Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

COMO É LINDA A PUTA DA VIDA de Miguel Esteves Cardoso (Porto Editora)


“O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro” Ralph Emerson

Já aqui pela “Estante” se sugeriu a leitura de Miguel Esteves Cardoso, e já lá vai algum tempo. Em Dezembro de 2009 a crónica foi sobre o “Em Portugal não se Come Mal”, livro, que classifiquei na altura como “delicioso”. Disse-o então e repito-o agora, Miguel Esteves Cardoso é uma espécie de Deus das crónicas em português. É até para mim, que me desminta quem melhor souber, um dos principais responsáveis pela recuperação deste género com todos os seus trabalhos para a imprensa a partir dos anos oitenta do século passado. (É estranho que se tenha de assinalar que os anos oitenta, o que em si já é uma categoria, sejam “do século passado” e não de sempre, mas enfim, é o que dá as nossas referências não se poderem eternizar). Pois a verdade é que as crónicas do Miguel Esteves Cardoso, estiveram sempre na primeira linha daquilo que de melhor se escreveu sobre uma certa maneira de ser portuguesa. Desde as célebres crónicas no Expresso: “A Causa das Coisas”, passando pelas incontornáveis “As Minhas Aventuras na Republica Portuguesa”, que somos escrutinados pelos humores muito particulares deste Senhor. As crónicas postas em livros, nem sempre resultam em algo inteiramente uniforme. Não é fácil estar sempre ao mesmo nível em tudo e sempre que se escreve. Mas, se pensarmos bem, isso está sempre a acontecer. Nos livros que nem sempre todos os capítulos são bons, e não é por isso que se aconselha a ler só esta ou aquela parte. Eu sou adepto confesso de crónicas, e de entre elas, as do Miguel Esteves Cardoso são sempre, ou quase, das melhores. Não me vou alongar muito sobre as que fazem o conjunto deste livro. Nem me vou deixar levar pela tentação de escolher. Isso fica com cada um. Só vos repito que valem a pena. Continuamos a ter em grande forma um dos que melhor nos (d)escrevem, a todos, portugueses ou não. Há um capítulo que avulta que é dedicado ao Amor (e ao medo da perda) e que é excelente. Numa linha de análise que pode ser considerada injusta, há por todo o lado autores profundamente portugueses, chatos, melancólicos, gongóricos e palavrosos, cuja escrita cheira a Saudade e Fado e outras coisas mais ou menos previsíveis. Depois há alguns, poucos, que são leves na profundidade do que nos explicam e mostram. Que sabem desmontar o caracter e o atavismo portugueses. E que escrevem muito bem. Este é um deles. Comprem e leiam que não se arrependem. Como são lindas as putas das crónicas do Miguel…
Boas Leituras!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
A LUZ É MAIS ANTIGA QUE O AMOR de Ricardo Menéndez Salmón (Assírio & Alvim)


Terça-feira, 14 de Maio de 2013

A POLAQUINHA de Dalton Trevisan (Relógio D´Água)


“O estilo é uma maneira muito simples de dizer coisas complicadas” Jean Cocteau

O acto de ler, sobretudo para quem não se imagina privado dele, vai rendendo algumas mais-valias. Dalton Trevisan, agora editado entre nós pela Relógio D´Àgua, já estava na minha lista de interesses desde que numa das leituras que fiz do blogue de José Rentes de Carvalho aí tinha sido referenciado. O Prémio Camões em 2012, não fez mais do que aumentar esse meu declarado interesse. E provavelmente acelerou a sua publicação. Sim, que isto de editar anda muito pendurado em galardões. Demasiadamente até, se me é permitido opinar. Neste caso particular, a fama de Trevisan e a sua especialidade é o conto. Foi esse o género que o tornou uma referência e é até do título de um dos seus livros “O Vampiro de Curitiba” que se retirou a alcunha pela qual é conhecido, dada a sua extrema recusa em aparições públicas de qualquer género. E, por paradoxal que possa parecer, a um contista de renome e eleição, começo-lhe a obra pelo único romance que tem publicado, este “A Polaquinha” de 1985. É mais uma vez de relevo o facto de que Dalton Trevisan tem neste momento 88 anos, o que me está a transformar, na média dos autores que vou elegendo ultimamente, numa espécie de seguidor da obra literária de gente com bastante idade. “A Polaquinha” é uma obra surpreendente. E é uma porta de entrada excelente para o resto da obra, que diga-se já, não me vai escapar. É a história da vida íntima de uma mulher, num percurso habitado por vários homens e pela descrição da evolução da sua vida sexual até a um final absolutamente genial. Do melhor que Trevisan nos oferece são os diálogos. Absolutamente no tom e no ritmo certo para cada um dos confrontos destas personagens, Uma linguagem clara, dolorosamente simples e um registo que é no minino hipnótico. Não se consegue, de forma nenhuma abandonar o livro até ao seu final. Não é meu hábito estabelecer comparações nem aqui fazer qualquer espécie de tabela de classificação do que vou lendo. Continuarei na base da sugestão baseada no meu gosto pessoal. Partindo dessa base absolutamente individual e solitária, que é no fundo a magia que a leitura em nós provoca, posso afiançar que foi um dos livros que mais prazer me deu ler nos últimos tempos. Poderá ser demasiado explicito para uns, mas para mim é o necessário para que vá já fazendo a lista de compras de resto da obra. Sem mais. Boa Semana e Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
COMO É LINDA A PUTA DA VIDA de Miguel Esteves Cardoso (Porto Editora)
A LUZ É MAIS ANTIGA QUE O AMOR de Ricardo Menéndez Salmón (Assírio & Alvim)


Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

MENTIRAS & DIAMANTES de José Rentes de Carvalho (Sextante Editora)


“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer” Mário Quintana


Novo livro de José Rentes de Carvalho. Um inédito. A juntar à republicação que a Quetzal vem fazendo da obra deste incomparável escritor. Sei que o mais provável é que me repita. Tenho lido tudo o que por cá se tem publicado de José Rentes de Carvalho. Infelizmente, o neerlandês não consta do meu cardápio de línguas. Mas é bom repisar o facto de que esta obra magnifica, esteve ao alcance dos privilegiados habitantes dos Países Baixos, durante décadas e por cá, coberta por um injusto manto de indiferença. Não deixa de ser um dos sinais da forma como o mercado editorial e livreiro se movimentou ao longo de muito tempo. Este livro, e estou a guardar a opinião mais para o final deste texto para que não seja por demais evidente o meu deslumbramento. Este livro, dizia, é uma delícia. Para mim, que já não passo, ou passo mal, sem a minha dose diária de Rentes de Carvalho, no seu blogue “Tempo Contado”, é um momento alto da escrita deste genial autor, que, tanto tempo nos empenhamos em ignorar. Continuo a manter o “Ernestina” no topo das minhas preferências. Talvez não haja amor como o primeiro. Ou não haja de facto uma segunda oportunidade para uma boa primeira impressão. Mas entra para o mesmo patamar. A história, que não consigo catalogar como, de amor, policial ou de costumes, será provavelmente tudo isto e muito mais, transporta-nos a um território em que o autor é ímpar. E esse território somos todos nós. As pessoas. José Rentes de Carvalho aplica um filtro especial à descrição que faz das suas personagens, transformando-as em pessoas reais, de carne e osso e que parecem cruzar-se connosco todos os dias. Com um ritmo absolutamente perfeito, com viagens dentro e fora das personagens, José Rentes de Carvalho, mostra como ninguém, a verdadeira matéria de que somos feitos. E não adianta sermos ricos ou pobres, condes ou plebeus, honestos ou desonestos, portugueses ou estrangeiros. Tudo é visto e mostrado sem pudores ou panos quentes. As gentes tal como elas são. De verdade. Viajamos ainda de facto, por vários sítios e países onde nunca a paisagem e as coisas nos são indiferentes. Do Algarve ao Douro, passando pelo Minho. Do Norte de Àfrica à Holanda.E de tudo se nos revela pelos olhos das personagens. José Rentes de Carvalho, produziu um grande romance. Em que uma só aparente facilidade de tom, nos pinta um quadro espantoso, cujo final fica convenientemente em aberto. Também aí a não deixar morrer a história, que estou certo viverá em nós leitores por muito e bom tempo. É um daqueles livros que não se quer terminar. Um daqueles livros, que, como uma boa refeição, nos deixa com a sensação de que também nós gostaríamos de saber cozinhar. Enfim, um verdadeiro diamante na minha Estante, e isso, meus amigos, não é mentira nenhuma. Fico, como sempre, desejoso de mais. Excelente e absolutamente imperdível.   
 Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
COMO É LINDA A PUTA DA VIDA de Miguel Esteves Cardoso (Porto Editora)
A LUZ É MAIS ANTIGA QUE O AMOR de Ricardo Menéndez Salmón (Assírio & Alvim)
A POLAQUINHA de Dalton Trevisan (Relógio d´Água)

