quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O COLECIONADOR DE MUNDOS de Ilija Trojanow (Arkheion)


“O mundo é cego, e tu vens exactamente dele” Dante Alighieri


Esta sugestão vai carregadinha de colesterol J. No meio desta época festiva onde estou certo muitos dos presentes foram livros, fui lendo este que que agora vos aconselho. Apesar de o ambiente económico estar com toda a certeza a afetar as vendas de editores e livreiros, o Natal é sempre um momento especial onde, com maior ou menor dificuldade sempre se encontra um esforço para comprar aquele livro que trazemos debaixo de olho. Há muitas formas de se escrever um grande livro, uma delas e nem sempre a mais fácil é escolher uma boa história e um personagem que tenham existido de facto. No sentido de que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, há nas histórias que se contam sobre os grandes homens um fascínio particular. “O Colecionador de Mundos” de Ilija Trojanow, agora editado entre nós pela Arkheion, não é nem pretende ser uma biografia típica. É, muito mais um romance que aproveita parte do genial percurso de Sir Richard Francis Burton, um explorador inglês do século XIX, que entre outros feitos é conhecido pelas traduções de obras como “As Mil e Uma Noites” e o “Kama Sutra”. De entre uma vida rica de viajante com muitas peripécias e aventuras, o autor revela os dias (ficcionados) de Richard F.Burton na India, na peregrinação que faz a Meca disfarçado de muçulmano e explorando a Africa, abrindo caminho à descoberta da nascente do Nilo.  É uma obra que revela uma escrita madura e com um olhar que reflete uma visão sobre toda a atmosfera dos locais por onde a personagem se move e como estas diferentes paisagens e gentes convergem numa história de vida absolutamente ímpar. É um excelente livro, bem construído, melhor escrito e com um tema extraordinário. Na próxima oportunidade, juntem também este “mundo” à vossa coleção. Vale bem a pena … Boas Leituras e Votos de um Excelente 2013, cheio de livros!!! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
O PROBLEMA ESPINOSA de Irvin D. Yalom (Ed. Saída de Emergência)
JOSÈ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

UMA MORTE SÚBITA de J.K.Rowling (Editorial Presença)


“Evitai ter vizinhos, se quereis viver em paz com eles” Alphonse Karr


Chegamos hoje a uma espécie de marco numérico da publicação desta coluna. Cento e cinquenta sugestões de livros até ao momento. É sempre positivo quando uma ideia nossa se vê concretizada. E neste caso, com pequenas vitórias no propósito que conduziu à publicação destas pequenas indicações semanais de leitura. Com a publicação (nem sempre regular, é a verdade) no blogue com o mesmo nome, vi com grande espanto meu que as principais casas de edição livreira em Portugal me começaram a enviar informação sobre as suas mais recentes publicações e lançamentos. Tive e mantenho, por conta desta coluna contactos com outros leitores, portugueses e não só,  que, sempre que podem me enviam as suas próprias sugestões de leitura, e uma ou outra vez, me fazem saber da sua concordância ou discordância do que por aqui vou indicando. Todo este processo culminou no facto de a Fnac de Guimarães patrocinar esta coluna, sem que, e isso é também excelente, seja de qualquer forma obrigado a escrever sobre os livros que lá vou escolher. Enfim, um caminho que me tem dado muitas alegrias e que quero aqui agradecer a todos os que me vão acompanhando. Relativamente à sugestão desta semana volto a um registo de leituras mais “de moda”, ou pelo menos a um lançamento mais recente no nosso mercado. J.K. Rowling dispensará apresentações para toda a gente que lê. É a “mãe” da saga “Harry Potter”, que, e já por aqui o disse, me ofereceu largas horas de puro prazer de ler. Este “Uma morte súbita”, no original “A Casual Vacancy” ( e que me leva a perguntar porque não uma tradução um pouco mais literal, fazia mais sentido, mas temos essa enorme e singular tradição de não só traduzir como de transformar títulos originais em originais portugueses, veja-se o cinema…), dizia, esta livro trata de uma morte de um conselheiro municipal ou de junta de freguesia (não existe equivalente no nosso sistema autárquica), cuja posição no voto favorável à manutenção de uma área de habitação social na pacata vila de Pagford, vai desencadear uma efervescência social que tem contornos muito particulares. A descrição da paisagem, rural e urbana, a composição das personagens e o jogo de conflitos entre elas, entre os que são pró-Fields e ou que são contra, entre adolescentes e pais, entre maridos e mulheres e toda a descrição de uma atmosfera social muito concreta fazem deste um livro que vale a pena ler. E não só pela fama da autora, se bem que, não é possível esconde-lo, é um dos fatores que primeiro motiva para a leitura, a curiosidade de saber se a escrita de Rowling se confirma neste registo menos “mágico”. Vão por mim, é muito interessante e tem aquele “je ne sais quoi” que nos faz ler com prazer da primeira à ultima pagina. Para todos um Excelente Natal, com muitos livros no sapatinho e, … Boas Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
O COLECIONADOR DE MUNDOS de Ilija Trojanow (Arkheion)
A CIVILIZAÇÃO DO ESPECTACULO de Mario Vargas Llosa (Quetzal)
O PROBLEMA ESPINOSA de Irvin D. Yalom (Ed. Saída de Emergência)


