quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

LÚCIO FETEIRA (A História Desconhecida – Das Origens à Glória Vol. I) de Miguel Carvalho (Quidnovi)


"Nenhum homem é suficientemente rico para comprar o seu passado” Oscar Wilde
Este livro é seguramente um caso muito especial. Para início de conversa e fornecendo a respectiva declaração de interesses, fica desde já registado que o Miguel Carvalho é um querido amigo meu em territórios que extravasam em muito o âmbito literário. É difícil, como sabem todos os que o conhecem, separar o Miguel daquilo que escreve. Sem puxar para aqui outros galões que não os da amizade (e o Miguel tem-nos como poucos) deixem-me dizer aquilo que já de outras obras dele me atinge naquilo que ele escreve. As palavras para descrever a obra de um amigo são de parto difícil, porque se há a tentação estúpida e inconsequente de sermos um juiz mais imparcial pela proximidade, há também um conhecimento mais próximo do autor que pode afectar pela confusão entre o que conhecemos do autor e do que ele reflecte na obra. Tudo isto é com o Miguel Carvalho um exercício de grande inutilidade, e felizmente pelas mais simples e melhores razões. A obra fala por si. É irrelevante que quem a escreve seja, de facto, tal como o produto do seu trabalho alguém que se traduz na vida, como na escrita, pela integridade, pelo humanismo e sobretudo pela verdade. A obra tem sido amplamente divulgada, novos desenvolvimentos num caso de homicídio extraordinariamente mediatizado entre Portugal e o Brasil despertaram um interesse pela vida e obra de Lúcio Tomé Feteira, um homem invulgar que ascendeu a uma posição de riqueza e poder ainda hoje difíceis de quantificar. Foi a hercúlea tarefa a que o Miguel se dedicou, com um trabalho de pesquisa que elenca factos e episódios recolhidos em inúmeras fontes e contactos que depois se traduzem numa história que vai para além do mero registo biográfico/factual. É esse o grande talento do Miguel, que quem o tem acompanhado em outras publicações anteriores e sobretudo no trabalho que faz na Revista Visão, reconhece sem esforço. O Miguel (d)escreve sem nunca perder de vista o essencial, e o essencial somos nós, as pessoas, a gente que passa pela escrita do Miguel tem sempre uma vida diferente, insuflada por uma forma de escrever e contar que nos dá um quadro profundamente humano, que procura por cima dos factos chegar ao que os transforma. Não sei se neste caso, (como em grande parte dos registos biográficos) se consegue chegar verdadeiramente ao âmago, à essência do retratado, mas se neste não se chega por via do que nos conta o Miguel, muito dificilmente se chegará por melhor caminho. Revelo aqui, porque me foi permitido fazê-lo, que este livro é, antes e mais do que o produto do esforço, dedicação e talento de um amigo, um momento raro e de grande significado para mim, que foi o facto de o Miguel me ter enviado as provas do livro para leitura antes da edição e de surpreendentemente me ter incluído nos agradecimentos finais. O agradecimento é obviamente meu, muito pela confiança, muito pela obra, mas sobretudo e absolutamente pela Amizade. Se há livro que posso sugerir sem qualquer espécie de hesitação é este. Não hesitem também e mergulhem sem medo na história de um homem invulgar, invulgarmente bem retratado pelo Miguel Carvalho, pelo menos até onde este primeiro volume nos deixa! Aguardemos pois o próximo e…. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

FERRUGEM AMERICANA de Philipp Meyer (Bertrand)


"Não adianta discutir com o inevitável. O único argumento disponível contra o vento de leste é vestir o sobretudo” James Lowell
Presente de aniversário de uns queridos amigos e amplamente recomendado, este “Ferrugem Americana” não oxida minimamente o leitor. É um grande romance, na melhor tradição americana. Sou insuspeitamente um admirador de Hemingway, de Faulkner, de Steinbeck e de outros que o século XX nos ofereceu como grandes pintores da paisagem americana. Este é um retrato de uma América profunda, de um cenário de devastação pós-industrial (tem muito daquilo que se ouve e lê nas musicas de Bruce Springsteen). É uma obra que desce à vida do americano médio numa cidade atacada pelos fumos da globalização, do desemprego colectivo, da desilusão em massa. De um presente que não oferece saída. É um romance que nos pinta um certo fim do sonho americano. Os escritores que mais aprecio são, na sua maioria, grandes construtores de personagens. Philipp Meyer é exímio nessa tarefa, que é quase sempre o núcleo daquilo que se pretende contar. Não gosto e sempre que posso tento sugerir a leitura pelo impacto que me causa e não antecipando a respectiva história. Uma coisa é descrever o que se passa no livro, o que de certa forma, pelo menos a mim, me mata um pouco o interesse, e outra bem diferente é tentar passar o que se sente ao ler determinada obra. Esta, a par de algumas, e, valha a verdade, cada vez menos, impressionou-me. É bom saber que nas novas gerações de escritores, (Philipp Meyer nasceu em 1974), há vozes destas. Com profundidade, com introspecção e não meramente “escritores a metro” que fazem desaguar nas livrarias páginas e páginas de escrita menor, tantas vezes incensadas apenas pelos mecanismos de propulsão de vendas. É assim o mundo de hoje. Alguns publicam tudo e a toda a hora, com muito pouca mensagem, com muito pouco para dar ao leitor. Não confundir com esta história de Isaac e Poe (sobretudo estes) que nos dá uma outra mensagem, à medida dos tempos que vivemos. São jovens, desiludidos e com horizontes, um e outro à sua maneira, mas sem estrada para caminhar. Há livros que reproduzem a vida tal como ela é, sem artifícios, sem apelos a nada que não seja uma intensa e profunda verdade. Este é claramente um deles. De um novo autor a prometer muitas e boas coisas no futuro. Não deixem de ler, em geral, e este livro em particular. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

