terça-feira, 16 de abril de 2013

AS ESGANADAS de Jô Soares (Editorial Presença)


“A gula mata mais do que a espada.” George Herbert


Não há que lhe fazer. Sou fã. Jô Soares, que dispensa qualquer tipo de apresentações enquanto “entertainer” é também um magnifico escritor. Sempre num registo muito próprio a que não falta nunca um humor também ele singular, tem fabricado algumas obras, infelizmente poucas, que me tem oferecido algumas horas de grande prazer. Sou um inconfesso admirador do género policial, disso tenho, penso eu, dado bastante testemunho nestas colunas, mas há ingredientes que acrescentam em muito ao género. É também aqui o caso. Neste livro, Jô Soares volta a introduzir-nos um serial killer pouco comum. A começar pelo nome e função. Caronte, herdeiro da funerária Estige, é, ao contrário do romance policial clássico, em que cumpre ao leitor a descoberta do putativo criminoso, desde logo descrito e anunciado como o autor dos terríveis crimes que assolam a sociedade carioca de finais dos anos 30. Jô Soares, colocando-nos na época já visitada do Estado Novo brasileiro, (já anteriormente retratado em “O Homem que matou Getúlio Vargas”) e nas vésperas da Segunda Grande Guerra, retrata a sociedade brasileira de então em muitas das suas particularidades. “As Esganadas”, as vitimas, são mulheres que tem entre si o facto de serem gordas e gulosas. A morte vem na improvável forma de doçaria típica portuguesa. A investigar estas mortes, um trio incaracterístico, com dois policias cariocas e um português, ex-polícia em Portugal que chega ao Brasil e se junta à investigação. Entram também lateralmente como personagens históricas Fernando Pessoa, descrito no caso que faz com que Tobias Esteves, o português em causa, é afastado da policia portuguesa por participação na encenação do suicídio de Alastair Crowley, no qual o próprio Pessoa tem participação. A forma como o autor dispõe a trama permite-nos ficar a conhecer melhor a época e os costumes de então. Há várias personagens e episódios reais que se entrecruzam na história, o próprio Manoel de Oliveira entra como piloto de automóvel no Circuito da Gávea. Assistimos ao relato de futebol da meia-final da Copa de Mundo de 1938 que o Brasil perde para a Itália. Todos os capítulos são também pontuados pelas notícias dadas via rádio, sempre com anúncios das mais curiosas novidades. Enfim, um mundo de coisas. Umas novas, outras nem tanto, mas sempre interessantes. Como sempre, falta aqui espaço para poder falar de tudo o que importava para poder despertar o interesse para esta obra. Mas o mais simples será dizer que gostei, mais uma vez. E que recomendo sem temor. Fico a aguardar o próximo.
Boa Semana e Boas Leituras!!!

Na Mesinha De Cabeceira:
ATÉ AO FIM 1944-1945 de Ian Kershaw (D. Quixote)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
A FABULA de William Faulkner (Casa das Letras)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A DIVINA COMÉDIA de Dante Alighieri (Quetzal)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
UM HOMEM DE PARTES de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)
AGOSTO de Rubem Fonseca (Sextante Editora)

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