AXILAS & OUTRAS HISTÓRIAS INDECOROSAS de Rubem Fonseca (Sextante Editora)

“O corpo é um parasita da alma” Jean Cocteau

De regresso à leitura de um dos meus favoritos, Rubem Fonseca. Penso não exagerar minimamente se afirmar que este autor se está lentamente a afirmar como uma referência literária para muitos amigos e companheiros de leituras. O que vou ouvindo e conversando sobre livros em trânsito noutras mesinhas de cabeceira confirma-o. Pois mais uma vez aqui venho sugerir uma obra que merece com toda a certeza ser lida e difundida. O registo aqui, é, e aí também está em linha com muitas das obras que tenho tido o prazer e o privilégio de ler recentemente, o conto. Em mais este género Rubem Fonseca prova a sua mestria e reafirma o seu caracter de escritor inconfundível. Ao longo de dezoito contos mais ou menos curtos, vamos mergulhar numa viagem às pulsões mais recônditas do ser humano. Muitas vezes cruel, muitas vezes de um grafismo violento, Rubem Fonseca, revela-nos em cada uma destas personagens simultaneamente marginais e prováveis um mundo de obsessões. A morte, a velhice, a degradação física e moral, a violência gratuita e inexplicável fazem parte de um conjunto de pequenas histórias, que muito mais do que indecorosas, são de leitura compulsiva. Escrito de formas diversas, com recurso a várias técnicas narrativas e a narradores da primeira à terceira pessoa, vamos sempre aprendendo qualquer coisa mais com as disposições e processos mentais de um leque de personagens singulares. Um exercício de estilo que, felizmente se reconhece como Rubem Fonseca puro e duro. Lê-se de enfiada, de forma quase hipnótica. Um excelente recurso para oferta na época festiva que se avizinha. Para os amantes da obra de Rubem Fonseca é mais um tiro na “mouche”. Para os que não conhecem, é uma boa forma de ir entrando neste universo ímpar. Boa semana e, … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
O COLECIONADOR DE MUNDOS de Ilija Trojanow (Arkheion)
A CIVILIZAÇÃO DO ESPECTACULO de Mario Vargas Llosa (Quetzal)
UMA MORTE SÚBITA de J.K.Rowling (Editorial Presença)
O PROBLEMA ESPINOSA de Irvin D. Yalom (Ed. Saída de Emergência)
JOSÈ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


OS COMBOIOS VÃO PARA O PURGATÓRIO de Hernán Rivera Letelier (Ulisseia)


“Viajar é nascer e morrer a todo o instante.”Vitor Hugo

Mais uma semana e mais um excelente momento de leitura. Uma vez mais seguindo o sábio conselho do meu querido Amigo Miguel Bastos, que tantas e tão boas pistas me tem dado nos últimos tempos. O panorama literário sul-americano, é, a exemplo do continente ele próprio, de uma riqueza inesgotável. Dessa zona tenho recebido pela leitura alguns dos meus melhores momentos de prazer em ler. Não é meu costume misturar numa crónica sobre um livro e um autor determinado as referências que tenho do seu país ou do seu estilo de escrita, o que neste caso é ainda muito mais fácil. Hernán Rivera Letelier, é, como todos os grandes escritores um estilo em si mesmo. Não se confunde. Apesar de algumas paisagens e personagens poderem de alguma forma sequer enquadradas ou integradas num universo local comum, há na obra deste autor uma voz muito própria e que se destaca. Este livro, que não é sequer uma obra muito extensa, é uma maravilha de se ler. Tem como pano de fundo uma viagem. Uma viagem de comboio de quatro dias pelo deserto de Atacama. E é uma viagem ao universo interior de riquíssimas personagens que se cruzam, conhecem e confrontam nesse pequeno microcosmos romântico que é o comboio. Uma história de gentes diferentes num trajeto comum. Um retrato de uma realidade dura, contada com alguma crueza aqui e ali, mas sempre temperada com um humor suave e inteligente que nos faz querer ler e saber mais da origem e destino destes passageiros acidentais. Já aqui tinha sugerido “A contadora de histórias” deste autor que na altura muito me surpreendeu e impressionou de forma positiva. Este “Os comboios vão para o Purgatório” é a confirmação da certeza que tenho de ter de ler mais da obra de Hernán Rivera Letelier. E não é por acaso que já está em lista de espera o “Miragem de Amor com Banda de Música”. Se puderem façam-no também. Vale mesmo a pena ler.
Boa semana e, … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
AXILAS & OUTRAS HISTÓRIAS INDECOROSAS de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
JOSÈ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

