sábado, 28 de dezembro de 2013

AS PRIMEIRAS COISAS de Bruno Vieira Amaral (Quetzal)

Aqui não andam só os vivos – andam também os mortos. A humanidade é povoada pelos que se agitam numa existência transitória e baça, e pelos outros que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há outra edificação, e uma trava ideal que o caruncho rói une todas as construcções vulgares. Debalde todos os dias repelimos os mortos – todos os dias os mortos se misturam à nossa vida. E não nos largam.” Raúl Brandão

Prosseguindo nestas ultimas semanas num ritmo muito apreciável de leituras, fui, como muitas vezes faço, procurar uma obra nova que viesse bem recomendada. Esta vinha com apresentação de José Rentes de Carvalho que, a juntar ao imenso prazer que tenho tido em ler a sua obra, também nos seus conselhos de leitura e indicações ainda não me falhou uma única vez. E, devo afirmar desde já, não só concordo com tudo o que Rentes de Carvalho deste livro nos diz como devo reforçar o tom. Há já algum tempo que nada escrito por e em português de Portugal me espantou tanto. Tenho por hábito disseminar pelos meus amigos leitores todas as obras que mais me agradaram. Este “As Primeiras Coisas” já foi de oferta para meia dúzia de amigos,e, como antecipava, a opinião converge com a minha. Cocteau dizia que o estilo é uma maneira muito simples de dizer coisas complicadas, não posso estar mais de acordo. E acrescento, poderá ser uma maneira muito simples, mas é talvez a mais dificil de conseguir. Já o inverso, infelizmente abunda. Mas, voltando ao que aqui interessa, que espantoso livro, e que “primeira coisa” excelente nos dá Bruno Vieira Amaral. É a soma de todas as partes desta prodigiosa primeira obra que se torna maior do que o todo. A ideia de base, o modelo da obra é por si só, justa causa de merecidos elogios. A forma como se introduz o narrador, o regresso a um passado que teima em permanecer, e depois, uma espécie de romance “por entradas”, que espantosamente se une num todo perfeito, é para dizer o minimo, uma delicia para mim leitor. Claro está que a forma é apenas o prato onde nos é servido um banquete de escrita superior. Todas as personagens, todas as situações, todas as memórias, tudo que nos é mostrado tem algo de primordial, de essencial e verdadeiro. Toda a gente, tudo o que se passou, todo o Bairro Amélia, tudo, mas mesmo tudo existe agora para sempre em mim. É uma escrita profundamente verdadeira. Sem artificios, sem concessões. Nada menos. Há muito, muito tempo que não lia nada que me tivesse agradado tanto. Mais um espinho cravado (e bem) no meu cada vez menos convicto, preconceito com “autores portugueses vivos”. Bruno Vieira Amaral entra directo para um lugar especial nas minhas preferências. Um autor novo, uma voz nova, que tem, de facto algo para nos contar. Um livro excelente sobre um universo onde cabe de tudo. Um livro raro, até ao final, que é de uma espantosa perfeição e nos faz ficar à espera de mais. E isso não é pouco, é simplesmente tudo. Assim não é apenas fácil sugerir esta leitura, é um prazer que me orgulho de poder partilhar. Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
O HERÓI DISCRETO de Mário Vargas Llosa (Quetzal)
HISTORIAS DE LOUCURA NORMAL de Charles Bukowski (Alfaguara)
A RAPOSA AZUL de Sjón (Cavalo de Ferro)
À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
ESCREVO PARA AJUSTAR CONTAS COM A IMPERFEIÇÃO de Ricardo Guimarães (Modo de Ler)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DEIXA LÁ e MÁS NOVAS de Edward St Aubyn (Sextante Editora)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA) 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A CHAVE PARA REBECCA de Ken Follett (Bertrand)