ULTIMO ACTO EM LISBOA de Robert Wilson (D. Quixote)

(Entrada em Falta no Blogue)

“Só os mortos conhecem o fim da guerra ” Marco Aurélio

Já conhecia Robert Wilson de um livro que li há uns anos e do qual fiquei com uma boa impressão “O Cego de Sevilha”. No entanto passaram-se alguns anos em que este nome pareceu não estar presente nas prateleiras das livrarias. Posso ter estado menos atento, é certo. Há algum tempo atras comecei a reparar que voltavam vários títulos deste autor a surgir, e, como o primeiro prometia, meti mãos à obra. Posso desde já dizer que pelo menos este “Ultimo Acto em Lisboa” pode transformar-se num dos meus catos primeiros na leitura da obra deste senhor. Que excelente livro. Pelo meio, a matar a minha curiosidade descobri também que Robert Wilson, britânico, reside agora em Portugal. Não sei se esse facto influencia, mas de certeza não prejudica a escrita nem a fluidez da narrativa. O livro é muito bem escrito, o registo é uma mescla entre um policial puro e duro e uma espécie de romance histórico. Melhor explicando há duas histórias que se começam a construir em separado. Uma, fantástica, que remonta a tempos antes da Segunda Grande Guerra, em Berlim e que a partir daí viaja para Portugal para as Beiras, dentro do território real e ficcional do apogeu da febre do volfrâmio. E que retrato excelente nos dá Robert Wilson, das nossas paisagens e gentes de meados do século XX. Desde a ruralidade mais primitiva até aos salões de Lisboa. A outra história, que se encontrará com a primeira num desenlace muito bem urdido é a investigação do assassinato de uma adolescente da linha de Cascais. Todas as personagens e ambientes são completamente credíveis, as histórias são muito bem escritas e muito, muito interessantes. Não preciso de mais para saber que vou continuar a ler Robert Wilson. Espero sinceramente que o façam também, e, se tiverem dúvidas comecem por este que tem para além de todos os ingredientes certos, um extra que é um retrato do nosso País, talvez nem sempre lisonjeiro, mas sempre muito perto da verdade que reconhecemos todos. Vão e leiam. Boa semana e, … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
JONAS VAI MORRER de Edson Athayde (Guimaraes 2012)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
OS COMBOIOS VÃO PARA O PURGATÓRIO de Hernán Rivera Letelier (Ulisseia)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
AXILAS & OUTRAS HISTÓRIAS INDECOROSAS de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
JOSÈ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)





O que há de novo na Estante....





Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

AGOSTO de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


“No meio de um povo geralmente corrupto a liberdade não pode durar muito” Edmund Burke

Há autores que se vão instalando em nós. Começamos quase sempre por indicação generosa de um amigo, como foi o caso de Rubem Fonseca, e depois, se o registo nos agradar, seguimos viagem sozinhos, rumo à obra de cada qual. Retiro desta já longa série de sugestões (e é só disso que se trata, de partilhar as minhas preferências) a ideia de que me vou conhecendo melhor enquanto leitor. Nunca teria feito uma análise tão longa sobre os géneros de que mais gosto, muito menos elaborado uma lista de onde posso com relativa facilidade retirar alguns autores dos quais me tornei seguidor. Há sempre o famoso factor de desempate na argumentação: o gosto pessoal. Que, ao contrário do que se diz, se deve, e de todas as maneiras discutir. Que os gostos não se discutem, é das afirmações mais destituídas de sentido que me recordo. De todas as formas, assim como quem ama só vê o belo, também eu, do que gosto, gosto muito. É mais do que provável que a isenção saia a perder nestas análises. Mas também nunca aqui se disse tal coisa, e muito menos se prometeu a universalidade do gosto. Sou portanto, altamente suspeito quando falo de autores de quem gosto. E é esta a única declaração de interesses que aqui interessa: Rubem Fonseca é um deles. Não quero com isto dizer que aprecio da mesma forma tudo o que escreve. Não. Mas de tudo o que escreve, e escreve em vários registos e géneros, consigo tirar enorme prazer em ler. Que é, verdadeiramente a razão, porque vou sugerindo estas leituras. Para partilhar o privilégio de aceder aos mundos particulares e a universos de infinito prazer que vou visitando. Mais por ter bons e bem informados amigos do que por mérito meu, é certo. Bem. Mas vai longa a conversa, e do livro nada, ou quase. É puro Rubem Fonseca. Romance que está numa encruzilhada onde se encontram o policial, o romance histórico e a crónica de costumes, onde não falta uma soberba descida ao mundo intriga palaciana. Tenho nos últimos tempos, por motivos que não cabem (de facto) aqui, viajado várias vezes até à época da ditadura no Brasil. Anos 50 e Getúlio Vargas sobretudo. Este livro é um portento na análise social e política do Brasil de então. Não deixando nunca de nos mostrar a História pelos homens, e de, com a facilidade aparente dos grandes, por lá encaixar uma galeria de excelentes personagens, que vão perseguindo o rasto de um crime até descobrirem não um ou vários culpados, mas o retrato vivo de uma época e de um País. A cada livro que vou lendo mais me agrada o que escreve Rubem Fonseca. Se não conhecem, tentem este. Vale mesmo a pena. Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)