INFORSCRAVOS de Douglas Coupland (Teorema)


"Nós nascemos, vivemos por um breve instante, e morremos. Sempre assim aconteceu durante imenso tempo. A tecnologia não ajuda muito isso – se é que muda alguma coisa” Steve Jobs
Douglas Coupland é, de entre autores que marcaram mais ou menos uma época, mais conhecido pelo romance que o lançou no meio literário nos anos noventa do século passado, o sucesso editorial “Geração X”. Recordo-me bem de me ter sido na altura indicado por um amigo que estava a viver em Sydney, na Austrália e à data não estar ainda publicado entre nós. Há na literatura sempre autores cuja obra fica de certa maneira “colada” a um determinado período histórico, neste caso Douglas Coupland é um de entre muitos e bons exemplos de jovens escritores que (d)escreveram uma realidade particular de uma altura considerada no tempo. Tal como muitos de que aqui temos falado, e muitos deles escreveram obras magníficas a retratar a sociedade dessa altura, também este autor nos traça um retrato da tipologia social de uma geração que começa a entrar no mercado de trabalho nessa ultima década do milénio passado. Este “Inforescravos” tem uma particularidade, retrata um grupo e jovens informáticos “nerds” que trabalham em empresas altamente tecnológicas e que levam um estilo de vida muito particular que oscila entre o obsessão pelo trabalho e o exagero que lhes permite ( a alguns) o dinheiro rápido e fácil que a actividade lhes proporciona. Entre os desequilíbrios, as ilusões de vida e a realidade de Bug, Karla, Dan e as demais personagens a que Douglas Coupland insufla de vida neste livro. Esta sugestão, mais do que um conselho para este livro em específico é uma chamada de atenção para um autor extraordinariamente interessante. A análise de um determinado grupo social, de certa forma hermético oferece-nos aqui bons momentos de leitura. Como não se trata aqui de divulgar novidades, mas sim de aconselhar livros e autores que num ou noutro momento nos deram prazer a ler, acho que é, se não conhecem ainda, pelo menos de tentar entrar neste pequeno universo. Poderá apenas dizer-se que, como é um universo de carácter absolutamente técnico e tecnológico por vezes nos podemos perder em um ou outro excesso de linguagem dessa natureza. Nada que não seja compensado pela análise inteligente e lúcida com que toda esta realidade nos é oferecida. Fixem o nome e procurem a obra. Estou certo de que não se arrependerão. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)

EXODUS de Leon Uris


"Os factos são sonoros. O que importa são os silêncios por trás deles.” Clarisse Lispector
Nem sempre os livros de que me lembro para recomendar são os mais recentes. Este é um caso que configura algo de especial e que, poucas vezes me aconteceu. Muito menos vezes com romances de cerca de 600 páginas como este. Foi o primeiro livro de que tenho memória de ter livro do princípio ao fim sem interrupções. Comecei-o numa noite pelas vinte e duas horas e acabei já com o sol nascido perto das sete da manhã. Se melhor cartão-de-visita houvesse. Foi dos primeiros encontros que tive com uma forma de escrita absolutamente viciante. Leon Uris, o autor faz a história da criação do estado de Israel com recurso ao cruzamento de uma série de histórias individuais. O nome “Exodus” foi retirado de um navio de imigração de judeus com destino à palestina em 1947. Há inclusive um filme de 1960 que teve origem nesta obra, para quem se lembra, protagonizado por Paul Newman. Parece-me que no acto de ler há factores que determinam o interesse e a dedicação que se pode por relativamente a todas as obras. Há quem, por princípio ou por educação de gosto se detenha mais em autores e obras mais densas, menos fáceis, de segundas e terceiras leituras. Obras com camadas que se vão descobrindo, o que determina quase sempre um abrandamento da velocidade de leitura. Há outras que nos fazem acelerar e consumir o que o autor nos oferece com um ritmo que a partir de determinada altura deixamos de controlar. Não há muitos casos desses, ou melhor dito, fora de determinado registo de literatura mais ligeira, por assim dizer, é difícil conseguir fazer com que um leitor vagamente experiente se deixe conduzir à velocidade que a leitura determina. Este é para mim um caso paradigmático e exemplar de como um bom escritor, com uma boa história ( e esta é de certeza uma das melhores, a génese de uma nação) nos consegue por a ler com uma vontade e um “vício” tal que só conseguimos parar por razões físicas. É um livro que, por motivos que todos reconhecemos não deixa de ser actual e é de certa forma explicativo de muito do que ainda configura um conflito que nos habituamos a aceitar que não tenha fim à vista. É das sugestões que considero absolutamente seguras. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)


"Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros tem de curiosamente atractivo” Oscar Wilde
Começo por um aviso, que aliás devia constar na capa deste livro. É para adultos! E de entre os adultos, refaço o aviso: não é para todos! É das coisas mais difícil de classificar de todas as que tenho lido, e não me refiro aos últimos tempos. De sempre! É um livro absolutamente genial. Brutal, crú, inteligente, escatológico, gráfico, descritivo, obsceno, mas sobretudo de um humor fora de série, e profundamente humano, é bom frisar. O titulo não é definitivamente uma manobra de marketing livreiro, é de facto uma espécie de porno (e)popeia. É talvez o retrato mais vivido de alguém que vive no extremo, o protagonista, o genial José Carlos (Zeca) conta-nos na primeira pessoa os dias e noites da sua vida absolutamente dissoluta. Não encontro nada de semelhante na literatura lusa de que me lembre, é como se houvesse um Irvine Welsh brasileiro, mas num registo tropical, sem todas aquelas sombras anglo-saxónicas do “Trainspotting” e subsequentes obras de Welsh. É o retrato do bom malandro, viciado em drogas, álcool e sexo. E simultaneamente acrescenta-nos algo. Todo o percurso do protagonista é de leitura compulsiva e, oferece-nos em permanência uma surpreendente visão das coisas. Devo alertar para que o tom e o conteúdo não são propriamente para os mais sensíveis. Mas que dizer, fiquei “agarrado” desde a primeira página. Tem momentos absolutamente delirantes de humor, uma forma de escrever fantástica, recorrendo a um registo quase de oralidade, aproveitando todas as sonoridades e potencialidades que o calão e a gíria em que o português do Brasil é tão rico. Suponho que será o tipo de livro que gerará alguma polémica quanto ao tom, terá reacções de amor/ódio com certeza. Eu, pela minha parte, mergulhei por completo nesta leitura que tem uma história e um percurso que, para dizer o mínimo, é atípico. Mas volto a reafirmar que é uma obra que li e recomendo. E corro esse risco com o maior prazer. Porque para além do óbvio, do crú, e do que por vezes parece propositadamente produzido para chocar, contém afinal, aquilo que só os grandes livros possuem. A vida, no seu esplendor e nas suas pequenas e grandes degradações. Não preciso de grandes dotes divinatórios para prever que se vai tornar numa obra de referência. Consensual nunca será, mas é magnífica de qualquer modo. Obrigado ao Miguel Carvalho que mais uma vez me oferece algumas muito boas horas de leitura. Vá lá. Atrevam-se e Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

AS DESVENTURAS DO SR. PINFOLD de Evelyn Waugh (Relógio d´Água)


"Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem” SAMUEL BECKETT
É, confesso, a primeira leitura que faço de Evelyn Waugh. Facto que merecerá provavelmente alguma censura, sabendo-se que Waugh é autor de, entre outras obras “Reviver o Passado em Bridshead”, e um dos grandes romancistas e polemistas britânicos do Séc. XX. Este livro apesar de ser um pouco controverso relativamente à totalidade da obra de Waugh e ser por alguns tido como um produto relativamente menor no todo da obra, não deixa de não ser um excelente ponto de partida. Mantendo a fidelidade aos propósitos desta coluna de sugestões de leitura, não trago aqui nada que não me tenha dado prazer em ler. Com este livro não foi diferente. O inicio é absolutamente cativante com o "retrato do artista na meia idade", uma viagem a um universo interior de Gilbert Pinfold, o protagonista que é simultaneamente um alter ego de Waugh. A história tem uma origem assumidamente autobiografica. Reproduz uma das fases da vida de Evelyn Waugh em que este, afundado em consumos excessivos de fenobarbitol e alcoól, a conselho do seu médico particular e psiquiatra passa para texto as experiências que essas adições lhe provocam. É um compêndio de alucinações, que resultam de uma situação de quase esgotamento nervoso por que passa o autor. O livro e a personagem, Gilbert Pinfold, dão-nos com a clareza possivel a atmosfera do que é a perturbação, a confusão e o relativo desvario mental. A forma como está contada a história, todas as personagens que envolvem Pinfold e a “viagem” em que este se envolve dão a exacta medida de quão facil nos é perdermo-nos dentro de nós. Gilbert Pinfold reproduz a bordo do SS Caliban, um paquete que ruma a Ceilão (Sri Lanka) a viagem que o autor anteriormente realizou e onde se sucedem as “desventuras” que dão o titulo à narrativa. As sucessivas apariçoes de vozes, supostamente com origem num sistema de comunicações “fantasma” e de onde, aliás, surgem as personagens mais interessantes porque são fruto de um processo mental em desintoxicação. É um bom livro, que se lê com muito agrado e de forma muito rápida. Dá uma boa ideia daquilo que Waugh nos pode oferecer no resto da obra. O que, a seu tempo farei e aqui, se for o caso darei devida conta.Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Livros Cotovia)