TEIA DE CINZAS de Camilla Lackberg (D. Quixote)


“Mais penosas são as consequências da ira do que as suas causas” Marco Aurélio


Volto ao mesmo sítio. Invariavelmente. Começo a pensar que há na minha abordagem a livros e autores uma qualquer teoria da conspiração instalada que, de forma mais ou menos consciente me atrai para o romance policial. Também se pode dar o caso, que não é virgem, de, gostando de um livro de um determinado autor me dedicar a descobrir o respetivo “filão literário”. Bem sei que continua a haver muita e boa gente que coloca o género numa prateleira separada daquela que é genericamente denominada de “literatura séria”, ou pelo menos que não gosta de misturar o género. Eu tenho muitas dúvidas a esse respeito, até porque muitos dos melhores livros que li, independentemente da temática principal, tem algo da construção típica da atmosfera policiária. Toda esta abertura da coluna desta semana pode levar a pensar que o livro desta semana é algo de extraordinário ou grandioso. Não. Nem é o que por aqui se pretende. Como tenho vindo a reafirmar algumas vezes, o interessante é para mim partilhar leituras que me agradaram. Independentemente do patamar literário que venha a ser encontrado para a obra em questão. Este livro, de uma autora do espetacular universo de autores de policiais nórdicos. Sim, porque há de facto um viveiro de autores de romances policiais e de mistério nos países nórdicos (e é bastante anterior ao sucesso mundial da trilogia de Stieg Larsson, basta pensar por exemplo em Henning Mankell). Não me cumpre aqui explicar o fenómeno, mas é como “las brujas…que las hay las hay”. E Camilla Lackberg, que é aliás famosa por um livro que ainda não li, leva alto e longe o nome da produção policial sueca, neste e noutros casos. O livro, é bem construído, com um enredo interessante, com um caminho nem sempre fácil e evidente para o desfecho. Pontuado por flashbacks que vão a seu tempo encontrar sentido no desenrolar da história, lê-se muito bem e de forma descontraída. E para o que se pretende com esta coluna, que é promover a leitura, é um conselho e uma sugestão fáceis de dar. Boa semana e, … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
ULTIMO ACTO EM LISBOA de Robert Wilson (D. Quixote)
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
JONAS VAI MORRER de Edson Athayde (Guimaraes 2012)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
OS COMBOIOS VÃO PARA O PURGATÓRIO de Hernán Rivera Letelier (Ulisseia)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
AXILAS & OUTRAS HISTÓRIAS INDECOROSAS de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
JOSÉ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Jonas Vai Morrer


Escrito pelo Edson Athayde em residência artística durante a Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura e gentilmente enviado pelo meu amigo Rodrigo Viana de Freitas.
Estou curioso....

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

DIÁRIO DE INVERNO de Paul Auster (ASA)


“Se queres um escudo impenetrável, permanece dentro de ti mesmo” Henry Thoreau

Para inaugurar um novo ciclo desta coluna semanal de sugestões que tem a partir de agora o patrocínio e contributo da FNAC, um titulo de um autor que nem sempre é consensual para mim. Que há coincidências é bem verdade, basta atentar no que aqui afirmava a semana passada a respeito das biografias e autobiografias, para se ver que as regras são cada vez menos rígidas e os hábitos cada vez menos o que eram. O livro desta semana, é um diário autobiográfico. E, se é verdade que o género me tem sido um pouco alheio, não é menos verdade que ainda hoje me foi aconselhada uma leitura de uma biografia por um amigo. Mercado não faltará certamente. Mas, e para voltar ao objeto desta coluna, e para reafirmar o seu propósito, não estaria aqui a falar desta obra se ela não me tivesse agradado, e tivesse também dúvidas sobre se agradaria a mais alguém. É uma obra muito, muito interessante. Pode sempre perguntar-se se trata de um verdadeiro diário, se as memórias contadas são as memórias vividas, mas tal como no caso da crónica anterior sobra a obra de Garcia Márquez, estas são excelentemente contadas. Num registo de pequenos fragmentos, tal como as entradas num diário, de forma cronológica e atravessando todos os sítios onde Auster residiu, até se fixar na sua recorrente paisagem de Brooklyn, vamos conhecendo aquilo que o homem por trás do autor nos entende mostrar. E, a fazer fé na veracidade dos relatos, mostra bastante. É um retrato que entra intimidade adentro. Das relações com a família, com as namoradas, amigos, experiencias de vida, relatos mais ou menos detalhados da maturação sexual, de tudo se vai falando. De toda uma construção de uma carreira aqui se escreve. E lê-se com muito prazer. Vou-me repetir, o que aliás não farei certamente pela última vez a respeito deste autor. Paul Auster nem sempre escreve a meu agrado, mas do que gosto, tenho que dizer que gosto muito. E este Diário é um dos raios de sol deste meu particular inverno de leituras. Para quem gosta do autor é fundamental. Um “Must reed”. Para quem não conhece ou gosta…. Acreditem que vale a pena tentar. Boa semana e, … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
ULTIMO ACTO EM LISBOA de Robert Wilson (D. Quixote)
PENA CAPITAL de Robert Wilson (D. Quixote)
TEIA DE CINZAS de Camilla Lackberg (D. Quixote)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
OS COMBOIOS VÃO PARA O PURGATÓRIO de Hernán Rivera Letelier (Ulisseia)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
AXILAS & OUTRAS HISTÓRIAS INDECOROSAS de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
JOSÈ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

