quinta-feira, 17 de junho de 2010

CADERNO AFEGÃO de Alexandra Lucas Coelho (Tinta da China)

“Damo-nos bem com a discórdia, damo-nos bem com alertas, damo-nos bem com sangue. Mas nunca nos demos bem com um dono.” Velho Afegão citado por MOUNTSTUART ELPHINSTONE


Com um agradecimento especial ao Miguel Carvalho que foi quem me ofereceu.

Excelente! O livro de viagem por definição. Escrito por uma viajante, mais do que por uma jornalista, leva-nos a um Afeganistão cujo significado está muito para além das noticias dos jornais e televisões. Tratado com uma proximidade e uma humanidade deficil de reproduzir. Este Caderno dá-nos uma imagem actual,vivida e nítida daquele que é um dos teatros de operações militares mais distantes e complexos do pós 11 de Setembro. As diferentes tribos, os rituais, a arquitectura, a paisagem, os cheiros e especialmente o retrato de todos que vivem neste Afeganistão retratado, compõe um quadro tridimensional, que nos fornece uma ideia muito mais concreta do que é esta nação.Ficamos a saber o que é o “pakol”, o “patou”, o “shalwar kamiz”, a “taquiyah” ou podemos ir a algumas “chaikanas”, entre tadjiques, pashtun (os talibans são-no). Viajamos por sítios que compõe alguns telejornais e relatos de vidas distantes, Kandahar, Jalalabad, Herat (com uma descrição que dá vontade de nos metermos num avião em seguida), Cabul, Mazar-i-Sharif ou Bamiyan. Convivemos com mujahedin, e ouvimos falar dari, pashto ou uzbeque e ficamos asaber que há burqas de outras cores que não só o azul. Não me parece que se possa considerar este livro como uma obra jornalistica apenas, apesar de algumas partes se enquadrarem nesse registo, a forma de (d)escrever de Alexandra Lucas Coelho, torna os sujeitos da escrita em realidades concretas e palpáveis. Sem nunca pretender tirar conclusões sobre a bondade dos pontos de vista, sem nunca indicar culpados nem inocentes, é atravez do seu olhar observador e atento que se nos oferece a possibilidade, de sermos nós próprios a chegar a conclusões. É boa politica, penso eu. Neste tipo de obras caí-se com facilidade em considerações de ordem moral, ou pior, em obras de cariz panfletário. Aqui não. De modo nenhum. A visão da complexidade da estrutura social do Afeganistão, é- nos oferecida do individual para o geral, a partir de pessoas concretas, individualmente consideradas e postas, bem postas diria, em contexto. Boas Leituras!

PARA A SEMANA: AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM de Sandor Marai (D. Quixote)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

A VOZ DO VIOLINO de Andrea Camilleri (DIFEL)

ESCRÍTICA POP de Miguel Esteves Cardoso (Assírio & Alvim)

CICATRIZES DE MULHER de Sofia Branco (Publico)

INÉDITOS de Antoine de Saint Exupéry (Casa das Letras)

CRÓNICA DO PÁSSARO DE CORDA de Haruki Murakami (Casa das Letras)

OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA de Richard Zimmler


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