sábado, 16 de maio de 2015

Dias da América


Hesito no título a dar a estas linhas. Não sei se onde tenho tenho estado corresponde ao que é a América imaginada. Miami talvez seja, como ouvi a um colombiano daqui a "capital da América do Sul". É provável que o seja. "Há por aqui sítios onde se fala inglês"...é algo que caracteriza bem. :)

De qualquer modo estou fascinado pela mistura de culturas, e pela absoluta e completa surpresa que é a recepção que tenho tido por estes lados. Há algo de mágico nesta parte do mundo. Não sei se é o clima, este calor com um "scent" de sensualidade, a profusão de natureza que invade todos os espaços, mas tenho de uma forma inexplicável sentido que uma parte de mim pertence aqui, ou algures por aqui perto.
Talvez essa parte de mim, pertença não só aqui como a um pedaço desse mundo que ainda não conheci, mas que abraço com apetite renovado... talvez.

Talvez é uma das palavras fundamentais da minha vida.

Tenho como única certeza esse talvez, esse amanhã que se tem feito presente, numa busca de algo que está ao mesmo tempo dentro e para além de mim.
Não gosto de dizer que me arrependo de nada. Muito menos de ilidir as minhas culpas. Mas a verdade é que o meu caminho podia ser mais evidente.

Talvez já seja hoje mais difícil acreditar em pessoas, talvez não.

A verdade é que nós somos a medida do nosso mundo, e se não acreditamos nos outros é fundamentalmente porque deixamos de acreditar em nós. E isso, com toda a montanha de dúvidas que tem de rodear quem se interroga sobre a mecânica da existência, cada vez menos me acontece.
Cada dúvida que existe nos outros sobre mim, é uma certeza minha a acontecer.

Porque se avança. Não de qualquer maneira, não como tem de ser no contexto dos outros, mas como tem de ser para cada um de nós.
Alguns milhares de quilômetros ( ainda estou no sistema métrico ), não me afastam de nada nem de ninguém que tenha acontecido de verdade na minha vida. Os meus amigos, os meus filhos, a minha família, continuam a ser o meu centro.
Alguém ou alguma coisa, provavelmente a Vida, essa engrenagem estranha, comandada por desígnios que nunca chegamos a estabelecer com certeza, mas nos quais de uma outra forma creditamos uns algo de crença e outros algo de Fé, tem me dado a oportunidade de encarnar múltiplos papéis ao longo do caminho.
Nunca renunciei. Posso ter jogado mal alguns dos jogos, ter perdido batalhas, ter me enganado várias vezes no caminho, ter encontrado companheiros que não serviam para aquelas estradas. Não importa. Ou importa. Tudo isso somos nós.

Há algo de respeito por nós próprios que é primordial, central, e isso é sobretudo aceitação de que o que se passa connosco, por vezes, passa independentemente daquilo que pensamos que queremos.
A única coisa à qual não temos direito é à desistência, ao lamento, ao rancor, à tristeza, ao deixar cair os braços e deixar de acreditar que a luz nos olhos dos outros só reflete a nossa, ainda que haja dias disso. Porque é inevitável, porque é simplesmente assim.

Porque não há nada que se possa fazer para ser feliz senão acreditar nisso. Não como uma droga que se procura, não como a dose de alguma coisa ou alguém sem a qual ressacámos.

Não como a procura incessante de alguém para nos validar, não como uma permanente fuga a estarmos frente a frente com a nossa essência, olhos nos olhos connosco.
Em confronto com a nossa infinita fraqueza e solidão, que é apesar de tudo onde encontramos a base da nossa força e companhia, se por acaso nisso acreditarmos. Se a isso nos entregarmos.


A alegria, a crença, em nós e nos outros. Um sorriso, um fim de tarde bonito, um parágrafo perfeito num livro qualquer. Uma mentira boa ou uma verdade sem grande valor.
A certeza de nós, a dúvida nos olhos com ares de maravilha pelo futuro, a força, a solidez, todos os que valem realmente a pena, o sonho, o esforço, o querer de verdade, o sabermos quem somos, quantos são os defeitos que nos constroem, as virtudes que nos corrompem, tudo isso nos concretiza, nos define, nos pinta em traços que só podem ser vistos à distância correta. E todos os dias tudo muda um bocadinho, com a luz, com o calor e com o caminho que nos cerca e divide uns dos outros.

Há um impressionismo, uma indefinição, um desfocar,  na vida de quem sempre tenta, de quem não se contenta, de quem acha que pode, de quem, mesmo sem certeza nenhuma, tem esse mecanismo imparável que impele para diante sem querer saber o que formula a  Física a esse respeito.
Há uma paisagem de pinceladas largas onde nos contemos, um horizonte que só aparentemente é finito mas que parece explodir de novas direções.

E é essa a liberdade dos dias da América, dos dias vividos sem reservas, sem fronteiras, sem amores imperfeitos, sem acreditar apenas porque se quer, sem fazer força para empurrar a inércia da vida, a deixar que aconteça o que deve, e não o que nos parece que é. Ou muito simplesmente ao contrário, sem garantias mas sem freios nem incertezas que parecem por vezes verdades.

É essa a simples matemática dos afetos e das proximidades. Nem tudo o que soma acrescenta, muito menos o que subtrai nos deixa menos.
Há menos que nos engrandecem para além da raiz das coisas e há mais que nos tiram tudo.
A relação entre o que são esses menos e mais, não é linear, não é mensurável numa escala. Se calhar só no fim, nessa infinita equação terminal se pode retirar o produto.
Entretanto vamos aproveitando as novas estradas, as novas paisagens, um novo mundo que se abre com brilho e espanto todos os dias.


Savannah, Geórgia, Maio de 2015