FNAC

A partir de hoje, a minha coluna semanal "Estante Acidental" que vem sendo publicada no jornal "O Povo de Guimarães" há já cento e quarenta e cinco edições, tem o patrocínio da FNAC.
Ao "Povo de Guimarães", à FNAC e sobretudo a quem por aqui vai passando, o meu Muito Obrigado!!!
Os livros abaixo são as primeiras ofertas.





Da Imprensa Nacional Casa da Moeda na FABRICA ASA


VIVER PARA CONTÁ-LA de Gabriel Garcia Marquéz (Dom Quixote)


“Um homem de letras, que não escreve as suas memórias, tem realmente direito a que os outros lhas não escrevam” Eça de Queirós

Um dos géneros que provavelmente menos frequento, dentro das minhas leituras, é, por um qualquer motivo que ainda não consigo identificar, o das biografias. Em conversa com vários dos amigos que comigo partilham o gosto, e também sugestões de leitura, estes parecem ser um tipo de livros que tem de facto alguma simpatia no mercado. Partilhando de início a minha reserva pelo tipo de leitura, não lhe sou completamente estanque. Já tenho lido algumas. Do que tenho lido, prefiro a “subespécie” da autobiografia. Há como em todas as áreas da literatura sempre um intenso debate sobre a maior ou menor veracidade de tudo aquilo que se conta e da forma como se conta. Nada me parece mais normal do que o facto de a revisitação do passado ser feita com base em memórias que são muitas vezes representações mentais que não são rigorosamente o que de facto aconteceu. Continuo a não achar importante. Na literatura, e é bom que o diga desde já, que o livro desta semana é literatura. Não é um diário, ou um registo factual e documental da vida de Gabriel Garcia Márquez, mas sim um espantoso exercício de escrita. É um livro, e aqui gostava de, ao contrário do que afirmei na introdução desta crónica, de o retirar debaixo desse eventual rótulo de autobiografia. Pelo menos na minha opinião, é um excelente romance cujo pano de fundo, por acaso, é a vida recordada do autor. Quem como eu gosta, e muito da obra de Gabriel Garcia Márquez, tem aqui, não só excelentes pistas para muitos dos seus universos particulares de escrita, mas um sinal claro de que o realismo mágico é todo um ambiente que rodeou o autor desde cedo. Acompanhemos portanto Garcia Márquez numa viagem com a sua mãe à sua terra natal para proceder à venda da sua casa de família, para ficar a conhecer toda uma saga e uma galeria de personagens riquíssima, que, repito, por acaso são os parentes do autor. Livro interessantíssimo e, é redundante eu sei, excelentemente construído e escrito. Fundamental na, da e para a obra do autor. Boa semana e, … Melhores Leituras! J


Na Mesinha De Cabeceira:
REVER PORTUGAL de Jorge de Sena (Guimarães)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
VIVER PARA CONTÁ-LA de Gabriel Garcia Marquez (Dom Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
OS COMBOIOS VÃO PARA O PURGATÓRIO de Hernán Rivera Letelier (Ulisseia)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
AXILAS & OUTRAS HISTÓRIAS INDECOROSAS de Rubem Fonseca (Sextante Editora)
JOSÈ de Rubem Fonseca (Sextante Editora)


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

PULP de Charles Bukowski (ALFAGUARA)