"O roubado que ri furta algo ao seu ladrão” William Shakespeare
Há já algumas edições que aqui não se sugeria um policial. É, como se pode concluir da percentagem assinalável de sugestões do género, uma das minhas leituras favoritas. Este de que se fala hoje foi-me recomendado ( e dado a ler, valha a verdade…) pelo meu bom amigo Miguel Bastos, vimaranense dos sete costados emigrado em terras do Vale do Sousa. E a verdade toda é que até agora não tem falhado um único tiro, este não foi a excepção. Lawrence Block é um autor consagrado ne género, que apesar de tudo me era completamente desconhecido. São os casos em que mais prazer tiro da leitura, quando não conheço absolutamente nada do autor e a expectativa está somente ao nível da recomendação. Posso-vos dizer que gostei, apesar de também me ter sido dito que haverá obras menos conseguidas por Lawrence Block, esta não é certamente uma delas. De qualquer forma, como tenho o hábito de fazer, vou mais uma vez desfiar o novelo das obras deste autor e estarei atento ao que me aparecer. Lawrence Block tem enorme sucesso com, sobretudo, duas personagens diferentes nos seus romances uma é um ex-policia alcoólico Matthew Scudder, cujos livros decorrem num ambiente mais pesado e Bernie Rhodenbarr, o simpático e urbano ladrão que é a personagem principal deste “Ladrão que estudava Espinosa”. É um registo realmente ligeiro este onde se move Bernie e a sua parceira Carolyn, que fazendo justiça ao dito “ladrão que rouba ladrão…” rouba a namorada a Bernie. Neste livro, e nas obras em que Rhodenbarr é o protagonista, cabe-lhe normalmente provar a sua inocência num crime que não cometeu, e neste, em particular, tem que provar que é tão somente um simples ladrão e não um assassino. É uma trama bem montada, que só se revela completamente nas ultimas páginas, na melhor tradição da escrita policiária. Personagens interessantes, um enredo na melhor tradição policial e algum humor, fazem deste livro uma boa companhia para algumas horas. Um livro já de 1980, e que, repito, me vai obrigar a mais uma busca de novas obras deste autor que me despertou definitivamente a curiosidade. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
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Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Acidentalmente chegamos às Cem!


"Eu sempre imaginei que o paraíso deve ser algum tipo de biblioteca” Jorge Luis Borges
Esta semana esta coluna chega à sua centésima edição. Fizeram-se aqui mais ou menos o mesmo número de sugestões de leitura. Dentro do aleatório que é aquilo que tenho vindo a ler, ou coisas mais antigas cujo prazer de ler me apeteceu partilhar. O número em si, não significa nada, mas é uma boa oportunidade para falar um pouco da minha relação com os livros. Uma boa porção daquilo que sou hoje devo-o ao que li. Muito mais do que o que vivi por mim, grande parte da experiência de vida que me acompanha tomei-a emprestada de muitos e bons contadores de histórias. Hoje, talvez seja mais difícil acompanhar (e sobretudo escolher) tudo o que de bom vai sendo publicado. Numa lógica de “publish or die” que vem a ser o grande lema de editores e livreiros, temos as estantes das livrarias, as de facto e as virtuais, positivamente vergadas ao peso de muita coisa que não vale o papel em foi impressa. A selecção nunca é fácil de fazer. Passa muito pelo que me vão dizendo e indicando os meus amigos e companheiros de leitura. A todos eles, devo muito. Uma boa sugestão de leitura tem para mim um valor incomparável. É verdade que como toda a gente que lê tenho os meus favoritos, aqueles autores de quem se espera a próxima obra com a expectativa de quem vai rever um amigo ausente. E que normalmente não me desiludem. Não sei muito bem o que é um bom livro. É de certeza uma perspectiva individual, tão certo como um livro é uma história diferente para cada um que o lê. Ao contrário do cinema ou do teatro em que vemos o que nos é mostrado, um livro dá-nos a todos e a cada um a liberdade de construirmos os nossos cenários e personagens de acordo com o nosso próprio mapa mental. É por isso que somos tão diferentes e individuais quando postos em frente de uma mesma obra, porque a vemos e sentimos de forma absolutamente diversa. Esta semana, aproveitando descaradamente este pseudo centenário não vou sugerir nada em particular. Parece-me sobretudo importante que se vá introduzindo aos poucos nos outros uma maior paixão pelos livros e pela leitura. Não sei se esse é um papel da Escola, dos Pais ou da Sociedade, mas é de certeza O papel da Educação. Quanto mais e melhor lemos, mais armas possuímos para nos defendermos. A vida não está de certeza toda nos livros, mas que sem eles faria menos sentido, disso não tenho a mais pequena dúvida. Assim, cá voltarei para a semana, já não para verter algumas banalidades acerca de livros e leituras como hoje, mas para fazer o que, afinal aqui sempre me propus, partilhar aquilo que tenho lido e gostado. Obrigado a todos que de uma forma ou outra me fazem sentir que vale a pela ler e partilhar. Abraços e Boas Leituras!

