quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Escrivão Público de Tahar Ben Jelloun (Cavalo de Ferro)


"Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.” Arthur Rimbaud
Mais um livro surpreendente. Como de costume, na minha longa carreira de fiel depositário de ofertas de amigos que partilham comigo este caminho através dos livros, demorei algum tempo até chegar a este pequeno volume que me introduziu em algumas boas novidades. Era-me completamente alheio o nome do autor. Tahar Ben Jelloun, marroquino de nascença e educação, passa a residir no princípio dos anos 70 em França e é aí que se torna conhecido e regularmente publicado. Tenho de confessar que a literatura árabe é para mim território quase virgem, não por qualquer motivo especial, mas sim pela mais prosaica falta de acesso e recomendações nesse sentido. No entanto este Escrivão Público vem de certa forma acordar-me para essa falha. O autor, em consulta livre que fiz, e que pude constatar neste livro que hoje se recomenda, utiliza muitas vezes referências autobiográficas e as próprias personagens da sua família para ilustrar de uma forma, que pelo menos a mim me cativou bastante a realidade marroquina. Há um certo contraponto entre o antigo e o novo, uma visão de síntese entre um pensamento ocidental e a cultura e tradições do mundo árabe que dificilmente uma pessoa com outro trajeto de vida poderia por no papel. Nota-se neste livro um sabor de escrita especial, uma certa musicalidade na prosa, por vezes diríamos estar na presença de descrições poéticas de realidades umas vezes mais agradáveis e outras menos. Há muita exploração dos personagens, nos seus limites enquanto seres humanos, nas suas obsessões, manias e compulsões. Há mesmo, pelo menos neste livro um fio condutor de uma certa pulsão sexual que nunca chega a terminar. Enfim, uma boa descoberta, e mais do que isso, um aperitivo para mais. Espero ter tempo e conseguir boas indicações para mais incursões neste estilo de escrita que não conhecia. Recomendo sem hesitar. Boa semana e …. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:
Kyoto de Yasunary Kawabata (Dom Quixote)
Guimarães no Século XX Vol. II de Raul Rocha (Povo de Guimarães)
Rever Portugal de Jorge de Sena (Guimarães)
Uma Mentira Mil Vezes Repetida de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal)
O Homem Que Gostava de Cães de Leonardo Padura (Porto Editora)
O Ano do Dilúvio de Margaret Atwood (Bertrand)

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