quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

COM OS HOLANDESES de J.Rentes de Carvalho (Quetzal)

Nós não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos ANAIS NIN

O que é o verdadeiro carácter de um povo? Onde reside o traço comum dos membros de uma mesma nacionalidade? Ainda mais do que isso, o que é a alma de uma gente vista pelos olhos de quem dela não se sente parte na totalidade? Se quisermos falar de nós, portugueses, já Julio César dizia, que havia nos confins da Iberia um povo “que nem se governa nem se deixa governar”, o que pode muito bem ser o fado da lusitanidade. J.Rentes de Carvalho, de quem me tornei um seguidor atento e diário, acompanhando o seu blogue tempocontado.blogspot.com, que aliás recomendo vivamente, publicou este livro em 1972, a retratar os Holandeses na sua condição de cidadão de acolhimento. É uma obra singular, em que o “hóspede” define os “senhorios” em todas as dimensões do seu ser. É de uma frontalidade e franqueza a toda a prova, mas o que se sente acima disso, até porque o excesso de franqueza pode raiar a má educação, o que nunca acontece, é que é uma opinião genuína, integra, e, na perspectiva do autor, certamente justa. Somos levados numa viagem pela personalidade do Holandês enquanto género, seus vícios, fraquezas e virtudes. Pela sua relação com os outros holandeses, pelo que sente pelos estrangeiros, como vê a religião, o associativismo, a militância, a gastronomia (ou a falta dela), o seu apego ao trabalho e a sua visão sobre o dinheiro e o sexo. Os hábitos, as deformações culturais, tudo aquilo que está ao alcance do impressionante escrutinio de J. Rentes de Carvalho aqui se revela, numa obra que não por acaso se tornou um “best seller” entre os visados. É um prazer ler J.Rentes de Carvalho, e é um elogio que não me saí fácil, pois cada vez encontro menos vozes que me apeteçam ouvir, ou até, no limite, gente que tenha de facto coisas para nos dizer. Li o livro de um fôlego, até ao ultimo capitulo em que o autor actualiza e revê, com uma década de diferença as opiniões expressas. E se quisermos descobrir o essencial, ao olhar os outros pelos olhos de um nosso compatriota, tão clarividente, descobrimo-nos também a nós nas nossas riquezas e misérias enquanto povo. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (D. QUIXOTE)

Tempestade de William Boyd (Casa das Letras)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

O Feitiço de Xangai de Juan Marsé (D. Quixote)

3 comentários:

Fernando Lopes disse...

Ricardo,

Bela recensão. Dá vontade de pegar no livro e "devorar".

Um abraço,
Fernando

Luis Beirão disse...

Já ouvi falar neste autor há muitos anos, e um dia li-lhe "Ernestina", sobre a sua infância em Gaia. é um autor com uma escrita bastante fluente e sim, sobretudo transparece franqueza.

Ricardo disse...

Caro Luis Beirão,

Obrigado pela visita, com respeito a J.Rentes de Carvalho, repito a sugestão de que acompanhe o blogue Tempo Contado no qual numa base diária, o autor nos delicia com a sua particular visão do quotidiano. Abraço