Terça-feira, 23 de Abril de 2013

O ALB´OON de Miguel Salazar (Edição Guimarães 2012 Cidade Europeia do Desporto)

“A caricatura é mais forte que as restrições e que as proibições. É imortal porque é uma das facetas daquele diamante que se chama verdade” Eça de Queiróz




De vez em quando, para minha grande felicidade, vou tendo amigos que publicam as respectivas obras. Nesta o Miguel Salazar, um distinto Vimaranense, tal como eu da safra dos anos sessenta, publica uma retrospectiva da sua obra enquanto observador da sociedade e mais particularmente do fenómeno desportivo. Não disponho aqui de espaço para tratar convenientemente o tema da caricatura com a relevância que merece, mas há que saber pelo menos dar-lhe o lugar de destaque que tem mantido ao longo dos tempos dentro daquilo que é a crítica de sociedade. O Miguel é um mestre nesta arte. Pratica-a desde os dezasseis anos e tem um currículo vasto nesta área. Basta dizer que não cabe aqui. Os livros, para quem deles gosta como eu, não são apenas literatura, são sobretudo a sua própria mensagem. E este, que é o catálogo da exposição com o mesmo nome que estará aberta ao público até 28 de Julho deste ano, é um daqueles objectos que nos sentimos orgulhosos de possuir. E tem muitas mensagens, acreditem. Numa viagem dividida ao longo de doze Capítulos, começando com os Primeiro Trabalhos do Miguel, passamos por várias figuras de Guimarães: os “Vimaranenses Ilustres”, “Glórias Desportivas Vimaranenses”, muitas figuras do Futebol, do Vitória Sport Clube e do Desporto em geral e muito para além disso, a pena afiada do Miguel Salazar retrata, também abundantemente, situações da vida social e desportiva da cidade pelo lado do humor. Dizem que o cartoon ao realçar os defeitos, nos dá uma melhor visão da verdade. Se é exactamente assim, não o posso afiançar. Mas que nos lança uma luz diferente sobre gentes e episódios, disso não posso duvidar. E é isso que o Miguel tem feito, tem-nos ajudado a ver o lado cómico (por vezes pelo lado da tragédia) de momentos e pessoas que tem ajudado a enformar aquilo que de facto é Guimarães. Perdoar-me-ão um certo bairrismo. Sei que nós Vimaranenses, somos caracterizados também por esse “excesso de identidade” que tão bem serve a visão de pormenor de alguém como o Miguel Salazar. Mas sei também, que é uma obra que qualquer verdadeiro Vimaranense deve ter na sua estante. E, estou tão certo disso, como da partilha que sei que tenho com o Miguel no amor a estas gentes, a esta Cidade, e às suas Instituições. Aconselho vivamente, o Livro e a Exposição! E continuarei a acompanhar de perto o que o Miguel tão generosamente nos vai ainda oferecer. Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
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A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
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AGOSTO de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


Ainda há heróis!!!

http://www.publico.pt/multimedia/video/novas-livrarias-obidos-20130421-172636?autoplay=1


De vez em quando surge algo que nos faz acreditar......esta é uma dessas maravilhas!!!!!!

Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

Sete Letras


Um filme belíssimo realizado pela Sandra Carneiro!!!
Falarei disto mais à frente!

