segunda-feira, 29 de março de 2010

AFTER DARK – OS PASSAGEIROS DA NOITE de Haruki Murakami (Casa das Letras)

“De noite os defeitos se ocultam” Ovidio




Perguntar-se-ão os meus acidentais leitores, que me faz voltar passadas escassas semanas a Haruki MUrakami. A resposta é fácil e objectiva. Oferta de Dia do Pai e, fundamentalmente o ter ficado muito motivado para seguir a obra deste autor, que aliás também se mantém em fila de espera na “mesinha de cabeceira” com um terceiro romance. Este entrou em competição directa na leitura com o livro da semana que vem e ganhou. É um livro impressionante. Sempre sem revelar muito para manter o interesse, posso dizer que toda a acção se passa numa única noite de Tóquio. Murakami consegue, com a sua forma de (d)escrever cativar-nos para um mundo diferente, uma realidade paralela, por vezes surreal, mas que simultaneamente faz sentido. Encontramos sentido em realidades nocturnas com as quais nos pomos em confronto, e com as quais encontramos pontos de referência credíveis para o que, na visão distanciada de ocidentais que somos, pode ser o “after dark” de uma megalópole como Tóquio. Para fazer algo que não é habito nestas crónicas, deixo a primeira e ultima frases do romance: “Diante de nós desenrolam-se os contornos da cidade” e “Haverá tempo até à chegada da próxima escuridão”, pelo meio, como figuras centrais, duas irmãs, duas atmosferas distintas, uma real, concreta, e outra bastante mais onírica. Em volta de Mari e Eri gravitam personagens de um drama que se tece “fora de horas”, e não faltam “os passageiros da noite”, que é um excelente subtítulo para a obra. Estou cada vez mais cliente deste escritor, mais, atrevo-me a sugerir que, e não faço de ânimo leve, quem quiser uma boa amostra da melhor literatura contemporânea, não tem mais que fazer do que procurar dentro da obra deste autor. Boas Leituras!

PARA A SEMANA: OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES (Millennium I) de Stieg Larsson (Oceanos)
NA MESINHA DE CABECEIRA:
Entra: A ARTE DA ALEGRIA de Goliarda Sapienza (D. Quixote)
Continuam:
A RAPARIGA QUE SONHAVA COM UMA LATA DE GASOLINA E UM FÓSFORO (Millennium II) de Stieg Larsson (Oceanos)
A RAINHA NO PALÁCIO DAS CORRENTES DE AR (Millennium III) de Stieg Larsson (Oceanos)
INÉDITOS de Antoine de Saint Exupéry (Casa das Letras)
BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA de Pablo de Jevenois (Esquilo)
O MONTE DOS VENDAVAIS de Emily Bronte
CRÓNICA DO PÁSSARO DE CORDA de Haruki Murakami (Casa das Letras)
OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA de Richard Zimmler

quinta-feira, 25 de março de 2010

A ESTIRPE de Chuck Hogan e Guillermo del Toro (SUMA)

Desde que alberguemos uma única vez o Mal, este não volta a dar-se ao trabalho de pedir que lhe concedamos a nossa confiança” Franz Kafka

Este é de facto um livro de puro entretenimento. Mais, sendo escrito numa parceria de Chuck Hogan com o realizador Guillermo del Toro de cuja filmografia podemos destacar “O Labirinto do Fauno”. Filme que recebeu uma nomeação para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, entre outras realizações do género terror/fantástico. Este livro é uma leitura que encaixa na moda do universo dos vampiros, que por estes dias invade as prateleiras das livrarias, as telas do cinema e televisão. E por falar em moda, é também o primeiro de uma trilogia (há também uma certa moda de trilogiar nestes tempos ultimos). Assim, após este primeiro capitulo “The Strain” no original, seguir-se-à, previsivelmente em Outubro, “The Fall”, o segundo andamento da obra. O livro em concreto, é um livro-argumento, claramente uma estória destinada a acabar no grande ecran, e contada, com as pausas e arranques cinematograficamente exigiveis. Tem no entanto vários pontos a favor, o primeiro é o começo do livro, que introduz com muita destreza um sentimento de desconforto e angústia no leitor, ao descrever a aterragem de um avião em Nova Iorque com todos os passageiros mortos a bordo. Bem, mortos é como quem diz... O segundo ponto a favor, na minha opinião, é que se cria um novo universo no que diz respeito a tudo o que julgamos saber sobre os vampiros. A estória mistura habilidosamente o imaginário literário existente com uma nova abordagem mais de tecno-terror, com a difusão de um virus (a famigerada “estirpe”) que transforma os humanos em vampiros. A metamorfose operada por intermédio do virus cria um novo conceito de agente do Mal, e uma nova forma de o combater. Para quem aprecia um par de horas bem passadas a ler, é um livro aliciante, com um ritmo constante e de leitura compulsiva. Não é nenhuma obra prima, mas também não se dá o dinheiro por mal empregue. É um livro para entreter, e entretém, que é que se lhe pede. O que, no meio de tanta oferta do género, já é um grande cumprimento.Boas Leituras!

