quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)


"Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros tem de curiosamente atractivo” Oscar Wilde
Começo por um aviso, que aliás devia constar na capa deste livro. É para adultos! E de entre os adultos, refaço o aviso: não é para todos! É das coisas mais difícil de classificar de todas as que tenho lido, e não me refiro aos últimos tempos. De sempre! É um livro absolutamente genial. Brutal, crú, inteligente, escatológico, gráfico, descritivo, obsceno, mas sobretudo de um humor fora de série, e profundamente humano, é bom frisar. O titulo não é definitivamente uma manobra de marketing livreiro, é de facto uma espécie de porno (e)popeia. É talvez o retrato mais vivido de alguém que vive no extremo, o protagonista, o genial José Carlos (Zeca) conta-nos na primeira pessoa os dias e noites da sua vida absolutamente dissoluta. Não encontro nada de semelhante na literatura lusa de que me lembre, é como se houvesse um Irvine Welsh brasileiro, mas num registo tropical, sem todas aquelas sombras anglo-saxónicas do “Trainspotting” e subsequentes obras de Welsh. É o retrato do bom malandro, viciado em drogas, álcool e sexo. E simultaneamente acrescenta-nos algo. Todo o percurso do protagonista é de leitura compulsiva e, oferece-nos em permanência uma surpreendente visão das coisas. Devo alertar para que o tom e o conteúdo não são propriamente para os mais sensíveis. Mas que dizer, fiquei “agarrado” desde a primeira página. Tem momentos absolutamente delirantes de humor, uma forma de escrever fantástica, recorrendo a um registo quase de oralidade, aproveitando todas as sonoridades e potencialidades que o calão e a gíria em que o português do Brasil é tão rico. Suponho que será o tipo de livro que gerará alguma polémica quanto ao tom, terá reacções de amor/ódio com certeza. Eu, pela minha parte, mergulhei por completo nesta leitura que tem uma história e um percurso que, para dizer o mínimo, é atípico. Mas volto a reafirmar que é uma obra que li e recomendo. E corro esse risco com o maior prazer. Porque para além do óbvio, do crú, e do que por vezes parece propositadamente produzido para chocar, contém afinal, aquilo que só os grandes livros possuem. A vida, no seu esplendor e nas suas pequenas e grandes degradações. Não preciso de grandes dotes divinatórios para prever que se vai tornar numa obra de referência. Consensual nunca será, mas é magnífica de qualquer modo. Obrigado ao Miguel Carvalho que mais uma vez me oferece algumas muito boas horas de leitura. Vá lá. Atrevam-se e Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Ferrugem Americana de Philipp Meyer (Bertrand)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
Porno Popeia de Reinaldo Moraes (Quetzal)

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