"O fim louva a vida e a noite o dia." Petrarca

Mais um presente de Amigos queridos, e neste caso fornecedores de grandes e boas sugestões de leitura também. Charles Bukowski é um autor incontornável do Século XX, e provavelmente um dos americanos mais conhecidos e influentes. No entanto, é também um caso em que o autor é ele próprio tão ou mais visível que a própria obra. É conhecida a carreira literária de Bukowski, mas neste como em alguns casos, a vida do autor determina bastante o resultado dos seus escritos. Charles Bukowski tem uma relação problemática com o álcool desde cedo, e vive sempre à margem dos meios literários, (d)escrevendo sempre a sociedade pelas suas margens. Este “Pulp” é o seu último romance, de uma obra literária que foi sempre de alguma forma assumidamente autobiográfica. Talvez conheçam melhor Bukowski pela sua obra poética, talvez a mais influente da América do Século XX, mas não deixarão com certeza de reconhecer outras, como é o caso de, por exemplo “Hollywood”, um livro que lhe foi pedido que escrevesse acerca de si para constituir um guião de um filme. O filme, como decerto muito reconhecerão é o “Barfly” de 1987, com Mickey Rourke e Faye Dunaway, onde Rourke interpreta o mais famoso alter ego de Bukowski, Henri Chinaski. Neste seu ultimo livro, Bukowski não deixa cair um registo de extrema mordacidade com a sua, nesta obra, personagem o detetive privado Nick Belane. A presença constante da sua cliente a Senhora Morte, a busca do “Pardal Vermelho” e a forma como termina o livro, podem de facto ter ou ser imensas leituras do carácter pessoal do autor e do drama pessoal que o afligia na altura da escrita. Mas, como aqui venho sistematicamente repetindo, melhor do que conhecer o autor e interpretar a obra à luz do que dele sabemos, é sempre mais gratificante e dá uma maior liberdade de fruição, se nos deitarmos à leitura sem ideias preconcebidas. E este livro, que tem um estilo muito próprio, e que, também se encaixa numa determinada linha de escrita policial, é muito bom e fácil de ler. Guardo mais Bukowski para um futuro próximo. Entretanto, não percam este. Vale a pena…  Boa semana e … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
REVER PORTUGAL de Jorge de Sena (Guimarães)
UM APARTAMENTO EM ATENAS de Glenway Wescott (Relógio d´Agua)
VIVER PARA CONTÁ-LA de Gabriel Garcia Marquez (Dom Quixote)
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
OS COMBOIOS VÃO PARA O PURGATÓRIO de Hernán Rivera Letelier (Ulisseia)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)



Três entradas...




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

MAZAGRAN de J. Rentes de Carvalho (QUETZAL)


"A diferença entre as recordações falsas e as verdadeiras é a mesma que existe entre as jóias: são sempre as falsas que parecem mais reais, mais brilhantes." Salvador Dalí


Novo livro de José Rentes de Carvalho. Excelente notícia para quem, como eu, espera ansiosamente cada nova publicação. Desta vez com um ingrediente adicional. O livro deu às livrarias no passado dia 4 de Outubro, estava eu na mais completa ignorância do facto. Como “groupie” devo de facto ser dos menos competentes. J .Ora o que se passa é que, leitor habitual e compulsivo do blogue de Rentes de Carvalho, “Tempo Contado”, era por aí, que normalmente sabia dos lançamentos de novas obras. Como infelizmente o autor resolveu fazer uma pausa nas publicações do blogue, fui apanhado de surpresa. E que surpresa. Não é que, no passado dia 4 de Outubro, que por superior coincidência foi também o dia do meu aniversário, e a minha querida comadre ultrapassou a minha indesculpável ignorância do lançamento, presenteando-me com o livro, fresquíssimo, a sair das livrarias? Amigos são estes, os que nos conhecem os gostos e antecipam vontades. Voltando à obra, só posso ser o mais redundante e repetitivo possível nesta matéria. José Rentes de Carvalho é um autor de leitura obrigatória. Junta nas doses certas a forma e o conteúdo. Não me cansarei de repetir o extraordinário talento que Rentes de Carvalho tem para escrutinar gentes e situações. Para onde nós olhamos e encontramos o banal, Rentes de Carvalho vê o extraordinário. Encontra a verdadeira essência do que nós somos e pomos nas mais diversas situações da vida. Num registo que procura sempre uma verdade de consciência, onde se nota sempre caracter e nunca indiferença, J. Rentes de Carvalho, está nos antípodas de uma enorme manada de gente que escreve, e, a quem espantosamente lhes publicam os livros. Que me desculpem se não concordarem, mas há de facto de entre aqueles a que chamo “autores portugueses vivos”, uma percentagem assinalável que complica o que escreve a pontos de já nada nos conseguir transmitir. É arte, argumentarão uns. E a arte não se explica nem tem que necessariamente conter uma mensagem. Já para mim, são apenas artistas. Escritores…isso é outro assunto. Obrigado Mestre Rentes, por mais umas horas de magnífica leitura. Não percam, que neste caso perdem mesmo muito….

…  Boa semana e … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
REVER PORTUGAL de Jorge de Sena (Guimarães)

Recomendações e empréstimo!!!



