quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

V. de Thomas Pynchon (Bertrand)


"Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só de noite” Edgar Allan Poe

Este é o romance de estreia de Thomas Pynchon, publicado a primeira vez em 1963 e muito bem recebido pela crítica. É um livro poderoso, um daqueles livros cuja marca de autor é absolutamente reconhecível. Não consigo imaginar outra pessoa a conseguir o efeito literário neste V. da forma que Pynchon o fez. O livro, cuja linha de rumo segue um bando de personagens atípicas, de entre as quais avultam Benny Profane e Stencil, leva-nos numa viagem a um universo onírico, de onde só conseguimos retirar algum sentido se nos deixarmos levar por esse registo que nos afasta do real e nos aproxima mais de um cenário de sonho. Não me parece que um autor banal consiga imprimir um ritmo e fornecer um manancial de informação tão vasto, num registo de não-realidade (ou quase realidade) sem cair na vulgaridade ou na mais simples e prosaica total inverosimilhança da história. É completamente absorvente, apesar de nos transportar a um (neste caso muitos cenários) e personagens que tem mais proximidade com o universo do fantástico do que com uma estória linear. A estória central prende-se com a busca obsessiva de Stencil de uma personagem V. que perpassa toda a história, e mais ainda diferentes épocas de História, e que nos leva a viajar por vários cenários e épocas com recurso a alguns “flashbacks” literários. Já ao propor aqui a leitura de “Vicio Intrínseco” (no Brasil “Vicio Inerente”), deixei como referência a capacidade invulgar deste escritor em criar cenários ilusórios ou vagamente psicóticos, que apesar de tudo nos prendem da primeira à última página. De Thomas Pynchon podemos acrescentar que é normalmente referido o seu nome como constante da “Short list” para o Nobel da Literatura, o que, pelo menos na minha singela opinião faz todo o sentido. Como em muitas das minhas leituras, não comecei a leitura de Pynchon por ordem cronológica, li primeiro o ultimo livro que publicou (em 2010, precisamente “Vicio Intrínseco” publicado pela Bertrand) e fiz eu também um flashback até ao primeiro que é este V. Podem acreditar que não fico por aqui. Quer um quer outro fazem-nos boas promessas relativamente à totalidade da obra. Apesar de reconhecer que pode não ser uma obra abrangente, que seja de gosto universal, recomendo sem qualquer hesitação.…. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

SOLDADOS À FORÇA de David Lodge (ASA)


"Detesto, de saída, quem é capaz de marchar em formação com prazer ao som de uma banda. Nasceu com cérebro por engano; bastava-lhe a medula espinal” ” Albert Einstein

Não é segredo que David Lodge é um dos meus autores favoritos. Já por mais de uma vez aqui tenho sugerido livros da sua obra. Este, que tem algum registo autobiográfico, se bem que não seja dos mais conhecidos nem mesmo dos que mais sucesso de vendas atingiu, é um dos que mais gostei de ler. David Lodge é um mestre na arte de descrever a relação do individuo com grandes organizações e as próprias relações entre indivíduos que fazem parte destas. Boa parte do melhor que tem publicado versa sobretudo das vicissitudes do meio académico, de onde posso destacar títulos como “O Mundo é Pequeno” ou a “Troca” que são do melhor que tenho encontrado, neste registo de extrema atenção ao pormenor e de um sentido de humor apuradíssimo. Ao penetrar no meio castrense, o nível não baixa minimamente. É um retrato completo do que a prestação do serviço militar pode infligir ao individuo. Nas mas completas e detalhadas situações do que podemos antever do tema. Não se fica por aí o livro, não é uma mera memória dos “dias de caserna” mas um romance que trata assuntos que vão muito além da vida de quartel. É um livro que trata sobretudo da Amizade, e da perda dela e no extremo da traição entre amigos. É certo que nem sempre o que aqui se vai sugerindo é consensual. Muito do que ao longo destas sugestões semanais se vai compartilhando é mero gosto pessoal. E muitas vezes há livros que lidos numa altura se nos mostram muito bons e agradáveis e os mesmos livros noutra situação não nos agradam assim tanto. Tento aqui, por se tratar de uma coluna de sugestões (e não de critica literária para a qual não pretendo ter nem posicionamento, nem paciência diga-se em abono da verdade), ser o mais mainstream possível, dado que o meu objetivo ultimo não é que leiam o que eu li. É simplesmente que leiam. Ponto. De qualquer forma estou certo que esta será uma sugestão pacífica e transversal ao gosto da maioria. Aproveitem. Boa Semana e …. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)
V. de Thomas Pynchon (Bertrand)


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

OS IMPERFECCIONISTAS de Tom Rachman (Editorial Presença)