As duas virtudes cardinais na guerra são a força e a fraude” Thomas Hobbes

Livro de 1980. A entremear leituras de outro fôlego, sinto por vezes necessidade de algo mais descontraído. De algo mais no género policial, thriller ou uma aventura qualquer que entretenha mais do que obrigue a pensar. Sem querer catalogar de forma nenhuma, nem o autor, nem a obra em questão, o facto é que é um daqueles livros que, de tão bem escritos, com um ritmo tão intenso e com uma trama bem estudada, nos proporcionam momentos de evasão e prazer. O que faz de um livro um verdadeiro “page turner” como este? Há decerto imensas receitas e outros tantos cursos de escrita mais ou menos criativa que vendem essa receita. Para mim, no entanto o segredo está sobretudo no ritmo. Na sequência de eventos, numa logica de episódio que revela episódio e na maior parte das vezes com um ou mais segredos ou mistérios em pano de fundo. Assim uma espécie de armadilha mental, com numerosas iscas a atrairem o leitor de evento em evento até ao desenlace final. Ken Follett é um nome seguro no circulo restrito dos vendedores de topo. Muitos milhões de livros vendidos, muitas obras adaptadas para pequeno e grande ecrân ( O Buraco da Agulha, ou mais recentemente o sucesso televisivo tardio de “Os Pilares da Terra”, este de 1989), fazem com que, a exemplo de alguns outros, este seja um nome que é bem visivel em prateleiras e escaparates de grandes superficies, quiosques e lojas de aeroporto. O que, se pensarmos melhor tem indiscutivel mérito. Esta (re)edição de 2010, não deve por isso ser dificil de encontrar. Um bom livro para acompanhar estes dias invernosos, de preferência com boa luz e uma poltrona confortavel para pelo menos fugir ao desespero que é a programação televisiva desta altura de Festas. Não é este o livro que vos vai mudar a vida mas é entretenimento garantido. E isso já é muito mais do que muitos se podem gabar de produzir. E last but not the least, a Rebecca aqui, é mesmo o livro de Daphne du Maurier, que Hitchcock tão brilhantemente adaptou para o cinema em 1940. Feliz Natal a todos!Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
O HERÓI DISCRETO de Mário Vargas Llosa (Quetzal)
HISTORIAS DE LOUCURA NORMAL de Charles Bukowski (Alfaguara)
ESTRADA PARA LOS ANGELES de John Fante (ALFAGUARA)
AS PRIMEIRAS COISAS de Bruno Vieira Amaral (Quetzal)
A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
ESCREVO PARA AJUSTAR CONTAS COM A IMPERFEIÇÃO de Ricardo Guimarães (Modo de Ler)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DEIXA LÁ e MÁS NOVAS de Edward St Aubyn (Sextante Editora)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA) 


UMA COISA SUPOSTAMENTE DIVERTIDA QUE NUNCA MAIS VOU FAZER de David Foster Wallace (Quetzal)