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Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
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Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O SEMINARISTA de Rubem Fonseca (SEXTANTE EDITORA)


"Quando tiramos a vida aos homens, não sabemos, nem o que lhes tiramos, nem o que lhes damos.” Lord GEORGE BYRON

Está esta coluna quase a chegar à sua centésima sugestão de leitura, e dou-me conta, pelo motivo que a seguir se tornará claro, que há uma injustiça que precisa de reparo imediato. Se é verdade que tento agradecer por esta via boas sugestões e oferta de livros por parte de amigos, não deixará de ser estranho que nunca tenha publicamente agradecido ao individualmente considerado maior responsável pela existência e manutenção da “Estante Acidental”. Falo do meu bom Amigo Jorge Castelar, que, quando surgiu esta coluna era o Director do jornal O Povo de Guimarães, e a quem devo o apadrinhamento inicial, e muitas vezes a motivação, para continuar a aqui me atrever a sugerir e partilhar leituras. Ora como acima insinuei, este agradecimento não vem só. Foi também o Jorge Castelar que me ofereceu este fabuloso policial de Rubem Fonseca. Devo dizer que o li de fio a pavio, sem conseguir desligar. É um dos raros casos em que a coisa não admite que a gente se afaste do livro por mais do que meros instantes. É uma escrita veloz, inteligente e que cativa completamente da primeira à ultima página. O autor entra já directamente para o meu top de atenção literária. Vou procurar todas as outras obras de Rubem Fonseca e vou fazê-lo já. É a coisa mais parecida com Raymond Chandler que li escrita em português. É brilhante de humor negro, de violência gratuita e tem personagens espantosas, geniais. O fio condutor da obra radica numa personagem ímpar, que expende citações latinas para todas e em quaisquer situações. Sempre completamente a propósito e com um humor por vezes delirante. Consegue o que só grandes escritores conseguem (e perdoem-me mas só há ou grandes escritores ou tipos que escrevem... independentemente do género ) que é um equilíbrio constante entre o lado sério e negro da trama e um registo mais ligeiro que nos dá uma leitura de adição completa. Tenho agradecido muitas e boas sugestões, mas este “Seminarista” vai para o pódio ao lado pelo menos dos melhores dos meus ultimos policiais lidos, do Andrea Camilleri, do Manuel Vázquez Montalbán e do Chandler. Muito, muito bom. Obrigado Castelar! Comprem que não se arrependem! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
As Desventuras do Sr. Pinfold de Evelyn Waugh (Relógio d´Água)
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Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O CEMITÉRIO DE PRAGA de Umberto Eco (GRADIVA)


"Não conspira quem nada ambiciona” SÓFOCLES
De regresso a um dos meus autores de culto e provavelmente um dos maiores e melhores escritores contemporâneos. Se “O Nome da Rosa” e “O Pendulo de Foucault” já foram aqui sugeridos, não poderia deixar de falar neste ultimo livro que tem características absolutamente únicas. Se deixarmos de lado alguma da polémica estéril que alimentou ao longo de meses por alturas do seu lançamento. A propósito de ser ou não ser uma obra de cariz panfletário anti-semita, o que para mim ou é “marketing” ou pura estupidez de quem não leu. Ou ainda de quem leu e não quis entender. Sim, que também há muito quem não perceba o que está para além da ponta do próprio nariz. Este livro é ao contrário de quem leve o que lê e vê ao pé da letra, um enorme exercicio de desconstrução e desmitificação de alguns dogmas relativos ao universo das seitas, movimentos e sociedades mais ou menos secretas, que dizem pulular por aí, e que neste final/principio de milénio tanto tem contribuido para a produção de literatura menor, ou pelo menos pouco interessante. Agora voltando ao livro: com um enredo fascinante, construindo um personagem genial de dupla personalidade, que é simultêneamente um abade e um notário especialista em todo o tipo de falsificações e mestre em jogos de espionagem, passa-se no final do século XIX, sobretudo, e divide-se entre Italia e França, principalmente Paris. Toda a trama se constrói no sentido de emprestar uma raíz histórica a um documento que continua a fascinar muitos pela sua ambiguidade: “Os Protocolos dos Sábios de Sião” texto apócrifo, ao que se diz inventado pela policia secreta russa, com base num livro pré-existente e que se destinaria a constituir os judeus como uma força organizada com intenções de dominação global. A coisa foi tão bem feita (e reporto-me sómente ao efeito histórico destes “protocolos” que foram estes inclusivamente aproveitados com o sinistro resultado que se conhece, para justificar a atitude nazi face ao povo judeu). Voltando ao livro, é uma obra de grande fôlego e enorme fidelidade histórica. Todos os acontecimentos narrados, desde a unificação de Itália em que Dalla Picola/Simonini acompanha Garibaldi na Sicilia até ao episódio da Comuna de Paris, passando por muitas peripécias em que se revela pela boca do narrador e principalmente pela da personagem principal todo o ódio que este por via do seu pai e avô destila contra todas os grupos politico/religiosos e sociedades ocultas mais ou menos conhecidas. É um desfilar de argumentos contra os jesuitas, os judeus, os maçons, os bonapartistas, os mazzinianos, etc, etc, etc. A lista segue imparável e é impagável. Mais do que um livro a gerar polémica, devia ser um livro a ler por alguns grupos de pessoas que se auto iludem em cerimoniais de grupo, e a quem por vezes o que mais faz falta não é uma divindade, um grande arquitecto ou uma luz. É mesmo um espelho! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
O Seminarista de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
O Ladrão que Estudava Espinosa de Lawrence Block (Cotovia)
As Desventuras do Sr. Pinfold de Evelyn Waugh (Relógio d´Água)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