PARA A SEMANA: AFTER DARK – OS PASSAGEIROS DA NOITE de Haruki Murakami (Casa das Letras)NA
MESINHA DE CABECEIRA:
Entram:
OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES Millennium I de Stieg Larsson (Oceanos)
A RAPARIGA QUE SONHAVA COM UMA LATA DE GASOLINA E UM FÓSFORO Millennium II de Stieg Larsson (Oceanos)
A RAINHA NO PALÁCIO DAS CORRENTES DE AR Millennium III de Stieg Larsson (Oceanos)
Continuam:
INÉDITOS de Antoine de Saint Exupéry (Casa das Letras)
BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA de Pablo de Jevenois (Esquilo)
O MONTE DOS VENDAVAIS de Emily Bronte
CRÓNICA DO PÁSSARO DE CORDA de Haruki Murakami (Casa das Letras)
OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA de Richard Zimmler

quinta-feira, 18 de março de 2010

O GNOMO (The Hobbit) de J.R.R. TOLKIEN (Livraria Civilização - Ed. 1962)

“Só a fantasia permanece jovem; o que nunca aconteceu nunca envelhece” Friedrich Schiller


ilustração de António Quadros

Antes de contar a estória no livro, deixem-me contar a estória deste livro. Esta edição do Gnomo de Tolkien (ou “The Hobbit”, no original), foi oferecida à minha irmã como sendo um livro infantil, seria eu na altura um adolescente. Li-o, confesso, pelo bom aspecto da capa. E foi uma espantosa surpresa. Foi um dos primeiros livros na minha vida que realmente teve algum impacto em mim. Estava na altura, muito longe de saber que estava a ler, pela primeira vez, aquele que se iria tornar passados alguns anos num dos meus autores de eleição. Falar de Tolkien e da sua obra é tarefa que não cabe aqui, e duvido mesmo que haja quem a abarque na sua totalidade, tal é a riqueza e diversidade dos seus universos. Mas, para quem, acompanhou a trilogia d´”O Senhor dos Aneis”, recomendo vivamente “O Gnomo”, é cronológicamente anterior na vida da Terra Média. Acompanhamos Bilbo Baggins (tio de Frodo) numa aventura empolgante, a génese da famosa epopeia tripartida que se lhe segue. Assim, encontramos pela primeira vez Gollum e o Anel (o anel que Sauron persegue até ao fim). Enfim, foi neste livro que primeiro tive contacto com a imaginação prodigiosa de Tolkien e o seu fantástico mundo, povoado, por feiticeiros (Gandalf, o Cinzento também faz aqui a sua primeira aparição), duendes, elfos, e toda uma legião de criaturas monstruosas que se reproduziram em tantos outros romances de outros autores, e numa certa mitologia urbana (p.ex. na banda desenhada, que tanto foi buscar a Tolkien). Aqui o adversário é um dragão, Smaug, e há também a Batalha dos Cinco Exercitos, a fazer adivinhar confrontos posteriores. Aceito que os não-iniciados ou mesmo os que, por escolha, não apreciam a literatura fantástica, não se revejam na sugestão desta semana. Mas há um motivo que acresce para a fazer, esta edição em particular, de 1962, da Livraria Civilização, em formato grande, com capa dura e ilustrações absolutamente memoráveis de António Quadros, tornam, para além da escrita de Tolkien, este livro num livro num objecto intrinsecamente belo. Para que conste, o Gnomo foi escrito em 1937, e em 2012, será levado ao cinema com realização de Guillermo del Toro. Aproveito a deixa para sugerir na próxima semana um romance deste realizador. Boas Leituras!