Pela mão do Miguel Bastos, fonte de muitas e boas recomendações de leitura!!!!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O FANTASMA DE HARLOT de Norman Mailer (ASA)


"Não há nada em que paire tanta sedução e maldição como num segredo" Soren Kierkegaard



A sugestão desta semana é um livro especial. Em primeiro lugar pela importância do autor, Norman Mailer, a par de Tom Wolfe (de quem aqui já sugeri algumas obras) e de Truman Capote como um dos fundadores da não-ficção criativa ou Novo Jornalismo. Duas vezes galardoado com o Premio Pulitzer, tem uma extensa e notável obra. Em segundo lugar pela temática à qual regressarei de seguida. E em terceiro lugar porque é um livro, que na edição que possuo, das Edições Asa, tem mais de 1400 páginas. A história tem como tema e pano de fundo central, uma outra Central, a CIA (Central Intelligence Agency). É uma história que percorre de forma intima todos os corredores, segredos e vicissitudes da maior agência secreta do mundo. Partindo da visão de um homem e de uma morte (ou desaparecimento) da personagem que dá o nome ao romance Hugh “Harlot” Montague, este livro entra de forma absolutamente detalhada na teia de relações que montam essa estrutura que, de certa forma, pelo menos no que se retira desta leitura, faz coincidir a criação com o criador. Melhor dizendo, chega-se a intuir que a CIA é uma forma não completamente percetível da própria noção do Estado Americano. É o único livro que li até hoje de Norman Mailer. Sei mais dele pela polémica opinião que dele tem Tom Wolfe, num dos artigos do seu, já nesta coluna mencionado e sugerido “Hooking Up” de 2000, do que propriamente pela obra publicada. Não é uma entrada fácil no universo literário de Mailer, mas quero crer que o estilo se mantém nas demais obras. Para quem gosta de ter um livro de longo alcance, no tema, na ação e neste caso no tempo também, é a leitura indicada. Recomendo vivamente! Aproveito esta edição da “Estante” para revelar que já a partir das próximas edições, esta coluna vai ser patrocinada pela FNAC, o que, constitui para mim um grande motivo de orgulho e uma responsabilidade acrescida também. Reafirmo no entanto o propósito inicial, que é o de sugerir, e sugerir apenas, leituras que de uma forma ou de outra me agradaram. Não faço crítica literária, ou se quiserem, faço-a no sentido em que, do que não gosto não falo. Para falar do que não gostam parece-me a mim que já os há bastantes…  Boa semana e … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
REVER PORTUGAL de Jorge de Sena (Guimarães)

O CONDE DE MONTECRISTO de Alexandre Dumas


"A vingança é o manjar mais delicioso, condimentado no Inferno" Walter Scott


Percorrendo a lista de livros que por aqui vou sugerindo e olhando para a estante, a estante de facto aqui de casa, assinalo uma outra falha que merece correção imediata. Obrigado que sou, por motivos pessoais e profissionais a uma certa “desaceleração” na minha velocidade de leitura habitual, não quero no entanto deixar de ir sugerindo leituras, que como esta de hoje, são intemporais, e acrescento, de aposta completamente segura. A única dificuldade que se me afigura aqui será no entanto a de encontrar quem nunca tenha lido “O Conde de Montecristo”. É uma obra absolutamente magistral, um clássico a todos os títulos. Ainda conservo os três volumes de uma edição do Circulo de Leitores dos anos oitenta que já por várias vezes reli. É o romance onde impera por excelência o desejo de vingança. A reviravolta do destino que permite ao pobre injustiçado aceder a riquezas fabulosas que lhe dão os meios necessários para corrigir e reparar todas as maquinações que contra ele tinham sido perpetradas. Edmond Dantés, o mais que famoso protagonista é falsamente acusado e preso no Castelo de If, do qual se evade numa das mais famosas fugas literárias da prisão de todos os livros, para encontrar um tesouro de proporções inimagináveis que lhe vai proporcionar a queda de todos os que o haviam prejudicado. Sendo como para mim foi, e suponho que para muitos também, um romance típico de aventura, e que li na adolescência, não tenho no entanto qualquer pejo em recomendar a sua leitura a quem, eventualmente o não tenha feito. Este é um dos casos em que quaisquer obras de cinema e televisão que adaptaram este livro, nunca (apesar de não as ter decerto visto todas), nunca fizeram completa justiça à belíssima e poderosa obra de Alexandre Dumas. Recomendo com toda a convicção. Se há livros que propagam, disseminam e contaminam o leitor com o vírus da leitura compulsiva, este será com toda a certeza uma das estirpes mais resistentes, no tempo e em qualidade dessa magnifica doença. É uma das pedras basilares da leitura no que a mim me diz respeito, por isso é com imenso prazer que aqui o venho relembrar e sugerir. Vão pensando neste livro como uma das mais válidas opções para oferta, a vós próprios ou a gente de quem gostem. Voltarei na próxima semana a sugerir coisas, ia dizer mais atuais, mas a natureza humana descrita n´”O Conde de Montecristo” é a de sempre, pelo que melhor dizendo, voltarei na próxima semana a recomendar leituras de edição mais recente.