HOMEM NA ESCURIDÃO de Paul Auster (Edições ASA)


"As dores ligeiras exprimem-se; as grandes dores são mudas” SÉNECA


Paul Auster é para mim um caso de amor/ódio, ou mais exactamente, porque a escala não é essa, de entusiamo/indiferença. Alterna romances e estórias sublimes e esxtaordináriamente contadas com alguns titulos que, pessoalmente não aconselho. É um facto que há escritores que escrevem muito, tem uma produção literária avassaladora. De entre estes há cada vez menos que se possam considerar bons em tudo o que publicam. Suponho que não será sómente responsabilidade dos próprios. O mundo editorial tem vindo a revelar-se como um universo num crescendo de “publish or die”, que, sinceramente não sei onde irá parar. Para fazer só um pequeno reparo a este cenário atentem na quantidade absolutamente indescritivel de novos titulos que surgem diáriamente e que se acumulam de forma quase desrespeitosa nas prateleiras de livrarias e hipermercados. É trágico para muitos bons autores e para não menos bons livros que o tempo de exposição que merecem para chegarem até nós seja cada vez mais reduzido. Se pelo lado egoista da coisa se pode saudar estea torrente de novos titulos a inundar o mercado livreiro, penso que tem também o efeito perverso de menorizar aquilo que efectivamente acima da média. Julgo que estamos numa fase de nivelamento por baixo de tudo o que é publicado. Tenho muitas vezes a sensação que um determinado autor que tenha o engenho de ter produzido alguma obra digna de registo, é capaz de ser obrigado a publicar tudo aquilo que escreveu, desde o médio ao sofrível e se calhar a resgatar à proverbial “gaveta” produção que de outra forma não teria coragem de dar a ver a luz. Tendo dito isto, que é um dado concreto para mim, e que me ocorreu por já ter lido algumas coisas de Paul Auster que não está exactamente no mesmo patamar daquilo que de melhor li dele, volto ao “Homem na Escuridão”, que é o que aqui me interessa. È o caso de um bom livro, com uma excelente ideia de base, muito bem explorada. É o exemplo acabado de uma estória que reconhecemos, apesar do duplo universo que nos retrata, em que o universo onírico nocturno, onde a escuridão da noite faz ressaltar as dores, temores e inquietações do protagonista, que as projecta num cenário de uma América alternativa, em guerra consigo própria. É um livro que puxa por nós enquanto leitores e nos conduz a encruzilhadas mentais onde somos muitas vezes confrontados com os nossos próprios fantasmas. Gostei. Recomendo. Termino com a desinteressante informação de que nem sequer sabia que tinha este livro. Apareceu assim a modos de aparição na estante lá de casa, ou dito de outra forma, surgiu “acidentamente” na “Estante”. Boa surpresa! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)
A Intermitência de Andrea Camilleri (Bertrand)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

JOÃO AGUARDELA “Esta Vida de Marinheiro” de Ricardo Alexandre (Quidnovi)


"A tragédia da morte consiste em que ela transforma a vida em destino” ANDRÉ MALRAUX
De vez em quando, ao prazer de ler junta-se algo extra, uma motivação que acresce. É sempre o caso quando alguém que nos é próximo é quem escreve o livro que lemos. Há no momento que antecede a escrita e que a justifica, algo de fundamentalmente humano. Por vezes a raiva, o medo, a necessidade de partilha, o protesto, a vontade de dividir sentimentos, enfim um mundo de sentimentos e emoções, que se procuram fazer entender por quem lê. Provavelmente o Amor e a Amizade são das causas mais aproveitadas para catalizar essas emoções ou necessidades. Sendo que a Amizade é, para mim, uma forma superior de Amor, (pelo menos parece ser um virus mais resistente à acção do tempo e dos outros) e é um dos meus temas favoritos. E não é uma questão meramente individual, algumas das coisas mais sublimes que já li tem a marca indelével da Amizade. É o caso deste livro. É uma empresa que, seguramente, não desejo a ninguém, biografar um amigo que partiu. E nestas páginas, em todas elas, se nota que a emoção não foge, não se esconde. De todos os testemunhos, de todos os episódios que se contam do João Aguardela há um sentimento que perpassa comum, a Saudade e o vazio que ele deixa em todos que com ele se cruzaram nos dias da sua vida. Eu, como todos os que somos produto de uma geração que atravessou todas as paisagens que povoam este livro, os inesquecíveis anos 80, reconheço todo o mundo que aqui nos é contado. Os sitios, as músicas e as bandas. Mas o João Aguardela que conhecia começava e acabava no final das respectivas músicas. Não tinha noção do contributo gigantesco que deu para o avanço da música moderna portuguesa. Essa justiça que faltava fazer está toda nestas páginas.  O Ricardo Alexandre é um Grande Amigo, creio que, como às vezes digo em registo de conversa de café, que para se ser amigo tem de se possuir esse gene. Ele tem-no, a prova maior está neste supremo acto de Saudade e Amizade. Se há certezas, poucas, na vida, esta é uma delas, os nossos Amigos vivem para sempre, por nós e através de nós. Sem muito mais palavras, é um livro excelente. Para todos! Por todos os motivos! Não deixem que vos passe ao lado! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)
Homem na Escuridão de Paul Auster (ASA)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Nova leitura!

