barreira nenhuma, nem de forma e muito menos de conteúdo, torna o que escreve muitas vezes em algo de profundamente crú, brutal e mesmo demencial. Eu, e o facto de o sugerir comprova-o, gosto. Gosto deste livro de contos e crónicas num registo de raiva, desespero, por vezes de complacência, mas sem nunca ceder a quaisquer compromisso. Neste textos, carregados de excesso, de alcóol, de sexo, de desvios à norma, encontramos muitas ideias muito elaboradas sobre a moral, a escrita e a vida. O desencanto, o desnorte, o descaminho, a futilidade, a vaidade, é uma profunda verdade que se sente numa escrita gutural, visceral, quase sempre vizinha do excesso alcoólico mas simultaneamente e paradoxalmente lúcida. Como todas as sugestões, esta é carregada de parcialidade. Este e outros livros de Bukowski não são claramente para todos os leitores. Nem a isso me atreveria na maior parte das obras que por aqui vou indicando. Mas não se pode negar a espantosa força de uma escrita como esta. Aliás, uma das melhores coisas que destas histórias se retira é a posição do escritor perante a obra, a sua e a dos outros. É um livro que conta vidas de desencanto, que, apesar de tudo, nos mostra uma luminosidade intensa a brotar dos sitios mais negros e escuros. Intenso. A escrita, a bebida, o jogo e o sexo, são as linhas comuns a quase todo o livro, com textos que vão de 1967 a 1983, em várias explosões de uma força de escrever radical e extrema. Bukowski, e só.

Boa Semana e Boas Leituras!!!
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O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
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LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
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FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
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LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
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