quarta-feira, 23 de abril de 2014

A ILHA DO TESOURO de Robert Louis Stevenson (Clube do Autor)

“As esplêndidas fortunas – como os ventos impetuosos –provocam grandes naufrágios.” Plutarco


Não conheço nenhum grande leitor que não revisite as suas obras de eleição de vez em quando. A releitura oferece-nos muitas vezes prazeres e surpresas agradáveis. Há no entanto que dizer que nem sempre o regresso a um livro onde se foi feliz resulta. Tenho para exemplo disso o “Cem Anos de Solidão”, que, na altura em que o li pela primeira vez passou de imediato a ser considerado como um daqueles poucos livros que muda a nossa perspetiva das coisas e da vida. Sobretudo da escrita. A verdade é que já tentei várias vezes relê-lo e não consigo. O porquê também não sei explicar, o certo é que talvez por receio de lá não voltar a encontrar o sentimento original, também não faço esforço em fazê-lo. Há abundantes opiniões sobre as releituras, desde defensores acérrimos e mesmo os que dizem que nenhum livro se revela na plenitude numa primeira vez, como quem defenda precisamente o contrário. Eu, na minha condição de dependente de leitura, não tomo partido. Simplesmente regresso a um livro quando a vontade me vem. Foi o que aconteceu com este livro, glória da minha adolescência e um dos primeiros a transformar a leitura num hábito que faz, felizmente, parte inegociável do meu modo de viver. A extraordinária aventura de Jim Hawkins e dos seus companheiros rumo à fortuna continua a ser um magnífico romance, onde para além de Jim, pontifica uma das mais notáveis personagens de toda a literatura, o improvável cozinheiro Long John Silver, que veio a tornar-se no cliché do pirata, afirmando mais uma vez a criação literária como uma das mais ricas fontes de um imaginário que perdura até hoje . Do autor, Robert Louis Stevenson, autor entre outros, de sucessos como “O Médico e o Monstro”, com também duas figuras emblemáticas do panorama literário os incontornáveis Dr. Jekyll e o Mr. Hide, apenas podemos lamentar a morte prematura, pois de certeza muito mais nos teria a dar, apesar de mais de um século nos separar das suas geniais criações. Uma leitura que recomendo a todos que gostam de ler. Um livro intemporal e com aquela marca distintiva de não nos deixar para de ler. Mesmo que o já tenhamos lido. Não sei o que se pode dizer de melhor. E não é um livro juvenil. Aliás essa é uma classificação que poucas vezes é real, porque os grandes livros e as grandes histórias são de sempre, para sempre e para todos. Hawkins


Boa Semana e Boas Leituras !!!
Na Mesinha De Cabeceira:
ILHAS NA CORRENTE de Hemingway (Ed. Livros do Brasil)
A CASA NEGRA de Peter May (Marcador)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DANUBIO de Claudio Magris (Quetzal)
OS ANEIS DE SATURNO de W.G.Sebald (Quetzal)
ADMIRAVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley (Antigona)
OS VELHOS DIABOS de Kingley Amis (Quetzal)
TELEFÉRICO DA PENHA (IMAGINÁRIO E REALIDADE) de Esser Jorge Silva (Edições Húmus)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA)
AMSTERDÃO de Ian McEwan (Gradiva)
ALFABETOS de Claudio Magris (Quetzal)
PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS de Afonso Cruz (Alfaguara)

terça-feira, 8 de abril de 2014

Portugal, A Flor e a Foice de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

“Dizem que temos valor (os portugueses), mas nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas. ” António Vieira