Descoberto dentro do "caos organizado" da Estante e já começado. A suivre...

Esta Vida de Marinheiro - Sexta passada na Fnac do Norte Shopping

Lançamento no Porto do livro do meu Amigo e Compadre Ricardo Alexandre sobre a vida e obra de João Aguardela líder dos Sitiados. Na próxima crónica da Estante!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O PERFUME de Patrick Suskind (Editorial Presença)

"Quem possui talento torna-se vítima dele e vive no vampirismo desse talento” FRIEDRICH NIETZSCHE
Prossigo esta semana na minha senda de recomendar leituras de há muitos anos. Uma espécie de RTP Memória em formato literário. Uma por outra vez lembro-me de livros dos quais gostei particularmente. Há que dizê-lo que também me vem suficientes vezes à ideia leituras das quais não gostei absolutamente e, mais ou menos em igual número, livros que não consegui terminar. Destes últimos não se fala aqui como é óbvio, a não ser que algo de surpreendente se tenha passado e, por exemplo venha a terminar uma leitura inacabada. Seria, de qualquer forma, caso raro. Bem, adiante, que para introdução esta já vai longa. Correndo o risco de estar a sugerir um livro que toda a gente já leu, faço-o de qualquer maneira. Pode servir para lembrar para oferecer ou, para quem gosta, para uma releitura. O Perfume é um dos mais extraordinários romances que me foi dado ler. Não sei já quando, a obra é de 1985, mas não deve ter tardado muito mais do que isso. Foi-me, como a esmagadora maioria do que leio recomendado por um amigo, que tambem ele estava estarrecido com a respectiva leitura. A história é absolutamente fascinante, as personagens excepcionalmente conseguidas, com expoente máximo em Jean-Baptiste Grenouille, o assassino. A trama, excepcionalmente bem concebida coloca no palco central da acção uma personagem que vem ao mundo no meio dos mais intensos odores e cheiros com duas características absolutamente ímpares e que dirigem toda a história até ao seu desenlace absolutamente apoteótico: Grenouille não tem cheiro corporal, nenhum. A par disso tem uma capacidade olfactiva absolutamente anormal, que o vai tornar num perfumista fabuloso. A sucessão de episódios que evoluem à volta de cheiros mais ou menos fétidos e perfumes mais ou menos divinais, redunda numa obsessão assassina em busca do odor essencial, obtido a prtir de um processo de destilação dos suores das vítimas. As viagens e os crimes de Grenouille compõe uma obra absolutamente magistral no seu surrealismo. É e há de ser um livro de sempre, com uma história base interessantíssima, contada num estilo e num ritmo poderosos. Posso acrescentar que as obras que li posteriormente do mesmo autor, não conseguiram, infelizmente despertar o mesmo tipo de entusiasmo. Este no entanto é de ler, comprar para oferecer ou mesmo reler. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Noite de Cinema

Fantástica noite a de ontem, promovida pelo Cineclube de Guimarães.
 A propósito de um documentário para a RTP acerca de Manuel António Pina, (o ultimo galardoado com o Prémio Camões), a exibição de um dos seus filmes favoritos (se não mesmo O seu filme favorito). "A Sombra do Caçador" com um Robert Mitchum num papel de antologia. Nunca tinha visto. O epíteto de obra prima assenta-lhe! Fenomenal sob qualquer ponto de vista!
Curiosidade: no intervalo foi sorteado o livro do M.A. Pina, que, veio cair nas mãos do meu amor, com direito a sessão de autógrafo (no singular). Noite boa!


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

QUANDO NIETZSCHE CHOROU de Irvin D. Yalom (Saída de Emergência)