"Os jornais são os arquivos das futilidades” Voltaire

Mais um “raid” pelas livrarias e mais duas capturas efetuadas. Acontece não raras vezes que o objetivo inicial se transforma junto das estantes de livreiros e livrarias. Vou normalmente com um ou outro livro, ou mesmo autor em vista e depois, geralmente sem motivo aparente, chego a casa com algo completamente diferente do que pretendia. O grande prazer de ir comprar livros, no meu caso é mesmo esse, é liberdade de poder olhar para os obras em exposição e poder mentalmente adiar algumas que (às vezes acontece) me pareciam há bem pouco tempo, leituras absolutamente urgentes. Nas leituras como na vida os alvos vão mudando, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Assim, este livro “Os Imperfeccionistas” cativou-me sobretudo pelo título, em primeiro lugar, e logo de seguida pela sinopse. Se há território sobre o qual gosto bastante de ler é o meio editorial, seja ele livreiro, jornalístico ou académico. Tenho ao longo destas colunas sugerido muitas leituras de obras que se passam nestes meios. Este livro é um bom exemplo de uma boa história, ou de varias que se cruzam e sobrepõem, sobre um jornal internacional sedeado em Roma. Há que acrescer um pormenor, que desta vez não me impediu a compra. Já por um par de vezes aqui devo ter repetido que desconfio sempre de artifícios “marketeiros” que inundam as capas e contracapas dos livros de citações e recomendações, este não é exceção e lá estava nada mais, nada menos do que “Um dos melhores 10 livros de 2011”. O que isto quer dizer é no mínimo discutível. Dos melhores 10 por oposição a quê, ou comparativamente a quais? Ou com base na short list de quem? Enfim. Apesar disso, a ideia de base pareceu-me interessante e uma rápida passagem pelo estilo de escrita, ainda na loja, convenceu-me a comprar. Depois de lido, só posso aconselhar. Não são muitos os primeiros romances que me convencem. Este fê-lo. É um pouco a repetição do que me aconteceu em 2012 com Edward Docx, de quem já aqui recomendei os dois livros editados em Portugal. Um livro com uma boa história, muito bem construída. Mais um nome a ficar registado para futuras publicações. Aproveitem. Boa Semana e …. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)
V. de Thomas Pynchon (Bertrand)


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Guimarães no Século XX Vol. II de Raul Rocha (Povo de Guimarães)


"Não saber o que aconteceu antes do teu nascimento seria para ti a mesma coisa que permanecer criança para sempre” Cícero

Estou absolutamente certo de que me vão perdoar a sugestão despudoradamente “caseira”. Faço-o, a exemplo de todos os livros que aqui sugiro, única e exclusivamente pelo mérito da obra e pelo prazer que respetiva leitura me deu. É uma viagem ao coração dos acontecimentos mais ou menos públicos que formataram grande parte do século XX Vimaranense. Se as personagens, felizmente, em alguns casos me são familiares, o cenário é absolutamente o meu, ou melhor dito, o nosso. Tento desde há muitos anos acompanhar o que se vai publicando desde e sobre Guimarães e mesmo adquirir obras já mais antigas sobre tudo que se relacione com a nossa cidade. Será mais uma manifestação deste sentimento identitário por vezes exagerado, mas que a nós Vimaranenses nos une, sem necessidade de grandes e elaboradas explicações. Estive presente no lançamento público deste livro e foi com grande alegria que vi a enorme afluência de leitores a testemunhar de facto que há ainda muito interesse por tudo que seja a nossa história coletiva enquanto cidade. É um livro que se lê muito bem, escrito num registo não excessivamente factual e onde se nota muita proximidade entre aquilo que se relata e aquilo que se viveu (pelo menos a partir de certa altura, bem entendido). Ao explorar a vida pública da cidade no Século XX, (e o livro vai praticamente até à minha data de nascimento), dá-nos a medida do que foi sendo o sentimento da nossa gente, a sua postura e a convivência com os poderes mais ou menos centralizadores que, de certa forma ainda, comandam muito do que por cá se vai tentando fazer. A noção de quem foram sendo ao longo do período relatado, as elites locais e o seu afastamento ou proximidade do poder, revela-nos um filme que explica muitas das opções e realidades que hoje tomamos como adquiridas no nosso cenário. O autor, que dispensa certamente que lhe manifeste a minha consideração pessoal, mais do que isso tem a minha gratidão como leitor e vimaranense, e um pedido bastante enfático de que prossiga e nos traga mais Guimarães, seja nesta ou noutras dimensões da nossa caminhada coletiva. A todos a quem interesse a história das cidades, e não só aos nossos recomendo vivamente. Boa Semana e …. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Para quando a publicação em Portugal?


O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)


"Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.” Arthur Rimbaud
Mais um livro surpreendente. Como de costume, na minha longa carreira de fiel depositário de ofertas de amigos que partilham comigo este caminho através dos livros, demorei algum tempo até chegar a este pequeno volume que me introduziu em algumas boas novidades. Era-me completamente alheio o nome do autor. Tahar Ben Jelloun, marroquino de nascença e educação, passa a residir no princípio dos anos 70 em França e é aí que se torna conhecido e regularmente publicado. Tenho de confessar que a literatura árabe é para mim território quase virgem, não por qualquer motivo especial, mas sim pela mais prosaica falta de acesso e recomendações nesse sentido. No entanto este Escrivão Público vem de certa forma acordar-me para essa falha. O autor, em consulta livre que fiz, e que pude constatar neste livro que hoje se recomenda, utiliza muitas vezes referências autobiográficas e as próprias personagens da sua família para ilustrar de uma forma, que pelo menos a mim me cativou bastante a realidade marroquina. Há um certo contraponto entre o antigo e o novo, uma visão de síntese entre um pensamento ocidental e a cultura e tradições do mundo árabe que dificilmente uma pessoa com outro trajeto de vida poderia por no papel. Nota-se neste livro um sabor de escrita especial, uma certa musicalidade na prosa, por vezes diríamos estar na presença de descrições poéticas de realidades umas vezes mais agradáveis e outras menos. Há muita exploração dos personagens, nos seus limites enquanto seres humanos, nas suas obsessões, manias e compulsões. Há mesmo, pelo menos neste livro um fio condutor de uma certa pulsão sexual que nunca chega a terminar. Enfim, uma boa descoberta, e mais do que isso, um aperitivo para mais. Espero ter tempo e conseguir boas indicações para mais incursões neste estilo de escrita que não conhecia. Recomendo sem hesitar. Boa semana e …. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Guimarães no Século XX Vol. II de Raul Rocha (Povo de Guimarães)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)