Boa semana e … Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
REVER PORTUGAL de Jorge de Sena (Guimarães)


PERRY MASON O CASO DAS GARRAS DE VELUDO de Erle Stanley Gardner (Edições ASA)


"A confiança é a mãe dos grandes actos." Friedrich Schiller


Seguindo uma linha de alguma coerência com os propósitos que ditaram a ideia original desta coluna. A sugestão ( e, ressalvo uma vez mais que se trata apenas de sugestões de livros e não de critica ou de análise literária ) de livros que vou lendo ou relendo, ou, que também por conselho de amigos e conhecidos me vão chegando, gostava de deixar aqui mais esta indicação de leitura da obra de Erle Stanley Gardner. Já o fiz e com toda a certeza o voltarei a fazer. Esta semana, a este propósito, trago a primeira obra deste autor e onde surge o celebérrimo Perry Mason pela primeira vez num romance. A sugestão em si é mais emblemática e simbólica, por se tratar de uma obra em que se abre um caminho e se cria um nome que ficará como uma das marcas indeléveis da literatura policial do Séc. XX, do que pelo livro e pela história em si. Não se fique no entanto com a sensação que é uma obra sem interesse ou menor. Não. É um livro que caracteriza uma forma de escrever policiais e que tem o seu lugar nessa escola de escrita, onde se nota já muito do que virá a ser o universo literário de Perry Mason que ao longo de décadas e dezenas de volumes criou uma mitologia policiária particular. Este livro é de 1933, o que o torna, depois de lido uma obra absolutamente intemporal. Versa como todos os bons policiais de crime e engano e Erle Stanley Gardner monta aqui um primeiro cenário de voltas e reviravoltas na ação que se tornarão a sua marca distintiva na obra que se lhe seguirá. Surge também aqui desde logo as personagens chave Della Street e Paul Drake que acompanharão Mason pela totalidade da obra. Vou nos próximos tempos, e porque o ambiente geral me parece propô-lo com alguma propriedade e atualidade tentar indicar obras de escritores e pensadores portugueses que tenham refletido sobre Portugal enquanto nação. Assim, estarei nos próximos tempos em leitura da obra de Jorge de Sena que consta abaixo na “mesinha de cabeceira” da qual vos darei conta mal a termine. Aproveito também em jeito final para deixar aqui noticia que uma grande surpresa está reservada para esta coluna e da qual aqui também farei eco logo que tenha a devida confirmação. Esperando sempre depositar uma pequena semente que leve ao desejo de ler despeço-me com Votos de Bom fim de semana e… Melhores Leituras! J


Na Mesinha De Cabeceira:
REVER PORTUGAL de Jorge de Sena (Guimarães)


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O HOMEM DESPEDAÇADO de Gustavo Melo Czekster (Dublinense – Brasil)

