sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O TRIUNFO DOS PORCOS de George Orwell (Europa-América)

O fascismo não é impedir-nos de dizer, é obrigar-nos a dizerROLAND BARTHES


Um regresso a um livro obrigatório, de um dos autores mais marcantes do Século XX, George Orwell. “O Triunfo dos Porcos” ou “Animal Farm” no original, é um clássico. Uma alegoria protagonizada por animais daquilo que pode, e sucede, muitas vezes na sociedade humana. Sobre esta e outras obras de Orwell, muitos, sobejamente mais preparados do que eu, tem feito interpretações de todo o género. A mim basta-me uma. Podemos sempre substituir as personagens do livro por quem quisermos que o resultado, se o quisermos, conduz sempre ao mesmo: o poder corrompe. Não me vou alongar em tiradas mais ou menos profundas sobre as segundas leituras que esta obra pode proporcionar, a vantagem da leitura ser um acto indivudual é mesmo essa, cada um de nós tem a liberdade, perante uma obra, de a tornar um bocadinho “nossa” consoante a visão que tem do mundo. Dizem que a história tem como pano de fundo o falhanço dos principios que estariam por detras da Revolução Russa de 1917, e a ascenção ao poder do estalinismo. Tanto faz. A revolta dos animais e a progressiva forma como voltam (se é que alguma vez deixam de estar) sujeitos ao jugo de um poder injusto, retrata na perfeição a crença na liberdade que tantas batalhas tem animado, e a realidade sempre bastante mais cinzenta que normalmente se lhe segue. Há personagens incontornaveis, há slogans que perduram no tempo, como o sétimo mandamento dos animais, que principia por ser “todos os animais são iguais” e que se modifica para “todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros” e que retrata a perda da pureza dos ideais, e o consagrar dos privilégios de poucos, face às maiorias. O final do livro, em que se fecha o circulo desta poderosa mensagem, revela-nos que, mais do que aos individuos em si, é ao exercicio do poder que temos de estar atentos, sob pena de este os transformar numa única e mesma entidade. Não cedo à tentação de descrever o livro. Mas recomendo-o como um exercicio de génio e uma análise que encaixa como uma luva em muitas das realidades que nos cercam. É absolutamente indispensável ler. E, é com justiça, considerado um dos livros em lingua inglesa mais influentes de sempre.

Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

O Feitiço de Xangai de Juan Marsé (D. Quixote)



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

COM OS HOLANDESES de J.Rentes de Carvalho (Quetzal)

Nós não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos ANAIS NIN

O que é o verdadeiro carácter de um povo? Onde reside o traço comum dos membros de uma mesma nacionalidade? Ainda mais do que isso, o que é a alma de uma gente vista pelos olhos de quem dela não se sente parte na totalidade? Se quisermos falar de nós, portugueses, já Julio César dizia, que havia nos confins da Iberia um povo “que nem se governa nem se deixa governar”, o que pode muito bem ser o fado da lusitanidade. J.Rentes de Carvalho, de quem me tornei um seguidor atento e diário, acompanhando o seu blogue tempocontado.blogspot.com, que aliás recomendo vivamente, publicou este livro em 1972, a retratar os Holandeses na sua condição de cidadão de acolhimento. É uma obra singular, em que o “hóspede” define os “senhorios” em todas as dimensões do seu ser. É de uma frontalidade e franqueza a toda a prova, mas o que se sente acima disso, até porque o excesso de franqueza pode raiar a má educação, o que nunca acontece, é que é uma opinião genuína, integra, e, na perspectiva do autor, certamente justa. Somos levados numa viagem pela personalidade do Holandês enquanto género, seus vícios, fraquezas e virtudes. Pela sua relação com os outros holandeses, pelo que sente pelos estrangeiros, como vê a religião, o associativismo, a militância, a gastronomia (ou a falta dela), o seu apego ao trabalho e a sua visão sobre o dinheiro e o sexo. Os hábitos, as deformações culturais, tudo aquilo que está ao alcance do impressionante escrutinio de J. Rentes de Carvalho aqui se revela, numa obra que não por acaso se tornou um “best seller” entre os visados. É um prazer ler J.Rentes de Carvalho, e é um elogio que não me saí fácil, pois cada vez encontro menos vozes que me apeteçam ouvir, ou até, no limite, gente que tenha de facto coisas para nos dizer. Li o livro de um fôlego, até ao ultimo capitulo em que o autor actualiza e revê, com uma década de diferença as opiniões expressas. E se quisermos descobrir o essencial, ao olhar os outros pelos olhos de um nosso compatriota, tão clarividente, descobrimo-nos também a nós nas nossas riquezas e misérias enquanto povo. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

O Feitiço de Xangai de Juan Marsé (D. Quixote)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Fisgado" em Lisboa....


Por coincidência, hoje, na "Capital do Império" entrei na Buchholz e encontrei-o, já que, a fazer fé no Fernando Lopes, pela Invicta encontra-se esgotado. E se está é porque merece...Este também era filho único...