PARA A SEMANA: A ESTIRPE de Chuck Hogan e Guillermo del Toro (SUMA)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)

INÉDITOS de Antoine de Saint Exupéry (Casa das Letras)

BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA de Pablo de Jevenois (Esquilo)

O MONTE DOS VENDAVAIS de Emily Bronte

CRÓNICA DO PÁSSARO DE CORDA de Haruki Murakami (Casa das Letras)

OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA de Richard Zimmler

www.estanteacidental.blogspot.com


sexta-feira, 12 de março de 2010

A ESTRADA de Cormac McCarthy (Relógio D’Àgua)

“Pode misturar-se a Esperança e o Desespero até já não se distinguirem um do outro” André Chamson



Um livro absoluto. Poderoso. A estória, é a de um pai e um filho sós, num cenário surreal de um mundo pós apocaliptico. É uma viagem sem destino, produzida com força e violência por um autor cada vez mais conhecido e cuja obra é extraordináriamnte invulgar. Há quem veja em Cormac McCarthy um continuador de Faulkner, no entanto, e tentando manter o registo destas crónicas num patamar descontraído...não me parece. Cormac McCarthy tem um percurso singular na literatura, as obras publicadas em Portugal são: “Meridiano de Sangue”, “Este País não é para Velhos”, “O Filho de Deus”, “O Guarda do Pomar” e, possivelmente o mais autobiográfico “Suttree”. McCarthy escolhe recorrentemente temas que possibilitam a exploração da culpa/crime e responsabilidade/castigo, as suas personagens são muitas vezes exemplos de ambiguidade moral, e a banalização da violência também é um factor recorrente. Continuando n’ “A Estrada”, vemos um Mundo de completa devastação, onde deambulam sobreviventes de uma catástrofe nunca explicada e com um único fim, sobreviver. É um exemplo acabado de uma escrita depurada, sem artificios, que narra um universo frio, violento, extremo e simultanea e surpreendentemente comovente. É uma jornada ao pior e ao melhor de nós, com uma visão distinta e muito concreta por parte do autor ao que podemos encontrar quando já não se procura nada. Um livro impressionante, atípico, de um autor que vem reinventando desda há décadas a forma de escrever na América. Espero sinceramente que gostem tanto como eu. Boas Leituras!

PARA A SEMANA: O GNOMO de J.R.R. TOLKIEN (Livraria Civilização - Ed. 1962)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)

INÉDITOS de Antoine de Saint Exupéry (Casa das Letras)

BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA de Pablo de Jevenois (Esquilo)

O MONTE DOS VENDAVAIS de Emily Bronte

CRÓNICA DO PÁSSARO DE CORDA de Haruki Murakami (Casa das Letras)

OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA de Richard Zimmler

sexta-feira, 5 de março de 2010

A SUL DA FRONTEIRA, A OESTE DO SOL de Haruki Murakami (Casa das Letras)

“A verdadeira serenidade não é ausência de paixão, mas a paixão contida, ímpeto domado” Georges Duhamel


O primeiro livro que li deste autor japonês, e, se bem me lembro, talvez o primeiro livro de um autor japonês de sempre para mim. É um facto, a literatura oriental não tem tido um papel muito relevante nas minhas estantes. De facto o manancial de títulos de origem anglo-saxónica e sul-americana, tem feito quase o pleno das minhas ultimas leituras. No entanto, este romance surge como uma esplêndida surpresa. Sabia “por ouvir dizer” que Murakami é um excelente escritor, e de facto, comprova-se para além de qualquer dúvida. Este “South of the Border, West of the Sun”, titulo “pedido emprestado” à música de Brooks Bowman, que se tornou um standard de Jazz para muitos dos mais famosos intérpretes do género. Destaco por gosto pessoal a primeira interpretação pela minha diva particular (em opinião claro) Sarah Vaughan. Mas, voltando ao livro desta semana, devo dizer que é um livro que nos surpreende. Começa por nos dar a impressão de estarmos perante um romance banal, construído em cima de uma estória banal, mas engana-nos. É um livro de uma carga sensual fortíssima, que explora os limites da paixão. Da paixão real e da paixão imaginária ou desejada. Tem decerto algo de autobiográfico, porque a personagem principal Hajime, tal como o próprio Murakami o foi, de facto, torna-se a determinado ponto dono de um bar de jazz. Não gosto muito de citar passagens dos livros que leio, mas, se atentarem na página 120 desta edição, verão posto por escrito, aquilo que muitos de nós sentem em relação aos livros e à leitura. Aos bons e aos maus livros, e no que a idade nos muda em relação a isso. Espero com sinceridade que esta primeira leitura de uma obra de Haruki Murakami, seja um indicador da qualidade do resto desta, porque, fiquei sinceramente adepto desta escrita serena, equilibrada, estética e com algo para nos contar.

Boas Leituras!

PARA A SEMANA: A ESTRADA de Cormac McCarthy (Relógio d´Agua)