"No conto tudo precisa ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida." Eça de Queirós
Antes da sugestão, a história. Este livro, e antecipo já, este delicioso livro, fez o seu caminho atravessando o Atlântico por mão da Lelena Terra Camargo, mentora do blogue “Bípede Falante” e grande divulgadora de Arte e Literatura que venho acompanhando há já alguns anos, por via do acesso ao referido blogue e também pelas redes sociais. Para ela vai desde já o meu sincero e merecido agradecimento. Há poucas coisas tão valiosas na vida como um bom livro, que estão nível de um bom Amigo, mas, infelizmente, nem um nem outros se atravessam na nossa vida com a frequência que desejamos. Este livro, ao qual tenho acesso por privilégio, já que não está publicado em Portugal, é um livro de contos, e ao que me apercebo uma obra de estreia. Há certamente vantagens e inconvenientes em não conhecermos os autores das obras que nos surgem, a mais-valia mais evidente é o não termos quaisquer “parti pris”, nem preconceitos. É o caso. Li-o sem mais referências que não fossem a da sugestão, entusiasmada diga-se, da Lelena. E que belíssima surpresa me estava reservada meus caros, este é um livro raro. O conto é, para mim uma das formas prediletas de escrita. Já por aqui falei de autores aos quais o género não é alheio, Gabriel Garcia Marques, Oscar Wilde, Dalton Trevisan, e o meu particularmente querido José Rentes de Carvalho, para citar alguns dos nomes que fizeram que as minhas horas de leitura de contos fossem de excelência. O conto é uma arte, muito alicerçada, na minha opinião numa dupla onde entram com certeza o ritmo e a intensidade do que se conta. Gustavo Melo Czekster, independentemente de tudo, entra neste género pela porta grande. Os seus contos são acima de tudo intensos, com fundo e conteúdo. Tratam a Vida e a Morte por tu, conseguem cozer uma sensibilidade muito fina com momentos literários de grande violência. É um livro que merece a pena ser lido, tem, como todos os muito bons livros de contos encerrado neles, parábolas, alegorias e fábulas. Não falha num elemento tradicional do bom contista que é o desfecho sempre surpreendente, e aqui com o acréscimo (opinião minha) de o ser, quase sempre, deliciosamente amoral. Não gosto de antecipar muito dos livros que por aqui vou sugerindo, uma razão é a do espaço que o jornal me concede, a outra é porque o prazer da leitura está muito mais na descoberta do que na concordância ou discordância com as minhas opiniões, que são, para o caso, irrelevantes. No entanto, neste caso, pela cosmogonia particular que cada um destes dois contos encerra, relevo um par de histórias: “eu, tu, eles, os homens tridimensionais” e “divertissements sobre a dilatação dos porcos”. O livro é também ele um circulo que se fecha sobre si mesmo, com algumas recorrências de personagens e ambientes buscando um sentido mais amplo que se tomarmos cada conto como uma peça isolada. Não, há aqui uma engrenagem que funciona pela soma das partes também. À pergunta que fecha o primeiro e o último dos contos, dou eu a minha resposta: a este livro rendo-me mesmo sem luta, aliás com todo o prazer.
No momento em que escrevo esta crónica a publicação está a cargo da Editora Dublinense de Porto Alegre – Brasil, deixo aqui o contacto para quem estiver interessado na compra, ou o que seria bem melhor na edição em Portugal: contato@dublinense.com.br.
Uma vez mais o meu sincero agradecimento à Lelena pela gentileza da oferta e ao Gustavo Melo Czekster por autografar o meu exemplar.


Boa “rentrée” e… Melhores Leituras! J



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

MAIGRET & A AMIGA DE MADAME MAIGRET de Georges Simenon (ASA)


"Provamos através da lógica, mas descobrimos a partir da intuição." Jules Poincaré
 
A “Estante Acidental” regressa depois desta quinzena de interrupção estival, que, esperamos possa ter sido de férias para todos os que partilham o prazer da leitura. Nesta altura, por motivos vários e dos quais já por várias vezes aqui se tem falado, aparentemente lê-se mais. E isso é, no meu ranking das coisas boas, próximo do excelente. Não importa muito o que se lê, desde que se leia. Sei que haverá sempre quem conteste e com boa argumentação mas, há tempo para avançar para outros patamares. Importante é ler. E para tudo há um ponto de partida. Sei-o por experiência de anos a tentar incutir hábitos de leitura em tudo o que mexe à minha volta, a taxa de sucesso é bastante duvidosa, mas não desisto. A sugestão desta semana vem na sequência de um regresso estival a leituras de policiais mais antigos. Tenho até um amigo de leituras que está neste momento a revisitar a famosa “Coleção Vampiro”, tarefa de altíssimo gabarito. No entanto, de todos, os relativa, e os absolutamente famosos personagens saídos de romances policiais, nunca estaria a galeria minimamente composta sem a presença do Comissário Maigret, essa criação genial e intemporal de Georges Simenon. Não é uma personagem que os leitores mais jovens reconheçam com a facilidade que a minha geração o faz, não tenho notícia de nenhum remake televisivo das histórias de Maigret nem de reposições da série que no meu tempo passou, o que, claramente não ajuda à divulgação do nome. Mas a identificação do sobretudo, do chapéu, dos cachimbos e o estilo inconfundível do Comissário Maigret, continuam a fazer um género à parte no meu pequeno mundo de figuras do universo policiário. Criado por Simenon em 1929 Maigret é o personagem principal em nada menos que oitenta e quatro livros, este Maigret & a Amiga de Madame Maigret é publicado em 1950 e foi também um dos episódios adaptados para televisão. Da história, adianto apenas que começa com uma denúncia anónima e é de facto a Madame Maigret que vai contribuir para o aparecimento da pista certa para a resolução de mais este caso. De qualquer forma este titulo é apenas o pretexto, porque o que é bom é recuperar estas leituras, quaisquer que sejam. Maigret e Simenon merecem-no, e nós também. Para a semana falarei de um pequeno livro, delicioso, que cruzou o Atlântico por oferta de uma amiga que tem dedicado muito de si à divulgação das Artes e Letras, aguardem que valerá a pena!
Bom final de Agosto e… Melhores Leituras! J

Na Mesinha De Cabeceira:
O HOMEM DESPEDAÇADO de Gustavo Melo Czekster (Dublinense – Brasil)