Talvez somente os génios sejam verdadeiros seres humanos” Aldous Huxley

Termina-se este livro com uma sensação que nunca nos abandona ao longo da sua leitura, a de termos sido tocados pelo verdadeiro génio. O enorme talento de David Foster Wallace, a par da sua inestimável perda prematura para a literatura, pode ser abordado nesta colectanea de artigos (ensaios e reportagens para várias publicações) como um ponto de partida para aceder, por exemplo a “A Piada Infinita” já aqui sugerida. São, de facto, nove textos que ajudam, e muito, a compreender a forma como o autor escrutinava o que o rodeava. É notória a sensação de que o universo mental de David Foster Wallace, muitas vezes se expande para além do que achamos normal, na forma como observa e descreve realidades e temas tão diversos como uma viagem de recreio, a figura de David Lynch, ou como constrói um genial discurso a finalistas. Os textos aqui reunidos incluem o que dá o titulo ao livro “Uma coisa divertida que nunca mais vou fazer” artigo publicado na Harper´s em 1996, uma caustica análise das viagens organizadas a bordo de um navio de cruzeiro; “E Unibus Pluram: A Televisão e a Ficção Americana”, de 1993 publicado originalmente na The Review of Contemporary Fiction e que é um ensaio fabuloso sobre as interreferencias entre TV e escrita; “David Lynch não perde a cabeça” de 1996 na Premiére; “Pensem na Lagosta” de 2005 na “Gourmet”; “O Grande Filho Vermelho” de 1996 na Premiére; “A vista da casa da Sra. Thompson” de 2001 na “Rolling Stone”; “Como Tracy Austin me partiu o coração” de 1992 na Philadephia Enquirer; “Federer: Carne e não só” de 2006 no New York Times e “A Àgua é isto” palestra feita aos alunos finalistas do Kenyon College em 2005. Não tenho espaço nesta coluna para descrever o impacto que cada uma destas peças me produziu, mas foi intenso. Em cada uma delas pude descobrir que o verdadeiro talento produz uma consciência superior, sobre as coisas e as gentes que David Foster Wallace observa, e o privilégio de poder partilhar dessa visão singular. É absolutamente primordial ler, para se abarcar o mundo deste autor tão precocemente perdido, onde se pode tomar contacto com o quotidiano em todo o seu esplendor surreal de uma forma que só a arte nos consegue mostrar. Nada menos do que textos que muito em breve (para mim já o são) serão elevados a clássicos do ensaio. Um livro fundamental. Espero que gostem tanto como eu gostei, que foi muito. Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
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C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
O HERÓI DISCRETO de Mário Vargas Llosa (Quetzal)
HISTORIAS DE LOUCURA NORMAL de Charles Bukowski (Alfaguara)
ESTRADA PARA LOS ANGELES de John Fante (ALFAGUARA)
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A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
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LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
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FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
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RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA) 

NOITES EUROPEIAS (Uma História das Competições Europeias de Clubes 1897-2013) de Miguel Lourenço Pereira e João Nuno Coelho (Amor à Camisola)

Tanto quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol” Albert Camus

Este livro, mais um do João Nuno Coelho, desta vez em parceria com Miguel Lourenço Pereira, marca também a estreia de uma nova editora, a Amor à Camisola, que tem sede em Guimarães, cidade que, em boa hora, o João Nuno escolheu para viver, não abandonando nunca, é certo também, o Porto do seu coração. Esta é uma sugestão fácil de fazer. É um livro absolutamente indispensável em qualquer estante do verdadeiro adepto, informado e interessado pelo futebol, sua história e evolução enquanto fenómeno que se transcende para além do domínio meramente desportivo. Assim, juntos os dois autores, um historiador e um sociólogo, traçam o rumo do “beautiful game” desde as origens dos confrontos europeus de Clubes até à actualidade. O livros está dividido em seis partes: “Tardes Europeias” (1898-1955)”, “Comunidade Europeia do Futebol” (1955-1970), “Ascenção e Queda” (1970-1985), “Entre o Céu e o Inferno” (1985-1993), “Liga de Tubarões” (1993-2008) e “Regresso ao Futuro” (2008-2013). Ao longo destes capítulos, vemos a história do futebol (e com ela a história da Europa também), contada por intermédio dos episódios que foram ditando a mudança de modelos organizativos, a deslocação das sedes de poder, os principais contendores das diversas taças e torneios, fenómenos sociais como o advento do “Hooliganismo”, o efeito da “Lei Bosman” e um caminho que parece inalterado rumo a uma elitização e a um domínio dos clubes mais ricos no panorama das competições europeias a que hoje assistimos. Recheado da história dos clubes na Europa, dos grandes sucessos, das grandes desilusões, esta obra vale por si própria e encontrará com facilidade o seu caminho nas mãos dos muitos leitores que partilham estas duas paixões: a leitura e o futebol. A não perder. Um remate sem defesa num jogo que ainda está no inicio, a julgar pela brilhante equipa, o João e o Miguel, aqui em campo! Boa Semana e Boas Leituras!!!
Na Mesinha De Cabeceira:
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
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O HERÓI DISCRETO de Mário Vargas Llosa (Quetzal)
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À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
ESCREVO PARA AJUSTAR CONTAS COM A IMPERFEIÇÃO de Ricardo Guimarães (Modo de Ler)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
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LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
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RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA) 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O Teleférico de Guimarães contado por Esser Jorge

Mais um dos livros acerca dos quais falarei com mais detalhe muito em breve.