"A angústia é a disposição fundamental que nos coloca perante o nada” HAIDEGGER
Nesta coluna tenho conseguido (na maior parte das vezes), falar de livros que acabei de ler ou que li muito recentemente. Acontece por vezes que por motivos de força maior não me é possível ler um livro novo por semana. Sendo que também acontece o contrário e há semanas em que leio mais do que um. Esta estranha introdução serve para me justificar de, por vezes, entre a leitura que fiz e a respectiva sugestão decorrer algum tempo. É o caso deste livro, que, foi lido já há mais de um ano mas que por um ou outro motivo nunca aqui sugeri. E tenho pena de não o ter feito antes. Vale a pena. É uma muito inteligente abordagem, com pouca liberdade histórica, sobre grandes mitos do pensamento do final do século XIX e principio do século XX, mais concretamente da filosofia e do estudo do cérebro como foram Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Josef Bauer. É um romance interessantíssimo que cruza a existência real dos protagonistas com factos das suas vidas, mas que lhe entrecruza uma vertente interior, que é o que, na minha opinião dá o “sal” a esta obra. Todos os protagonistas são vistos à luz dos seus próprios fantasmas interiores, e são numa forma muito cuidada alvo de “análise” pelo autor Irvin D. Yalom. Este autor, um académico da àrea, Professor de Psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, pinta-nos um retrato de uma Viena fervilhante de brilhantes intelectos onde estão a surgir os fundamentos na psicanálise. Este é um romance com um ponto de partida inteligente, que trata ainda assim da Amizade, do Amor e da Angústia, e que trata de se manter interessante da primeira até à ultima página. Um best-seller atípico, pelo tema. Ainda que os numeros não sejam nunca os argumentos para se sugerir uma leitura, que é muitas vezes fruto do marketing livreiro. Mas neste caso é a qualidade intrínseca que determina os impressionantes numeros de vendas. Estamos aqui a falar de um livro de 1992, não vão por acidente pensar que se trata de uma qualquer novidade, até porque estou certo de que para os mais atentos este é um daqueles casos em que esta sugestão vai clara e redondamente fora de prazo. Mas é fundamentalmente pelo palco e pelos actores deste romance, Friedrich Nietzsche, o maior filósofo da Europa, Josef Bauer um dos pais da psicanálise, e um jovem estudante chamado Sigmund Freud (cujo nome vale por si só), e pela trama que os envolve que este livro vale claramente a pena. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)
O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)
No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

OS LINDOS BRAÇOS DA JÚLIA DA FARMÁCIA de José Rentes de Carvalho (QUETZAL)

"Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso” de MONTAIGNE

Muito dificilmente admito certas coisas a mim mesmo, uma delas, vá lá saber-se porquê, é o “pecado” da idolatria. Simplesmente nunca fui de cultos nem gosto particularmente de gente que revira os olhinhos quando olha para os seus deuses, particulares ou colectivos. Talvez seja daí que vem o meu relativo desapego a concertos e festivais. Um dia vos direi sobre o efeito que os “encores” me provocam. E a verdade é que quanto mais alto se coloca a fasquia maior é o tombo, literalmente. Assim, tento pautar-me por um entusiasmo saudável que me garanta que não tenha muitos dissabores, pelo menos nas leituras, que é o que aqui importa. José Rentes de Carvalho, é um dos poucos nomes que realmente me entusiasma no panorama literário a que vou tendo acesso, e se falarmos de autores portugueses vivos, a coisa anda dividida por dois, um é o Rentes de Carvalho, o outro poderá ser um livro qualquer de qualquer autor desde que venha a gostar, o que tem sido cada vez mais dificil. Culpa minha decerto, que gosto de ler por prazer e não por moda ou mesmo por martírio, essa patologia de aflição na leitura que cada vez mais encontro à minha volta, em que grupos mais ou menos especializados (serão seitas?) se dedicam a incensar alguns escritores mais ou menos... (ia acrescentar qualquer coisa, mas de súbito, pareceu-me bem o mais ou menos). Nesta sugestão de leitura estou um pouco rebarbativo, provavelmente o efeito de regresso de férias, mas também há boas novas. Este “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, conjunto de contos (ou short stories, para quem prefira anglicismos), está perfeitamente ao nível do que se espera do grande José Rentes de Carvalho. Não me canso de ler este formidável escrutinador do mundo e da vida. Num compromisso que cabe ao leitor avaliar, entre a verdade factual e a verdade literária (se é que há distinção de facto...) temos e lemos uma sucessão de episódios que remetem para algo de incomum: o reconhecimento. Reconhecemos como absolutamente credível, possível e intrínsecamente humano qualquer dos enredos destes contos. Mestre Rentes tece uma tela em que a teia é a Verdade e a trama um talento excepcional para contar histórias. É muito dificil pedir mais e melhor. Deixem pois que estes “lindos braços” vos encaminhem para o mundo de Rentes de Carvalho, que de tão simultaneamente cosmopolita, minhoto e duriense, se torna naquilo que nunca deixou de ser, o nosso mundo também. Tenho para mim que há diversas categorias de grandes escritores, a minha preferida é a dos “contadores de histórias”. Sem aprofundar o conceito, acho que é a mais antiga e nobre linhagem no que respeita aos maiores de entre os que escrevem. E se há quem mereça figurar nesta categoria é indubitavelmente José Rentes de Carvalho a quem devemos enquanto portugueses resgatar da relativa obscuridade à qual o votamos durante décadas. Culpa nossa, lucro neerlandês. Termino com a satisfação de poder sugerir uma leitura de um autor português que é excelente cá, lá e pelo caminho. Boas Leituras (e Férias se for o caso...)!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

Quando Nistzsche Chorou de Irvin D. Yalom (Ed. Fio da Navalha)

O Cemitério de Praga de Umberto Eco (Gradiva)

No Coração Desta Terra de J.M. Coetzee (Dom Quixote)