Terça-feira, 16 de Abril de 2013

AS ESGANADAS de Jô Soares (Editorial Presença)


“A gula mata mais do que a espada.” George Herbert


Não há que lhe fazer. Sou fã. Jô Soares, que dispensa qualquer tipo de apresentações enquanto “entertainer” é também um magnifico escritor. Sempre num registo muito próprio a que não falta nunca um humor também ele singular, tem fabricado algumas obras, infelizmente poucas, que me tem oferecido algumas horas de grande prazer. Sou um inconfesso admirador do género policial, disso tenho, penso eu, dado bastante testemunho nestas colunas, mas há ingredientes que acrescentam em muito ao género. É também aqui o caso. Neste livro, Jô Soares volta a introduzir-nos um serial killer pouco comum. A começar pelo nome e função. Caronte, herdeiro da funerária Estige, é, ao contrário do romance policial clássico, em que cumpre ao leitor a descoberta do putativo criminoso, desde logo descrito e anunciado como o autor dos terríveis crimes que assolam a sociedade carioca de finais dos anos 30. Jô Soares, colocando-nos na época já visitada do Estado Novo brasileiro, (já anteriormente retratado em “O Homem que matou Getúlio Vargas”) e nas vésperas da Segunda Grande Guerra, retrata a sociedade brasileira de então em muitas das suas particularidades. “As Esganadas”, as vitimas, são mulheres que tem entre si o facto de serem gordas e gulosas. A morte vem na improvável forma de doçaria típica portuguesa. A investigar estas mortes, um trio incaracterístico, com dois policias cariocas e um português, ex-polícia em Portugal que chega ao Brasil e se junta à investigação. Entram também lateralmente como personagens históricas Fernando Pessoa, descrito no caso que faz com que Tobias Esteves, o português em causa, é afastado da policia portuguesa por participação na encenação do suicídio de Alastair Crowley, no qual o próprio Pessoa tem participação. A forma como o autor dispõe a trama permite-nos ficar a conhecer melhor a época e os costumes de então. Há várias personagens e episódios reais que se entrecruzam na história, o próprio Manoel de Oliveira entra como piloto de automóvel no Circuito da Gávea. Assistimos ao relato de futebol da meia-final da Copa de Mundo de 1938 que o Brasil perde para a Itália. Todos os capítulos são também pontuados pelas notícias dadas via rádio, sempre com anúncios das mais curiosas novidades. Enfim, um mundo de coisas. Umas novas, outras nem tanto, mas sempre interessantes. Como sempre, falta aqui espaço para poder falar de tudo o que importava para poder despertar o interesse para esta obra. Mas o mais simples será dizer que gostei, mais uma vez. E que recomendo sem temor. Fico a aguardar o próximo.
Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
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A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
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Terça-feira, 9 de Abril de 2013

A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)


“A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero.” Henry Thoreau

A primeira coisa a dizer aqui acerca de “A Piada Infinita”, é que não é possível, sob que angulo for, deixar aqui uma opinião firme sobre a obra. Em primeiro lugar pelo tamanho da obra, 1198 páginas, nesta edição da Quetzal. Mas mais, muito mais, pela complexidade e pelos incontáveis momentos de eventual remissão desta obra para a própria realidade do seu autor. Começaria talvez por aí. David Foster Wallace é uma espécie de estrela rock da literatura, neste caso, com mais propriedade a verdadeira “dead rock star”, o seu suicídio aos 46 anos de idade e uma obra que vem a ser considerada fundamental na literatura norte americana do último quartel do Séc. XX, assim o determinam. Deixa quando, depois de mais vinte anos de uso de medicação para uma depressão crónica, ainda uma última obra, acabada, encontrada ao seu lado, “The Pale King”, que viria, na sua publicação póstuma a receber o Pulitzer. Este livro de que hoje se fala aqui, A Piada Infinita”, “The Infinite Jest”, no original, é absolutamente único, e uma daquelas obras que só se concebem e produzem a partir de um caracter genial e/ou marginal. O autor, de difícil ou mesmo impossível catalogação é mais ou menos descrito como estando perigosamente entre a loucura e o génio, diz-se também que é um discípulo de Pynchon. Confesso que em certas alturas da narrativa me pareceu. Mas A Piada Infinita é mais uma espécie de disco duro com milhares de partições. Há uma história que se conta, numa realidade lateral à nossa, em que se misturam a relação do eu com o social, sempre assente num registo de fragilidade mental e física, há consumos aditivos de drogas, desporto e espectáculo (o ténis, tal como na vida de David Foster Wallace), e há uma trama que envolve o assassinato de um Presidente de um estado novo (ONAN) que reúne os EUS, o Canadá e o México, e terroristas separatistas, e agências governamentais, e…e… Há um tempo e uma narrativa sempre completamente não linear, não cronológica. Mas estranhamente hipnótica para o leitor. Não sugiro apenas por se tratar de um livro do qual se diz por aí que deve ser lido, mas sobretudo porque é uma viagem a um labirinto mental, onde uma vez entrados (e a própria entrada não é fácil), também não é nada evidente que possamos sair. Pelo menos ilesos. É um livro para nos acompanhar uns meses. Ou talvez anos. Ou para a vida. Leiam e escolham.
Boa Semana e Boas Leituras!!!