Uma obra que esperou quarenta anos para ser publicada em Portugal. Um livro que se devora autenticamente.  
Já o tenho referido muitas vezes em conversa com amigos: o “normal”, hoje em dia tornou-se extraordinário. É verdade. Cada vez que alguém vê as coisas de modo aparentemente normal, as retrata de forma normal e olha de forma normal para a vida, isso parece absolutamente extraordinário, habituados que estamos a que todos sejam tão absurdamente inteligentes, tão desmesuradamente acima do que por vezes conseguimos entender, tão afirmativamente criativos e inovadores, que, quando alguém nos mostra, o que é significativamente mais difícil, uma realidade tal qual ela é, ficamos inexplicavelmente espantados. Numa sociedade repleta de comentadores, analistas, especialistas e outras entidades que continuamente interpretam e reinterpretam a nossa caminhada colectiva enquanto nação, continuamos a fazer uma ideia romantizada e pobre da realidade histórica do País. Seja ela a que nos contam por diversas fontes, a Fundação de Portugal ou o Processo Revolucionário Em Curso. Esta obra de José Rentes de Carvalho, que diga-se desde já, confirma em absoluto tudo aquilo que ao longo da leitura da sua obra por aqui vou dizendo, é no mínimo indispensável para se ter uma noção mais concreta do atavismo português. Descontando o facto do conhecido temor nacional a quem possa ter opiniões fortes e consolidadas, mas com a desculpa que dão quarenta anos de distância do acontecido, é para mim difícil ter opinião sobre todos os que recusaram a publicação desta obra que afirma José Rentes de Carvalho, uma vez mais como detentor de um assustador poder de escrutínio sobre o que nos rodeia. De facto, o tom (e alguns factos), são tragicamente proféticos e tem tanta ou mais relevância para compreendermos este presente resgatado em que nos debatemos. Ao olhar que se adivinha apaixonado mas sempre descomprometido que Rentes de Carvalho nos oferece sobre tudo o que antecede e provoca a Revolução dos Cravos, ao que nela se contém de engano e hipocrisia, não podemos nem devemos ficar imunes. Escrito de forma superior, com um ritmo e um encadear de factos interessantíssimos, com um olhar sempre no todo sem no entanto descurar pormenores (na sua maior parte de um humor impagável), podemos afirmar sem a mais pequena hesitação que este livro é de leitura obrigatória. Assim como se pode temer abrir uma garrafa de um vinho antigo, guardada durante quatro décadas, com o receio de que tenha azedado com o tempo, também se pode e deve manifestar o espanto pela frescura, actualidade e pleno sabor que todo este magnífico livro nos oferece. E, no meu caso particular, que o digo muitas vezes, ficamos com a certeza em forma de letra, de que não basta ter razão. É preciso saber merecê-la. Muito obrigado José Rentes de Carvalho por mais uma lição sobre nós mesmos, que tanto andamos precisados.


Boa Semana e Boas Leituras !!!
Na Mesinha De Cabeceira:
A ILHA DO TESOURO de Robert Louis Stevenson (Clube do Autor)
ILHAS NA CORRENTE de Hemingway (Ed. Livros do Brasil)
A CASA NEGRA de Peter May (Marcador)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier (Quetzal)
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A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
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DANUBIO de Claudio Magris (Quetzal)
OS ANEIS DE SATURNO de W.G.Sebald (Quetzal)
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LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
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sexta-feira, 4 de abril de 2014

FESTA NO COVIL de Juan Pablo Villalobos (Ahab)


“Corremos alegres para o precipício, quando pomos pela frente algo que nos impeça de o ver ” Pascal

Há já algum tempo que não publico regularmente as minhas sugestões de leitura. Não é que tenha deixado de ler. Não o conseguiria fazer. Apenas se introduziu na minha rotina um tipo de compromisso que é muito mais exigente para mim do que de início fazia prever. Estou a escrever e a investigar sobre uma tradição Vimaranense com mais de três séculos, e esse trabalho tira-me por vezes a motivação para aqui voltar com a frequência desejada. Ainda assim, se as minhas pobres indicações de leitura tem sofrido com isso, a minha frequência de leitura nem tanto. Terei que, com algum esforço refazer aqui a lista do que tenho lido ultimamente, e que penso merece a vossa atenção. É o caso deste “Festa no Covil”, romance de estreia de Juan Pablo Villalobos, escritor mexicano, que já li ser parte de uma suposta corrente chamada de “narco literatura”. Sou geralmente avesso a rótulos e a classificações que condicionem a liberdade de apreciação. No entanto, o tema desta obra acaba por se colar de alguma forma a esse putativo rótulo. Foi já lido há algum tempo este livro. Comprado numa Feira do Livro Independente, muito meritória iniciativa levada a cabo nos Banhos Velhos das Caldas das Taipas, justificou plenamente a sugestão que na altura me deu o Duarte Pereira. A história é a de um menino, que filho de um traficante de droga e rodeado por uma violência extrema e quotidiana, se refugia numa imaginação prodigiosa e na possibilidade que o dinheiro do pai lhe dá de se lhe serem satisfeitos todos os caprichos. É uma fábula moderna, assente numa personagem única Tochtli, o menino, que entre coleções de chapéus exóticos e um jardim zoológico privado, dá mostras de uma inteligência absolutamente fora do comum. É dentro da efabulação magistral da personagem principal e do seu mundo recriado e a crueza de uma realidade à qual este se recusa a pertencer que se constrói uma belíssima história com tanto de brilho como de dor. Gostei muito.
Boa Semana e Boas Leituras !!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier (Quetzal)
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