Doces de Natal!!!

Mais três livros deliciosos no sapatinho, e um quarto que ainda não foi lançado publicamente (e que devo manter em segredo) e que me está a encantar!!! Ho Ho Ho!!!



terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Escrevo para ajustar contas com a imperfeição

O segundo livro de poesia do Ricardo Guimarães, a cujo lançamento fui e onde assisti a uma brilhante apresentação por parte do Miguel Bastos. Dois companheiros de muitas outras aventuras...


Um livro especial

Um livro especial, mais uma vez oferecido por um amigo extraordinário, a quem muito devo em termos de descobertas de leitura e de partilha de gostos literários... (e muito felizmente, não só...) o Grande Fernando Lopes, que me deixou cá em casa esta 1ªEdição Limitada a 100 exemplares assinados pelo autor.
Amigo é a família que se pôde escolher!!!



Livros em Dezembro

Ainda antes (poucas horas) do Natal, e com sete sugestões de leitura que vou aqui partilhar dentro de dias, tenho mais estes para entrar em 2014 em grande....





Noites Europeias

Uma obra de referência, indispensável ao adepto verdadeiramente interessado e informado sobre o fenómeno futebol. E a acrescer, mais um livro excelente do meu Grande Amigo João Nuno Coelho!!!


terça-feira, 26 de novembro de 2013

A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)

“Lá onde a identidade individual se apaga não há punição nem recompensa” Ernst Junger

Este livro foi o vencedor do Man Booker Prize de 2010. Com respeito a prémios, fico muitas vezes a pensar na infinita e talvez relativa injustiça de se proceder a uma escolha entre muitas obras que todos os anos chegam aos leitores. Tem no entanto a vantagem, os prémios, de conceder ao respectivo titular uma exposição alargada e de dar à obra uma dimensão que de outra forma demoraria talvez muito mais, ou mesmo que nunca chegaria a obter. Quanto a saber se há ou não outros livros melhores, não tenho dúvidas que sim, até porque um prémio pressupõe uma escolha, que e sempre mais ou menos guiada por um conjunto de opiniões pessoais por parte de quem selecciona e atribui. Não estando este processo particularmente em causa, começo por dizer que este é um livro de fácil inclusão numa qualquer “shortlist”. Tem argumentos válidos para isso. A começar no factor que realmente importa, a qualidade da escrita. Howard Jacobson conta-nos com grande mestria uma história muito interessante. O tema, que mais do que a mera percepção do judaísmo por um não judeu que crê, ou quer, tornar-se num, é abordado, com recurso a três personagens nucleares muito bem construídas. Julian Treslove, o protagonista, Libor Sevcik e Sam Finkler, seus amigos, transformam uma questão de identidade, individual mas também colectiva, na grande “questão” deste livro. O ser ou não judeu, o sionismo, a percepção que os próprios (judeus) tem de si próprios enquanto indivíduos e enquanto povo é fornecida por vários ângulos e enquadramentos, com recurso muitas vezes à ironia, ao sarcasmo e a um humor vagamente britânico que nunca sai de cena. É sobretudo uma obra sobre identidade, individual, de grupo, religiosa, com todos os excessos e defeitos que a mesma pode comportar. Há quem diga que este autor é uma espécie de Philip Roth britânico. Parece-me que a temática centrada na forma de vida judaica é a única coisa que pode justificar a comparação. Gostei muito da forma com Jacobson escreve e nos conta esta história. Um autor a revisitar com toda a certeza.
Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
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UMA COISA SUPOSTAMENTE DIVERTIDA QUE NUNCA MAIS VOU FAZER de David Foster Wallace (Quetzal)
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sábado, 26 de outubro de 2013

