quarta-feira, 23 de julho de 2014

A IMPROVÁVEL VIAGEM DE HAROLD FRY de Rachel Joyce (Porto Editora)

"Não há homem completo que não tenha viajado muito, que não tenha mudado vinte vezes de vida e de maneira de pensar." Alphonse de Lamartine


Tenho voltado a ler. Talvez não tanto como desejo, mas tenho regressado lentamente a esse pequeno mundo, que sendo partilhado, é também único e especial para cada um de nós. Como é hábito, de entre os autores que venho desde sempre acompanhando e de livros que compro por impulso, aparecem por vezes obras que por uma ou outra razão se nos impõe. Este foi um deles. Talvez porque todos nós na vida também sejamos também peregrinos, da estrada ou da mente, este livro teve um bom efeito em mim. Não sei se é um livro que vá mudar a vida a alguém, a verdade é que esse é um chavão muitas vezes repetido e raras vezes conseguido, mas sei que é uma história que nos faz parar a pensar muitas vezes. E em muitos aspetos da vida. A singular jornada de Harold Fry é simultaneamente um caminho de esperança e uma viagem à falta de sentido da vida. A esperança, o sofrimento, a dor, a perda, a alegria, o absurdo, a estranheza de alguma modernidade e a ética particular de Harold, dão-nos um retrato vivido de um homem que a si próprio se enfrenta, bem como a todas as feras que o habitam, num caminho que não escolheu, mas que decidiu tomar. É uma leitura simultaneamente fácil e dura. É um livro muito bem escrito e bem construído. Leva-nos pela mão a todos os sítios por onde passa a caminhada interior de Harold. E empresta-nos um sentido último à vida. À sua magnífica aleatoriedade, à sua infinita crueldade e à sua incomparável beleza. É um livro sobretudo sobre a reconstrução da alma, sobre os nossos próprios limites e sobre as fronteiras da dor. Fala-nos das distâncias entre o que se ama, do que se perde pelo caminho, e como na vida acontece, na imensa e espantosa capacidade que temos de nos regenerarmos. É uma história triste na sua essência, mas é um farol de esperança que nos convence no final que a vida nos concede sempre uma segunda oportunidade. A improvável viagem de Harold Fry é também a nossa inelutável viagem. Talvez a nossa seja apenas diferente no trajeto e nas personagens com quem nos vamos cruzando. Há algo a aprender neste livro, que é também uma excelente leitura para este período, em que espero, alguns de vós estarão já em período de descanso.

"O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens; é tê-las feito." - , Agostinho da Silva

Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

OS FACTOS de Philip Roth (D.Quixote)
A SOMBRA DA ROTA DA SEDA de Colin Thubron (Bertrand)
O FRANCO ATIRADOR PACIENTE de Arturo Perez Reverte (ASA)
AS LUZES DE SETEMBRO de Carlos Ruiz Zafón (Planeta)
MAS É BONITO de Geoff Dyer (Quetzal)
VERDADE AO AMANHECER de Ernest Hemingway
ILHAS NA CORRENTE de Hemingway (Ed. Livros do Brasil)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier (Quetzal)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DANUBIO de Claudio Magris (Quetzal)
OS ANEIS DE SATURNO de W.G.Sebald (Quetzal)
TELEFÉRICO DA PENHA (IMAGINÁRIO E REALIDADE) de Esser Jorge Silva (Edições Húmus)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA)
AMSTERDÃO de Ian McEwan (Gradiva)
ALFABETOS de Claudio Magris (Quetzal)


sexta-feira, 11 de julho de 2014

GOODBYE COLUMBUS de Philip Roth (D. Quixote)

“Todos os meus dias são um adeus.“ François Chateubriand

Ando já há um bom par de anos a ler tudo a que posso deitar a mão de Philip Roth. Desde o absolutamente incontornável “Complexo de Portnoy” do qual já por aqui se falou, passando por alguns outros, de forma aleatória, até chegar ao primeiro que escreveu, este “Goodbye Columbus”. Como em muitas coisas na vida há um ritmo que é primordial. O andamento das histórias muitas vezes determina o seu fim, a forma de contá-las também é muitas vezes melhor ou pior conforme acompanha esse ritmo vital. Philip Roth, tem essa característica mágica, que é tudo menos universal. A questão do ritmo na escrita é para mim fundamental. E isso tem muito que ver com a quantidade de detalhe que se introduz na trama. Nos casos, mais escassos de grandes contadores de histórias, é frequente ver os cenários pintados a traços largos, gerais e adicionar pormenor pela caracterização das personagens ou ainda pelos diálogos. Roth é um mestre na forma como nos leva pela mão a entrar nas vidas que nos conta. Cola-se muito a Roth o epiteto de escritor que versa de forma singular sobre a essência do ser judeu. Um pouco como Woody Allen no cinema, se aceitarmos a comparação. Não acho. Penso que quem escreve neste nível ultrapassa completamente a redução do rótulo. Roth escreve sobre as pessoas e sobre a vida, se calha serem judeus, paciência. Há quem escreva sobre tudo e não diga quase nada. E há outros como Roth, que nos mostram como funcionamos naqueles pequenos espaços mentais que pensamos muitas vezes que são só nossos. Os melhores são assim, conseguem com uma situação ou um personagem passar além do esperado. E Philip Roth, consegue-o com uma simplicidade que só os mestres alcançam. Estou cada vez mais apostado em continuar a descobrir a sua obra. Creio que é uma sugestão segura para os tempos que se seguirão, que para muitos serão de férias e descanso, o que sempre convida mais a ler.

 Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:

OS FACTOS de Philip Roth (D.Quixote)
A SOMBRA DA ROTA DA SEDA de Colin Thubron (Bertrand)
O FRANCO ATIRADOR PACIENTE de Arturo Perez Reverte (ASA)
A IMPROVAVEL VIAGEM DE HAROLD FRY de Rachel Joyce (Porto Editora)
AS LUZES DE SETEMBRO de Carlos Ruiz Zafón (Planeta)
MAS É BONITO de Geoff Dyer (Quetzal)
VERDADE AO AMANHECER de Ernest Hemingway
ILHAS NA CORRENTE de Hemingway (Ed. Livros do Brasil)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier (Quetzal)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DANUBIO de Claudio Magris (Quetzal)
OS ANEIS DE SATURNO de W.G.Sebald (Quetzal)
TELEFÉRICO DA PENHA (IMAGINÁRIO E REALIDADE) de Esser Jorge Silva (Edições Húmus)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA)
AMSTERDÃO de Ian McEwan (Gradiva)
ALFABETOS de Claudio Magris (Quetzal)


Julho de leituras...