terça-feira, 24 de setembro de 2013

A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI de John Fante (AHAB)

“Só uma raiva, no entanto, é bendita: a dos que precisam” Clarice Lispector

De John Fante ainda não tinha lido nada. Para além de muito boas referências, de entre as quais as de Bukowski, que de Fante dizia ser este o “seu Deus”, estava apenas curioso. E foi na Feira do Livro Independente, que, entre muitas outras fantásticas obras que essa magnifica iniciativa proporcionou, que me deixei tentar. Fui, desta vez pelo início, este livro, de 1938, integra um conjunto denominado “O Quarteto Bandini”, que cruza a inteira obra de John Fante. Não sei o que as leituras de Fante que se lhe seguirão me reservam, sim, porque depois de ler, este não fico minimamente satisfeito, preciso de mais. A história, que por coincidência tem, em alguns aspetos, traços de alguma similitude com a de “Augie March” aqui sugerida na semana passada, é no entanto marca de um autor que tem um traço muito próprio e singular. A história da família Bandini, um casal com três filhos rapazes, é-nos contada de uma forma muito vivida. Quase sempre vertendo os próprios pensamentos e sentimentos dos personagens no decorrer da própria ação, John Fante, constrói uma realidade tangível e que vai em profundidade ao coração da América da Grande Depressão e do retrato de uma família de italo-americanos pobres nesse ambiente. O filho mais velho, Arturo Bandini, esse a quem a Primavera tarda em chegar, mais do que as outras personagens (note-se que apenas os irmãos mais novos são aparentemente menos importantes), oferece a imagem do adolescente que vive num turbilhão de dúvidas e ilusões, de euforias e grandes raivas, de fantasia e realidade, e sempre, como em toda a obra se nota aliás, com o peso omnipresente da culpa católica. O livro lê-se com muita rapidez, a escrita é fluida e o argumento não complica. Mas, como acontece por vezes, e neste aconteceu, damos conta depois do último virar de página que não só nos deixa algo de diferente, como nos dá a certeza que se este foi um primeiro romance, Fante é de facto um grande, enorme, escritor. O Inverno privado dos Bandini, aqui magistralmente (d)escrito, e a Primavera que tarda em chegar, seja para o “baseball” de Arturo ou para Svevo, o pai, mais facilmente conseguir trabalho que sustente a família, é uma viagem a uma dura e fria realidade, que teima em ficar em nós. Prosseguirei pois rumo a novos Bandini, com a esperança de o fazer ainda, muito antes que chegue a próxima Primavera. Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
A RAPOSA AZUL de Sjón (Cavalo de Ferro)



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

AS AVENTURAS DE AUGIE MARCH de Saul Bellow (Quetzal)

“O Homem é a medida de todas as coisas”” Platão

Saul Bellow era um daqueles grandes autores de sempre que me andava a escapar há tempo demais. Há um par de anos atrás, por gentileza de uma querida amiga, entrei na sua obra, facto pelo qual lhe ficarei para sempre grato. Antes de entrar no livro propriamente dito, e que livro, há que dizer que o que mais me impressiona em Saul Bellow é a espantosa capacidade de interpretação do mundo e de todos nós suas personagens. Há escritores com uma perceção dos pequenos dramas humanos que vão muito para além do normal. Diz-se sempre que a realidade ultrapassa a ficção, mas o contrário é verdade muito mais vezes. E no caso da escrita de Bellow, o poder descritivo é de tal magnitude que pessoas, paisagens e situações, tornam-se aos nossos olhos essa mesma realidade que, nestas páginas se ultrapassa a si própria. Destas “Aventuras de Augie March” já muitos falaram e escreveram, muito melhor que eu alguma vez o poderei fazer, mas posso acrescentar o meu enorme prazer em ter lido este livro magnífico. Não sei se é como diz Martin Amis “O” grande romance da literatura americana e que não vale a pena procurar mais, temo sempre as declarações definitivas, não sei se estará para o Séc. XX como o novo Huckleberry Finn, mas sei de certeza que é um prazer elevado acompanhar Augie no seu crescimento e mudanças numa América ela própria numa altura de grandes e profundas mudanças. Creio que mais do que tudo o que desta obra possamos dizer, o que realmente permanece, é a escrita elegante e profundamente sapiente sobre a condição humana que Saul Bellow aqui nos apresenta. Um livro essencial, nada menos e uma grande, enorme aventura literária. Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
LOBO VERMELHO de Liza Marklund (Porto Editora)
O JOGO DO LEÃO de Nelson DeMIlle (Marcador)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
 A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR, BANDINI de John Fante (Ahab)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
A RAPOSA AZUL de Sjón (Cavalo de Ferro)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Feira do Livro Independente

Hoje conforme prometido a mim próprio fui à vila das Caldas das Taipas ao muito particular espaço dos "Banhos Velhos" para ter uma magnifica surpresa. Muitas editoras e obras que passam com alguma dificuldade no circuito comercial normal, a par de muitas que só mesmo em certames deste género se conseguem ver e adquirir. Com o privilégio de ter o sempre excelente e entusiasta Duarte da Silva Pereira a oferecer uma visita guiada a um sem número de livros maravilhosos. Se puderem, não hesitem e vão. Para além de tudo há preços mais do que convidativos. O amigo que me acompanhou trouxe dois sacos cheios de pequenas jóias. Já eu, apesar de mais parco na escolha também não vim de mãos a abanar. Excelente a todos os níveis, a escolha do espaço, a presença de editoras e obras e o ambiente que tudo isto gera. Uma iniciativa a pedir continuação sem grandes demoras. Parabéns a todos os organizadores e colaboradores desta pequena no tamanho mas enorme no efeito Feira do Livro Independente!!!
Uma verdadeira arca do tesouro de delicias literárias a visitar até este Domingo pelas 18.00 horas.




