terça-feira, 22 de junho de 2010

AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM de Sándor Márai (D. Quixote)

“A Amizade é uma alma com dois corpos.” ARISTÓTELES

Já aqui falei de Sándor Márai a propósito de “A Mulher Certa”, no entanto regresso a este excelente e tão injustiçado autor, a propósito do primeiro livro que li dele. Sem mais, posso afirmar de entrada, que é um dos mais belos hinos à Amizade que li até À data. Escrito como sempre, sem concessões de ordem nenhuma à facilidade. É um romance invulgar que trata um dos temas mais universalmente aborados de sempre, a Amizade, no seu conceito mais verdadeiro e profundo. A sua primeira publicação é de 1942, no entanto, não há qualquer analogia com o estado de Guerra em que a Europa se encontrava na altura. A estória contida no livro passa-se no inicio do Séc. XX, no ocaso do Império Austro-Húngaro e descreve-o também. Dois Amigos, Henrik e Konrad, reencontram-se passados 41 anos sobre um facto trágico que marca o fim (ou não) da enorme Amizade que mantinham. 41 anos depois, Henrik, um aristocrata, recebe Konrad no seu Palácio para, descrevendo o que se passou, poder ter algumas respostas. Há uma longa e deliciosa descrição do Passado dos dois enquanto Amigos, desde o momento em que se conhecem, à consolidação de Uma Amizade que se pretendia absoluta, até um desfecho trágico em que intervém Krisztina, mulher de Henrik, que determina a derrocada da relação entre ambos e o longo exilio de Konrad. É um livro em que a Amizade, embora em conceito, quase se torna tangível. Podemos viajar dentro de tudo aquilo que a constrói. A Lealdade, a Honra, mas também com conceitos de época, onde entra a Honra e a Tradição. E a cartografia da perda, que aqui é dupla para os dois, que perdem a Amizade e a mulher amada, é algo que vale por si só. Sándor Márai, cujo percurso de vida levou a que a sua obra só muito tardiamente fosse (re)conhecida, é um Mestre. Cria personagens e ambientes absolutos, com um rigor de escrita e uma profundidade de ideias muito dificeis de alcançar. Este livro é obrigatório em qualquer estante que se preze. Nada menos. Boas Leituras!

PARA A SEMANA: A FOGUEIRA DAS VAIDADES de TOM WOLFE (D. Quixote)

NA MESINHA DE CABECEIRA:

Continuam:

A VOZ DO VIOLINO de Andrea Camilleri (DIFEL)

ESCRÍTICA POP de Miguel Esteves Cardoso (Assírio & Alvim)

CICATRIZES DE MULHER de Sofia Branco (Publico)

INÉDITOS de Antoine de Saint Exupéry (Casa das Letras)

CRÓNICA DO PÁSSARO DE CORDA de Haruki Murakami (Casa das Letras)

OS ANAGRAMAS DE VARSÓVIA de Richard Zimmler


3 comentários:

Bípede Falante disse...

Qualquer livro do Márai é surpreendentemente acima das nossas expectativas. Ele foi um dos grandes autores do século XX, que fez, de suas catastrófes pessoais e socias, constantes recriações de sua violentada vida.

Ricardo disse...

Um Mestre!

Bípede Falante disse...

Agora, lendo o título do post, percebi que a editora é D. Quixote, que, segundo os diários do Márai, foi o livro da vida dele.