A TAPEÇARIA DO SINAI de Edward Whittemore (Ulisseia)

Originalidade não consiste em dizer o que ninguém disse antes, mas em dizer exactamente o que você pensa por si próprio JAMES STEPHENS

Pode-se ler na capa deste livro que o seu autor é: o grande autor americano desconhecido do Séc. XX, mais coisa menos coisa. Habituado que estou às citações de terceiros, e a um cada vez mais rotineiro uso e abuso de estratégias de marketing e autopromoção por parte de editores, livreiros e autores, fiquei, como se costuma dizer, “de pé atrás”. Sendo assim, nada mais me restava que não fosse ler com os meus próprios olhos e, deixar aqui as minhas conclusões. E que boa surpresa se tornou este livro. Lido sem qualquer espectativa de maior, posso agora dizer que é uma obra prodígiosa. E prodígios não faltam neste livros. Para começar, ainda estou com a cabeça à roda na tentativa de o classificar. Não é fácil. É um registo literário muito próprio, andará certamente não muito longe do realismo mágico, mas num mundo e em cenários muito diferentes daqueles a que a escrita sul-americana, expoente máximo deste género, nos habituou. É uma obra de grande fôlego, de uma imaginação sem limites e muito bem construída. Tem personagens absolutamente diferentes de tudo quanto já vimos, e movem-se num mundo que só por coincidência pode ser o nosso. O livro, de que este “Tapeçaria do Sinai” é apenas o primeiro de quatro tomos de “O Quarteto de Jerusalem”, apresenta-nos uma visão muito particular do Médio Oriente, traçada por um fresco de imagens e personagens inauditas. Um aristocrata ingês, surdo, com dois metros de altura, bôtanico e espadachim, explora o Médio Oriente, escreve um ostracizado tratado sobre sexo, e chega a comprar o Império Otomano. Um nobre Albanês, torna-se monge e descobre uma cópia da Biblia que vai posteriormente falsificar e um Irlandês, filho de um profeta, que foge da Irlanda ocupada pelos Ingleses, disfarçado de freira e que se torna traficante de armas. São, para resumir, muito, estes os ingredientes desta obra que com um humor assinalável, acumula facto e feitos improváveis uns atras dos outros, a um ritmo que não podemos senão acompanhar com prazer e surpresa, esta história plena de magia e originalidade. Esqueçam o que os outros dizem sobre este livro, esqueçam inclusivamente o que aqui vos digo, mas por favor leiam. Vale verdadeiramente a pena!íBoas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

O Feitiço de Xangai de Juan Marsé (D. Quixote)

domingo, 9 de janeiro de 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O HOMEM QUE MATOU GETÚLIO VARGAS de Jô Soares (EDITORIAL PRESENÇA)

São as circunstâncias que governam os homens, não os homens que governam as circunstâncias HERÓDOTO

Não sei bem o que nos leva, cada um de nós a ler. E dentro do que lemos, também não sei quais os factores que determinam o que lemos a cada momento. Há no entanto uma coisa que sei, quando um livro de um determinado autor me desperta interesse ou me agrada, tento procurar mais, e, quando posso, ler um ou dois livros desse autor de seguida. Não sei se o faço para confirmar impressões, ou simplesmente, porque quando se gosta de determinada coisa quer-se sempre um bocadinho mais. Tem sido assim comigo, e, se repararem, ultimamente foi-o com a obra de J. Rentes de Carvalho, que estou a acompanhar com especial prazer, assim como é com Jô Soares, do qual, não sendo uma descoberta, mas um feliz reencontro, venho sugerir mais este livro delicioso. “O Homem que matou Getulio Vargas” é um romance bem ao estilo de Jô Soares, com um personagem central muito bem conseguido, uma galeria de actores secundários excelente e uma história fantástica. Se existe a categoria de “anti-herói” na literatura, Dimitri Borja Korosec é o “anti-vilão”, é uma espécie de “Cândido” de Voltaire, (personagem famosa pelo azar que o acompanha) voltado para as artes do assassinato politico. Vamos acompanhar a história deste filho de um anarquista sérvio e de uma artista de circo brasileira (uma mistura já de si explosiva) num périplo de atentados contra todos os tiranos do Mundo. Passado nos primeiros anos do Séc. XX, cruzando-se com as mais influentes figuras dos circulos artísticos, cientificos, politicos e mesmo “gangsters” (perdoem-me a repetição, sómente para efeitos de estilo), o nosso militante anarquista vai vendo as teias que tece para cada projecto sucessivamente abortadas, numa voragem de insucesso inversamente proporcional ao gosto com que se lê este livro. O humor (o bom) acompanha-nos da primeira à ultima página, com situações muito bem urdidas e com um cenário de época muito bem delineado e descrito. Mais uma vez se dá por muito bem empregue o tempo de leitura neste livro de um cada vez mais, para mim, escritor, que tão sómente figura de televisão. “Viva o Gordo”! Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

A Tapeçaria do Sinai de Edward Whittemore (Ulisseia)