quinta-feira, 10 de março de 2011

SARGENTO GETÚLIO de João Ubaldo Ribeiro (Edições Nelson de Matos)

Nunca devemos mudar de cavalo no meio do rio ABRAHAM LINCOLN

Pode-se dizer que às vezes os livros são como as cerejas, uns puxam os outros. Assim aconteceu com este fenomenal “Sargento Getúlio” de João Ubaldo Ribeiro. Explicando. Foi na leitura de “Tempo Contado”, diário literário de J. Rentes de Carvalho, que este, se lhe referiu em termos pouco menos que entusiáticos. Ora, estando eu neste momento em fase de profunda admiração pela obra de Rentes de Carvalho, nada melhor que aceitar uma sugestão de leitura de tão alta recomendação. Assim fiz, e, estou absolutamente siderado pela dimensão desta obra. João Ubaldo Ribeiro, brasileiro e baiano, é autor de diversas obras das quais tinha já ouvido falar, mas nunca dele tinha lido nada até agora. Cito pela curiosidade que João Ubaldo Ribeiro, é autor da polémica obra “A Casa dos Budas Ditosos”, cuja venda chegou a ser censurada por uma cadeia de hipermercados. Se há publicidade bastante, essa para mim acertou no alvo, passou esse romance a incluir a minha lista de leituras. Voltando ao livro que hoje se sugere, há que dizer que a obra é de 1971, e logo se fez notar no panorama literário brasileiro, deu inclusivamente lugar a um filme do mesmo nome, com interpretação superior de Lima Duarte no papel do Sargento. É uma obra absolutamente portentosa. Uma viagem. O “Sargento Getúlio” é incumbido de trazer um prisioneiro, atraves do sertão do estado de Sergipe, na companhia de Amaro, seu colega. O livro, que é narrado pelo próprio Sargento, introduz-nos a um conceito de linguagem diferente, o dialecto sertanejo é utilizado em todas as suas deliciosas nuances e cambiantes, é como que se uma nova lingua se nos apresentasse. Há termos e histórias e figuras de estilo de uma vivacidade dificil de igualar. Mas mais do que a própria inovação, à altura, no estilo de escrita, é a história e a viagem, no sentido próprio e muito mais no sentido interior que aqui se revela num livro absolutamente portentoso. À medida que a viagem (de facto) progride, o Sargento partilha connosco todos os seus pensamentos, e quando digo todos, são mesmo todos, como uma torrente impossivel de estancar de histórias e pensamentos sobre tudo e todos que integram o universo particular de Getúlio. Há um facto de relevo na história, quando a ordem de transportar o prisioneiro é cancelada, aí revela-se em todo os seus contornos da trama, uma dimensão de uma desumanidade que de tão grande só nos parece, ainda assim, mais verdadeira. É uma aventura poderosa, em que o sentido de honra e dever, embora possa à nossa perspectiva parecer distorcido, ganha alturas de sacerdócio neste “Sargento” obstinado, duro e que nunca desiste. É um livro raro. Um clássico. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

As Benevolentes de Jonathan Litell (Dom Quixote)

O Filho Eterno de Cristovão Tezza (Record)

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

2 comentários:

Fernando Lopes disse...

Emprestas-mo? Com este teu entusiasmo, já me deixas-te com água na boca ..

Abraço,
Fernando

Ricardo disse...

Está à tua espera, no próximo abraço, trocamos literatura.

Grande Abraço

Ricardo