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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)


“O viajante ainda é aquele que mais importa numa viagem.” André Suarés

“Pela Estrada Fora”, ou, talvez mais conhecido pelo seu título original “On the Road” é uma obra que integra sistematicamente a quase totalidade das listas dos 100 melhores livros, ou dos 100 livros fundamentais do século XX. Só por isso merece a pena ser lido. Esta edição tem contudo um interesse e um valor acrescido. Trata-se da versão original da obra. Concretizando: Jack Kerouac escreveu este livro no espantoso prazo de três semanas, (alegadamente com recurso a vários estimulantes). Isto em 1951. As recusas por parte das editoras, sucederam-se até 1957, quando o livro foi publicado pela primeira vez. O certo é que o livro que é então publicado não é exactamente o mesmo que Kerouac escreveu. É um rescrito (ou melhor uma obra corrigida e expurgada de alguma crueza do original, que à época, e segundo os padrões morais vigentes não eram aceitáveis) do seu editor Malcom Cowley, que depura o estilo original. Esta edição da Relógio d´Àgua, é, ao contrário, a reprodução do “rolo original” (tal como figura em subtítulo). Jack Kerouac, escreveu este livro num rolo, em continuo, num processo de criação livre que deixa verter as ideias quase sem filtro, directamente do processo mental para o papel. A própria mudança de folhas de papel na máquina de escrever implicaria a interrupção do fluxo de ideias que se pretendia livre. Mas o interesse na obra não se esgota claramente nestes pequenos “fait-divers” que, muitas vezes, se sobrepõem ao real valor das obras. “Pela Estrada Fora”, torna-se, uma espécie de panfleto de uma geração. Torna-se uma referência para a chamada “geração beat” e influencia claramente a sociedade juvenil da época. As personagens, Sal Paradise e Dean Moriarty, na sua, (e talvez numa das nossas, mais famosas viagens), cruzam os Estados Unidos de carros numa jornada de descoberta e de todas as liberdades. É bom de ler. Espero que gostem. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

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ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
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A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
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Terça-feira, 26 de Março de 2013

PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)


“A perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano.” Edgar A. Poe


Mais uma semana com algumas leituras em simultâneo. E um regresso aos policiais. A este em particular até porque o ultimo lido de Robert Wilson, “O Ultimo Ato em Lisboa” me impressionou muito favoravelmente. Para quem não se lembra, a temática, histórica, passava pela exploração do volfrâmio português durante a Segunda Grande Guerra e um homicídio cometido décadas após que se completavam numa trama de suspense muito bem gizada e interessante. De todos os géneros sobre os quais vou escrevendo e sugerindo, o policial tem sido o mais presente nesta coluna, até porque se trata de um domínio da escrita que tem não só um universo de leitores muito dedicados mas que conta entre os autores com um cada vez maior número de criadores de muito bom nível. Robert Wilson, é britânico, mas tem uma singularidade, divide o seu tempo entre o seu país de origem e uma pequena quinta no Alentejo. Daí ser fácil de perceber todas as referências que faz à cultura portuguesa. Desde a gastronomia até à indicação de locais portugueses, passando pela inclusão de nomes de personagens com origem lusa. Como a verdade é que não temos entre nós grande comunidade de autores deste género é interessante também ler o que um autor como Robert Wilson consegue inserir do mundo português nos seus livros. Bem, mas o que verdadeiramente interessa, e é por isso que sugerimos este livro é o facto das histórias que Robert Wilson nos contam serem sempre carregadas de interesse e tensão. Este não é exceção a essa regra. Tem como habitualmente personagens bem construídas e uma trama que não é muito usual. Aqui a premissa é um rapto de uma jovem filha de um multimilionário indiano cuja contrapartida para a sua libertação é tudo menos evidente. Charles Boxer um negociador experiente é a quem cabe conduzir o processo contra um mundo cheio de personagens que habitam o lado negro da nossa sociedade. Um destes dias aqui voltarei para falar de outros livros de Robert Wilson e provavelmente os mais reconhecidos onde a personagem central é o inspetor Javier Falcón e de entre esses “O Cego de Sevilha” que li há já bastantes anos sem ter na altura ainda qualquer noção de quem era Robert Wilson, no panorama da escrita deste género. Gosto e recomendo, com a ressalva de sempre de que é uma sugestão para os amantes do género. E mesmo dentro do policial não ´o enredo típico. Espero que gostem. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)