O LIVREIRO de Mark Pryor (Clube do Autor)

“O livro é um animal vivo” Aristóteles

Prosseguindo nestas ultimas semanas num ritmo apreciável de leituras muito variadas, sugiro esta semana uma “refeição mais leve”. Este O Livreiro, é uma das escolhas que faço por vezes guiadas apenas pelo aspecto da capa e pela possibilidade de uma boa história. Venho a saber pelo próprio livro que se trata de um primeiro romance deste autor. E, há que o dizer, cumpre exemplarmente a tarefa a que se propõe. Entreter. O argumento, que é bastante cinematográfico, é bastante interessante, e comporta no seu essencial algo que sempre me fez inclinar para algumas obras. A peça central da trama é um livro. Neste caso serão até vários, mas o ambiente, sempre próximo aos bouquinistes que, em Paris nas margens do Sena, fazem esse interessantíssimo comércio livreiro, é bastante interessante, e se se pode pensar, revela também a faceta de bibliófilo do próprio autor. Não é certamente a obra que nos vai mudar a vida, mas é bem pensado, bem escrito, com o ritmo certo para nos fazer querer saber o que se passa a seguir, e tem um registo de policial que como se sabe é uma das minhas perdições na leitura. É o tipo de livro que, apesar de já por várias vezes me ter aqui debruçado sobre o quão equivoco pode ser o rótulo de “literatura de aeroporto”, que se presta a levar em viagem ou para umas horas de descontracção bem passadas. Tal como no resto da vida, se fizermos sempre refeições pesadas, tornamo-nos também pesados, por isso, e é a minha opinião apenas, se não intercalarmos os grandes festins literários com algo de mais ligeiro, corremos algum risco de enfartamento, e, sobretudo, de nos tornarmos estanques a muita coisa interessante que se vai fazendo. Repito, é um muito bom livro dentro desse registo mais linear, e de que muitas vezes tenho absoluta necessidade. É uma estreia competente e muito agradável de ler. Como em outros casos, quem conta bem uma história, fica automaticamente debaixo de alguma atenção, é o caso de Mark Pryor, a quem irei ficar atento de futuro.  Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

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ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
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O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
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O HERÓI DISCRETO de Mário Vargas Llosa (Quetzal)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

UNHA COM CARNE de Elmore Leonard (Teorema)

“Ladrão: nome vulgar para um individuo com sucesso em obter a propriedade dos outros” Ambrose Bierce

Ando em fase de novidades. Na passada semana John Fante, e esta na verdade, o meu primeiro Elmore Leonard. Provavelmente o impulso final para a leitura aconteceu com a infeliz noticia do seu falecimento no passado mês de Agosto. A sua longa e profícua carreira de escritor, com mais de quarenta romances e vários argumentos cinematográficos, a par de muitas e excelentes referências, quer da critica, quer de amigo, andavam a tornar esta leitura num adiar penoso para mim. É, para quem vem acompanhando estas pequenas indicações de leitura, bem sabido que uma das minhas principais e favoritas formas de entretenimento literário o policial, nas suas mais diversas vertentes. Desde o clássico, descubra o autor do crime, até aos thrillers de raiz mais diversa. Este “Unha Com Carne” é um desses thrillers, com uma história onde entram, ao que é apregoado na badana do livro, personagens de obras anteriores, onde avulta Jack Foley, um assaltante de bancos, que aqui se encontra a cumprir um pena de prisão de trinta anos. Como é hábito, não antecipo a história, não gosto de estragar o prazer de descobrir (ou mesmo de descobrir que se não gosta), mas tenho aqui que reconhecer, que tudo o que havia lido e ouvido sobre Elmore Leonard se confirma para melhor. É uma escrita que nos transporta para uma realidade palpável, lê-se como se poderia ver, em registo quase cinematográfico. Com um ritmo vertiginoso e sempre coerente, e, se me é possível dizê-lo, com uma das melhores formas de apresentação de diálogos que tenho encontrado. É possível, pelos diálogos das personagens, desenhar todo o cenário (físico e mental) que acompanha a obra. E, como em muitos dos autores que se foram tornando dos meus prediletos, há um registo irónico e por vezes niilista que perpassa a obra, que, a mim, me agrada imenso. Parece-me bem, que, a exemplo de alguns outros, terei que cavar mais fundo na obra deste Senhor. Gostei e recomendo. Como é o primeiro (certamente de muitos), não tenho ainda termo de comparação, mas não perde a obra pela demora, dentro em breve aqui voltarei, seguramente para, falar de mais Elmore Leonard. Boa Semana e Boas Leituras!!!

