quarta-feira, 13 de abril de 2011

LA COCA de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

“A Verdade não é, de modo algum, aquilo que se demonstra, mas aquilo que se simplifica” ANTOINE DE SAINT EXUPÉRY

Este “La Coca”, é o último livro de J.Rentes de Carvalho. Para quem ainda tivesse alguma dúvida de que este autor se tornou para mim (e para mais alguns amigos, estou certo) uma referência na escrita, que se desengane, esta ultima publicação é mais uma confirmação do talento ímpar deste nosso compatriota, a quem só os holandeses tiveram acesso durante o que, tenho a certeza, foi tempo demais. O lançamento oficial do livro ocorreu esta semana em Lisboa, mas, de facto, a obra já se encontrava à venda. Eu, comprei aqui em Guimarães, na Fnac, onde estava exposto, se não com destaque, pelo menos no topo de uma das prateleiras, o que me agradou bastante. É mais um livro deslumbrante na forma como J. Rentes de Carvalho aborda uma viagem de carácter autobiográfico aos anos em que se fez homem. É uma obra especial, como especial é tudo o que lemos deste autor. Tem várias caracteristicas absolutamente raras e dificeis de encontrar fora de um numero muito restrito de grandes escritores. Em poucos traços J. Rentes de Carvalho chega à verdadeira essência das personagens e das situações, deixa-nos perceber como são as pessoas sobre as quais escreve, e transmite-nos as sensações, os ambientes e as próprias emoções de uma forma que se aproxima espantosamente da realidade. Se mais não houvesse, há dois factores determinantes, que distinguem o que é excelente do que é bom ou assim-assim. A “fome” que os livros nos transmitem enquanto os estamos a ler. Esta “fome” ou “febre” de ler mais, de avançar na história é algo que não se encontra todos os dias nem em toda a literatura. Este (e os outros livros deste autor) despertam esse desejo de ler, acordam a compulsão de querer saber mais da história e da forma como é contada. Para resumir, este “La Coca”, foi comprado num dia e terminado no dia seguinte, apenas porque, os afazeres profissionais e domésticos se intrometeram entre mim e o prazer desta leitura. Outro dos factores que distinguem, e na minha opinião, o que verdadeiramente caracteriza a grandeza das obras, é a sensação de tristeza quando, nesta edição da Quetzal, pela página 187, reparamos que não temos mais para ler. Acreditem, é um registo de escrita, tão sincero, com um tão grande compromisso com a verdade (ainda que esta possa ser apenas literária), e com um ritmo tão a compasso com a vida, que se torna dificil aceitar que a história fica por ali. Do livro, como de costume, não adianto muito, as histórias são para ser contadas pelos autores, não por quem os sugere. Mas tem um fio condutor,o contrabando, a vida na fronteira do Rio Minho, as suas gentes e vida, que se deixam mostrar aqui numa escrita séria, serena, verdadeira, e por isso mesmo incomparável. Tenho para mim, que todos perdemos muito, por não conhecermos J. Rentes de Carvalho há muito mais tempo, mas suponho que iremos a tempo de descobrir e reparar essa injustiça que enquanto compatriotas solidariamente lhe fizemos ao longo deste anos. Para isso, nada melhor que ler e recomendar. Pela minha parte, é com raro prazer e satisfação que aqui o tenho feito. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

3 comentários:

Fernando Lopes disse...

É, de facto, uma leitura deliciosa. Entre a reportagem, as memórias e a criação pura. Quando se conseguem misturar estes três "items", com a credibilidade que Rentes de carvalho consegue, é caso para dizer, temos livro!!

Maria Teresa disse...

è com enorme satisfação, emoção mesmo, que vejo o nome de Rentes Carvalho finalmente reconhecido... Conheço a sua escrita há já cerca de 30 anos e sempre me assombrou a dificuldade que tive em encontrar em Portugal os seus livros em livrarias, alfarrabistas, feiras, etc. Obrigada pela referência, sou mais uma fã deste - quase único -grande escritor comtemporâneo de língua portuguesa!

Ricardo disse...

Maria Teresa, partilho inteiramente da sua admiração pela obra de Rentes de Carvalho. Está finalmente a fazer-se justiça. Obrigado pela visita.