Terça-feira, 19 de Março de 2013

NADAR PARA CASA de Deborah Levy (D. Quixote)


“A realidade é apenas uma ilusão, ainda que muito persistente.” Albert Einstein

Este livro de Deborah Levy é uma belíssima indicação que me foi dada na Fnac em Guimarães. Não conhecia nem titulo nem autora. Daí que, ao saber que o livro esteve na shortlist para o Man Booker Prize 2012, tenha feito alguma pesquisa. O que mais me surpreendeu, não foram as referências que encontrei a esta autora. Foi um certo desencanto pela escolha do júri do referido prémio em 2012. O Man Booker foi atribuído a Hilary Mantel pelo romance histórico “Bring Up The Bodies”, o que torna esta autora a única a ter recebido este prémio por duas vezes. O que me chamou realmente a atenção, e é um tema que é recorrente quando enquadrado neste universo dos galardões literários é o de saber se os prémios devem ser atribuídos somente pelo mérito ou se na respectiva escolha e análise dos candidatos, deve ser levado em conta o efeito que o prémio tem a vários níveis. Um, a projecção da obra e do vencedor, o que é mais ou menos óbvio, e por aqui, claro que a reincidência na entrega a um mesmo autor diluiu o efeito de difusão/promoção da leitura. Assim, ao atribuir o mesmo prémio duas vezes a um mesmo autor, independentemente do mérito, estaríamos sempre a deixar de ajudar outros autores a ficarem por baixo dos holofotes dos leitores. É uma posição que só em parte subscrevo. Um prémio, por natureza deve ser dado aos melhores, ainda que isso seja impeditivo do aparecimento de outros autores que pelos mais variados motivos não consigam a projecção que merecem. O sucesso no mundo editorial é algo que me escapa. De verdade. Tenho lido coisas magnificas perfeitamente desconhecidas do grande público, assim como, devo reconhecê-lo, nem sempre a categoria de best seller é inversamente proporcional à qualidade literária. Deixando estes considerandos para outros espaços, e voltando ao que aqui realmente importa, que é a promoção da leitura, devo dizer que este “Nadar para Casa” me surpreendeu muito positivamente. É uma obra fresca, bem composta, com personagens muitíssimo interessantes e que, um pormenor que aprecio bastante, remete para o nosso próprio universo, fazendo com que sejamos forçados a fazer pontes entre a ficção descrita e a nossa própria realidade. Katt (Ket) Finch é uma personagem que vive ao nosso lado, todos os dias, e à qual que só muito raramente damos a oportunidade de se revelar tal como é. Gostei muito. Recomendo e a exemplo do que tenho feito com outros, também Deborah Levy entra para a minha “shortlist” de autores a explorar. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)


Quinta-feira, 14 de Março de 2013

ENGANO de Philip Roth (D. Quixote)


