segunda-feira, 14 de março de 2011

As Benevolentes de Jonathan Litell (Dom Quixote)

O mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam, mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram TUCÍDIDES

Este é um livro que não se descreve com facilidade. São 900 páginas de leitura muitas vezes pesada pelo conteúdo, e demorada por factores vários. Jonathan Litell, opta por descrever pela memória de Max Aue, um Nazi confesso, oficial das SS, em discurso directo o percurso da II Guerra Mundial por este vivida. É uma descida ao mal, narrada por um actor no terreno que, é, ele próprio, um caso de amoralidade fora do comum. Litell escolhe, o que nem sempre se torna muito agradável, fazer descrições quase exaustivas da burocracia alemã, da nomenclatura militar e, na imaginada primeira pessoa de Aue encontramos presente uma vivência muito nitida do Holocausto. É, apesar de tudo um livro que não gera consensos, parece-me que, sobretudo pelo tamanho e não pela qualidade. Damos muitas vezes por nós a distrair da leitura pelo excesso de rigor descritivo, o que, poderia ser aligeirado, mas retiraria algumas das caracteristicas deste livro, uma das quais é a de seguir um modelo de livro de memórias com um realismo muito crú. Acompanha-se a vida e o pensamento de Maximilian Aue durante todo o percurso da Guerra e suas batalhas, os campos de concentração da “Solução Final” até a derrota alemã na fente russa. É sobretudo um retrato de um homem posto perante a sua circunstância, e que, neste caso, nunca a põe em causa. O prisma pelo qual o autor escolhe abordar a essência do mal, se assim o podemos considerar, não é o do julgamento, isso deixa-nos a nós leitores, mas sim o de relatar e descrever os diversos cenários, com a máxima frieza e desapaixonamento. O personagem principal, complexo e dificil de catalogar, é ele próprio o fio condutor do romance. Sexualmente ambíguo, e sem nunca emprestar escrúpulos aos actos praticados, é o exemplo máximo do executante cego de uma ideologia que nunca é nem contestada nem sequer interrogada. Dá-nos uma boa medida do que é o fanatismo e do que uma má ideia pode fazer se enraizada como uma verdade incontestável. É de ler, sem grandes pressas, e se, fizerem como eu, em vários fôlegos. Não o li de uma vez. É uma leitura que por vezes nos pede para parar e reagrupar as forças do espirito, é muitas vezes pesado, mas é depois de terminarmos, que damos o tempo passado com este Aue de Jonathan Litell por muito, muito bem empregue. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

1 comentário:

Dalaila disse...

está tão bem descrito aqui este livro meu amor