terça-feira, 10 de setembro de 2013

A LIVRARIA NOITE E DIA DO SENHOR PENUMBRA de Robin Sloan (Bertrand)

“A máquina tecnologicamente mais eficiente que um homem jamais inventou é o livro” Northorp Frye

Uma obra bastante interessante e divertida que resultou de uma busca aleatória aos escaparates da FNAC. Um livro muito simpático e interessante que reúne uma série de elementos que me são bastante agradáveis. Em primeiro lugar, é um livro que presta uma homenagem aos livros em si, é uma espécie de declaração de amor bibliófila do autor. Uma história bem montada e com inúmeros ingredientes engraçados. Mistura com grande habilidade a conjuntura recessiva atual, em que o protagonista perde o emprego como designer web, para conseguir um part-time a horas mortas na livraria que dá titulo à obra "A Livraria Noite e Dia". Aí, vai encontrar um enigma para resolver que fará entrecruzar na trama duas abordagens, uma antiga e, digamos analógica e outra atual e digital para o resolver. As personagens modernas fazem parte do nosso quotidiano, onde avulta uma programadora do Google (motor de busca que se torna ele próprio uma das ferramentas/personagens do livro) e uma série de situações entre a estória conspirativa e um retrato bem conseguido da atual geração digital. Ainda em modo de final de período estival, é uma sugestão segura para algumas horas de leitura agradável bem disposta. 

Deixo entretanto também aqui uma sugestão mais prática para todos os que gostam de ler e que possam deslocar-se a Guimarães à FEIRA DO LIVRO INDEPENDENTE que irá ter lugar nos Banhos Velhos da Vila das Caldas das Taipas, de sexta-feira dia 13, pelas 15 horas até Domingo dia 15 pelas 18 horas e que tem como objectivo nas palavras dos organizadores: 

“dar espaço às editoras, pequenas e não só, que continuam a manter a sua independência. Nesta feira estarão presentes as editoras que continuam a ver o livro como elemento desestabilizador e desassossegador, transmissor de cultura e rastilho para a revolução individual (e colectiva). Porque nunca se sai de um bom livro da mesma forma como se entrou. 

Além de novidades das várias editoras que decidirem estar presentes, a feira terá também uma área dedicada ao livro descatalogado e de alfarrábio.

A Feira do Livro Independente é uma iniciativa conjunta dos Banhos Velhos, Livraria Snob e Livraria Pinto dos Santos. A entrada é livre.”

Boas Leituras e até lá!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortazar (Cavalo de Ferro)
AS AVENTURAS DE AUGIE MARCH de Saul Bellow (Quetzal)
PEYROTEO de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (Ed. Afrontamento)

INFERNO de Dan Brown (Bertrand)

“Acredito que estou no Inferno, portanto estou nele” Arthur Rimbaud


Mais um regresso após a habitual pausa de Agosto. Como ainda nos mantemos neste Verão sufocante de calor e incêndios a desmentir com todas as letras as previsões boateiras que davam este estio como perdido, vamos a uma sugestão tipicamente estival. De Dan Brown penso que não será necessário adiantar muito, toda a gente que lê, conhece ou já ouviu falar no autor de “O Código Da Vinci”. No seio de uma imensa oferta de livros que visam um entretenimento mais ou menos inteligente, este autor destaca-se pela descoberta de uma fórmula de sucesso que tem vindo a reproduzir livro após livro. A personagem, Robert Langdon, que já se tornou uma marca comercial e cinematográfica volta a protagonizar mais esta aventura. Se Brown trouxe com assinalável sucesso para a ribalta os temas do hermetismo, esoterismo, dos cultos e seitas mais ou menos discretos com obras anteriores, já este livro é uma espécie de corrida para salvar o mundo de uma ameaça pandémica. A receita, apesar de reproduzir a fórmula de que acima falamos é sempre agradável em termos de leitura. É mais uma espécie de “caça ao tesouro” onde os personagens são guiados por pistas que remetem para locais e factos históricos existentes. Tenho dito que estes livros, que induzem mesmo a um certo tipo de turismo, fazem um bom papel como guias. Este, leva-nos a conhecer, para além da obra e do autor que presidem à trama, a Divina Comédia de Dante Alighieri, (da qual aqui falei à escassas semanas por coincidência), as cidades de Florença, Veneza e Istambul. Dan Brown imprime um ritmo acelerado ao que dele lemos, introduz na trama um sem número de truques e artifícios que levam o leitor a nunca deixar de querer saber mais sobre o que está, e sobretudo o que vai acontecer em seguida. Em suma, é um livro que não nos muda a vida mas que nos entretém muito bem. E, pode sempre acontecer, que numa das descrições de obras, monumentos ou locais do livro se venha a encontrar assunto que nos leve a aprofundar conhecimento. Julgo que há classificações para o género, não é no entanto assunto que me motive. É um livro escrito para o mercado global e, globalmente agrada. Cumpre a sua maior função que é oferecer algumas horas de divertimento. Nos livros como no resto, aplica-se bem o célebre “toujours perdrix”. Bom regresso ao trabalho ou boas férias mas sobretudo, muito Boas Leituras!

Boas Leituras e Boas Férias se for o caso!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortazar (Cavalo de Ferro)
AS AVENTURAS DE AUGIE MARCH de Saul Bellow (Quetzal)
PEYROTEO de João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro (Ed. Afrontamento)
OS VELHOS DIABOS  de Kingley Amis (Quetzal)
OS ANÉIS DE SATURNO de W.G. Sebald (Quetzal)
DANÚBIO de Claudio Magris (Quetzal)