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MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
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C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O PALÁCIO DA MEIA-NOITE de Carlos Ruiz Zafón (Planeta)



“Fazer troça da Filosofia, é, na verdade, filosofar” Pascal


Há na escrita de Carlos Ruiz Zafón uma dimensão mágica, uma realidade alternativa que faz com que busquemos dentro de nós a fantasia que nos deixa entrever nos seus enredos e tramas. Este livro “O Palácio da Meia-Noite, de 1994, é o seu segundo romance e é, nas suas próprias palavras em nota de autor nesta edição da Planeta, um dos seus romances “juvenis”. Não sei se o rótulo é correto. Nem, com grande franqueza, tem isso grande interesse. O que a mim, salvo melhor opinião me faz correr atras de um livro ou de um autor não e a classificação (e na maior parte das vezes alguma critica especializada também), é sobretudo a continuidade. Mantenho, como a grande parte dos leitores, uma curiosidade grande em conhecer o máximo da obra dos escritores que por este ou aquele motivo me agradam. O percurso do leitor é normalmente o inverso daquele percorrido pelos autores, já que, na maior parte dos casos se começa pela obra que os tornou famosos e conhecidos, e, se o interesse se mantiver (e houver outras, bem entendido), se tenta regressar ao princípio da obra completa. Assim foi comigo neste caso, primeiro “A Sombra do Vento”, e depois tudo o resto a que consegui deitar mão. Este segundo romance, tal como “O Príncipe da Neblina”, desenha uma história com contornos sobrenaturais, e se no caso d´”O Príncipe” a narrativa assume mesmo o seu caracter fantástico e negro (uma espécie de conto em registo Stephen King) este de que hoje se fala é mesmo mais uma excelente história de aventuras. E das boas. Estou em crer que poderá ficar como uma belíssima referência para sedimentar o gosto pela leitura. É de facto uma história que parece destinada a um publico mais jovem (os protagonistas tem todos dezasseis anos), mas na minha experiencia, os romances, sejam eles mais ou menos evidentes na direção ou faixa etária que apontam em principio, ou são bons ou não. Este é. Passa-se nos anos 30 do Séc. XX em Calcutá e, com o defeito (eu que não gosto de ter ideias pré concebidas em relação ao que me proponho ler) de se saber uma das suas primeiras obras, conta bem a história, cria boas personagens, e tal como em obras futura Barcelona é ela própria uma personagem, também aqui a cidade se torna um ente vivo que respira e se debate perante o leitor. Não consigo ser imparcial, gosto da forma, do estilo, do ritmo, mas sobretudo da atmosfera que Zafón empresta ao que escreve. É mágico, se mais não fosse pelo facto de me ter desde há muito enfeitiçado. Aproveitem. Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
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UNHA COM CARNE de Leonard Elmore (Teorema)