“Nenhuma coisa desengana a quem quer enganar-se.” Padre António Vieira

Mais um livro de Philip Roth. Mais uma excelente surpresa. Uma obra original e num registo que para manter a coerência literária e a qualidade ao longo de todo o livro, só mesmo ao alcance de um enorme contador de histórias. Não é um livro fácil de catalogar, ao invés, é extraordinariamente fácil de ler. É um conjunto de diálogos entre dois amantes, e é mesmo só isso. Claro que falando de Roth este “só isso” contém um universo de ideias. O que é no mínimo extraordinário é que o que poderia ser um apêndice de outra qualquer obra se torna aqui numa história que vale por si só e nos oferece uma visão sobre este cenário a partir de um ângulo muito particular. Fazer caber toda uma história, todo um cenário e respectivas personagens num enquadramento puramente oral não é fácil, e, pelo menos para mim, é uma abordagem nova. Creio já por aqui ter afirmado que o experimentalismo literário e a busca do original pelo original, que caracteriza muitos autores a trilhar a sempre difícil senda da afirmação junto dos leitores e da critica, nem sempre tem os melhores resultados. O mercado da edição está inundado de “novas formas”, “visões renovadas” e abordagens radicais ao ato de escrever. Ao nível conceptual há muita escrita moderna que está para o ato de contar uma história ou passar uma mensagem como a arte contemporânea situada num patamar em que apenas parece interessar o ato em si ou o seu resultado e não a quem se destina, (se é que se destina a alguém). A mim, afigura-se-me difícil abarcar determinados conceitos, até porque tenho a vantagem de pelo meu lado pensar saber com alguma clareza do que não gosto. E disso, como é o propósito último desta coluna, não se fala aqui. Estou certo que as minhas indicações não serão nem sempre nem nunca consensuais, mas são do meu gosto. E é disso que aqui se trata, da minha triagem particular aos livros que me vão passando pelas mãos. Do que li até agora de Roth, ainda não apanhei nada que seja menos bom, ou que satisfaça pela metade, como em muitos outros autores (e em alguns de que gosto mesmo mais do que Roth). É este livro um exemplo de como se pode ter um caminho diferente sem abdicar do que fundamentalmente interessa. Gostei. Muito. É o Philip Roth que conhecemos, a usar uma luz nova para iluminar alguns dos seus temas de sempre, a reter, como sempre, aqui mais disfarçada, mas ainda assim evidente, a discussão sobre a visão sobre os judeus e o anti-semitismo de ambos os lados de cada um destes fantásticos diálogos. Pode também considerar-se um excelente livro de pequenos contos. Aconselho vivamente. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
NADAR PARA CASA de Deborah Levy (D. Quixote)


Quarta-feira, 6 de Março de 2013

GLAMORAMA de Bret Easton Elis (Teorema)


“Todos vêem o que pareces, poucos percebem o que és.” Nicolau Maquiavel


Enquanto várias leituras de volume e densidade altas não terminam e me libertam para as respectivas sugestões, tenho que me socorrer de leituras mais antigas para continuar o meu pequeno propósito de “evangelização literária” J. Ironias à parte, devo fazer constar que o protocolo estabelecido entre o jornal e a Fnac, que me tem permitido escolher alguns bons livros, tem também contribuído para que o meu atraso em relação às obras que se vão acumulando na “mesinha de cabeceira” se acentue. Há claramente livros que se lêem com muita rapidez e outros cuja leitura nos obriga a outro ritmo e a outro empenho. É o caso. Estou presentemente a ler Thomas Pynchon e David Foster Wallace (e diz-se que este é uma espécie de discípulo daquele) o que, para quem conhece o fôlego das respectivas obras, de certa forma me desculpa de não trazer, desta vez, nada de “fresco”. Ainda assim, fazendo uma busca pelas minhas leituras anteriores e querendo sempre sugerir algo que possa ser apreciado, volto a um dos meus autores de eleição que é Bret Easton Elis, famoso por obras como “American Psycho”, “Menos que zero” e “Quartos Imperiais” estes dois últimos dos quais já aqui falei em anteriores sugestões. Para quem goste dos universos distópicos e da descrição da vacuidade das sociedades modernas, Elis é um mestre, é o típico escritor que representa bem a  Geração X abordando a vida das sociedades urbanas (de algumas elites, mais precisamente) recorrendo à criação de personagens que são a verdadeira essência dos quadros literários que vem desenhando. Este “Glamorama” vem a ser uma descrição da decadente moderna cultura da celebridade mais um menos instantânea e da gratuitidade do meio que a envolve. É um retrato de autor de um mundo que faz da aparência a essência. Todo o livro se desenrola à volta de uma franja da sociedade que vive num mundo de intensa voracidade consumista e da obsessão da auto-imagem perfeita. É assim, que, num ambiente paralelo onde surgem a cada páginas nomes de celebridades reais se constrói um thriller com um grupo de modelos (de moda sim) que é simultaneamente um grupo terrorista. Quem conhece Bret Easton Elis, sabe que a sua escrita é não-linear, mas é poderosa, e consegue infalivelmente descrever realidades muitas vezes simplesmente divertidas, outras tantas, profundamente incómodas. Não creio que seja a obra ideal para entrar na leitura deste autor, para isso sugeriria “Menos Que Zero” , o seu primeiro sucesso, mas para quem já leu alguma coisa e ainda não conhece esta, pareceu-me uma boa sugestão. Boa Semana e Boas Leituras!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
A PIADA INFINITA de David Foster Wallace (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
PELA ESTRADA FORA (O ROLO ORIGINAL) de Jack Kerouac (Relógio d´Água)
 A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
ENGANO de Philip Roth (D. Quixote)
NADAR PARA CASA de Deborah Levy (D. Quixote)