terça-feira, 31 de maio de 2011

ESTAÇÃO CARANDIRU de Drauzio Varella (Palavra)

“Nenhum poder humano consegue forçar o impenetrável reduto da liberdade de um coração” FRANÇOIS FÉNELON

Agora que resolvi falar deste livro, não encontro uma boa justificação para o tempo que decorreu entre a sua leitura e esta sugestão. Acontece em muitas alturas, e esta é uma delas, em que tenho muitos mais livros para ler do que tempo para fazê-lo, e isso tem o seu preço. Pelo menos no que a esta “estante” diz respeito, lá tenho que ir buscar sugestões de leituras mais ou menos anteriores. Esta, valha a verdade, apesar de a obra ser de 1999, no original do Brasil e ter sido publicada entre nós em 2005, só a li no ano passado, em 2010. E, manda também que se agradeça a quem ofereceu, o meu bom amigo Pedro Malaquias, a quem tenho que “tirar o chapéu” pela oferta e sugestão. É um livro que vale a pena, o seu autor Drauzio Varella, médico de carreira, conta-nos num registo directo e sem recurso a artificios literários um conjunto de histórias que fazem o quotidiano daquela que foi a maior prisão (ou presídio, no falar local) da América Latina. Um mundo dentro do mundo. Repleto de histórias que valem a pena ser lidas. Um manancial de vidas com um elo em comum, a cadeia. Contado num tom sereno, coloquial, com um ponto de vista sempre focado no factor humano, e sem nunca emitir qualquer juizo de valores, quer relativamente a protagonistas, quer mesmo ao sistema. Uma descrição de muitas e profundas descidas aos abismos da degradação humana, da violência do desumano e, paradoxalmente aí, encontamos por vezes a verdadeira grandeza do nosso semelhante. Drauzio Varella, que escreve este livro depois de fazer um trabalho de anos em voluntariado no Carandiru em prol da prevenção da SIDA entre os reclusos, colhe com sabedoria e humanidade algumas histórias de vida que nos impressionam. É um livro de leitura fácil, lê-se como quem ouve um amigo a contar as peripécias da profissão, entre episódios de humor e outros que nos inquietam e provocam. Num universo de cerca de 8000 detidos, o autor, ao longo dos anos e pela convivência, nas suas próprias palavras fez: “...amizades verdadeiras, aprendi medicina e muitas outras coisas...penetrei nos mistérios do cárcere, inacessíveis se eu não fosse médico”. Vamos pois acompanhar nesta obra, muito do que não se conhece da vida dos que por uma ou outra razão forma privados de liberdade, numa lógica social muito própria ditada por um “código penal não escrito”, conhecer as suas leis e principios de sobrevivência num universo que tem tanto de violento como de profundamente humano. É um daqueles livros raros em que nos sentimos a mergulhar num voo sem regresso ao mais intimo da condição humana. Não percam, como se diz numa das frases de promoção ao livro “Carandiru é uma bofetada violenta à indiferença e à passividade”. Não podia estar mais de acordo. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

O Assédio de Arturo Perez Reverte (Asa)

A Conspiração Contra a América de Philip Roth (Dom Quixote)

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A METAMORFOSE de Franz Kafka (Guimarães)

“Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?” FRANZ KAFKA

“Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na sua casa, metamorfoseado num monstruoso insecto.” Esta é a mais que famosa primeira frase de “A Metamorfose” uma obra intemporal de Franz Kafka. Uma vez mais, vou entremeando as minhas sugestões entre o que vou lendo no momento e o que já li num passado mais ou menos remoto. Guardo deste livro muito boas recordações. Tem um grande conjunto de virtudes. É rápido de ler, fácil de perceber e depois dá para se lhe colar um sem numero de interpretações, o que ajuda sempre aqueles que gostam de forçar a análise para além dos livros, e muitas vezes para lá dos seus autores. Já eu, que nada mais pretendo do que incentivar a leitura, apresentando livros que me agradam e agradaram, (uns mais que outros, é certo), não me atiro a grande reflexões sobre a produção de terceiros. Esta coluna serve para sugerir e não para explicar ou justificar algumas metalinguagens que abundam na literatura. Curioso será o facto de Kafka ter escrito este livro em apenas três semanas, com apenas 29 anos de idade, em finais de 1912 e tê-lo publicado em 1915, e tendo afirmado que não gostava do resultado, que considerou “imperfeito e com um final ilegível”. Apesar disso, este livro é, quase um século volvido, um dos seus mais conhecidos escritos. Há um sem número de explicações para a metáfora da metamorfose de Gregor Samsa. Há quem tente o enquadramento histórico das vésperas da I Guerra Mundial, que justificaria o alienamento humano, o pessimismo e a falta de rumo do Homem. Há quem veja neste livro uma obra sobre o padrão económico e a relação de forças que afecta as relações humanas (aqui entre o patrão de Samsa e este), ainda entre a sua própria familia que dependia económicamente de Samsa e sómente o respeita enquanto ele cumpre com o papel de providenciar o sustento familiar, e quem veja nisto uma sublimação das hipocrisias familiares. Enfim, é quase para todos os gostos. O próprio Kafka era extraordináriamente avesso a que se visse neste conto algo que se relacionasse com a sua própria biografia e a conhecida má relação que mantinha com seu pai. Mas é inevitável que alguém o faça. De qualquer modo, pondo de lado as abordagens mais profundas e estudiosas, é um livro excelente e impactante. Não se esquece com facilidade. Põe-nos de facto a pensar. É muito bem escrito, incomparávelmente pensado e encerra apesar de algum negrume e mesmo horror contido na história, um lado de humor com muita relevância. É mais um conselho dado a com a segurança total de que não vão apenas gostar. Vão por vossa vez aconselhar. Evidentemente tudo isto só se aplica a quem por azar, ou desvio acidental, nunca leu. Se é o caso, corram a corrigir a falha.Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

O Assédio de Arturo Perez Reverte (Asa)

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)


terça-feira, 17 de maio de 2011

OS 36 HOMENS JUSTOS de Sam Bourne (Edições ASA)

“Quando muitos homens estão juntos, é preciso separá-los pelos ritos, senão matam-se uns aos outros” JEAN PAUL SARTRE

Com uma regularidade que impressiona, cá vou recebendo ofertas de leitura de alguns queridos Amigos. Esta veio do Ricardo Alexandre, meu compadre portuense radicado na Capital do Império por razões profissionais, a quem mais uma vez tenho que agradecer. É de facto uma novidade para mim, quer o livro, quer o seu autor. Sam Bourne é o pseudónimo literário do jornalista Jonathan Friedland, que é da excelente colheita de 1967 e escreve para o Guardian e o London Evening Standard. Este é o seu primeiro romance. E, se venho aqui sugeri-lo é porque me parece ser um excelente livro a ter em conta para as férias. É um livro de entretenimento garantido. Mais um dentro do agora mais do que florescente universo das teorias da conspiração. Aproveita bem o tema de um eventual apocalipse previsto na Cabala, e conta, de forma bem contada uma aventura de contornos policiais que se lê com bastante agrado. Se forem fãs deste género de livros, tem neste algumas horas de muito boa leitura. Aparentemente, ao que consegui saber, tudo o que se diz no livro é teológicamente correcto, vamos assim percorrer um mundo diferente do nosso, onde entram seitas cristãs extremistas e mais, sobretudo, a comunidade de judeus hassídicos de Crown Heights em Nova Iorque. Sam Bourne, consegue um romance de bom nivel, dentro deste género, claro está e que concorre com muitos dos nomes mais sonantes deste tipo de literatura. Eu, ao contrario de muitos que tem algum pudor em admitir que “baixam o nível” das suas leituras (se é que sabem o que eu quero dizer...) gosto muito de intervalar leituras mais pesadas e densas que por vezes faço, com algo mais ligeiro e que disponha bem. Para isso nada melhor do que arranjar uma boa história detetivesca, com raptos, assassinios e uma trama bastante intrincada por detras. Este livro que hoje se sugere tem como personagem principal um jornalista do New York Times, que cobre dois crimes que nada faz supor estarem ligados entre si, e coincidentemente com esse facto a sua mulher é raptada. Há um caminho que conduz vertiginosamente a conclusões e cenários dificeis de antecipar. Lê-se com vontade e provoca aquele “factor L” (de Leitura compulsiva) de que muito falo nesta coluna e que é um dos pormenores que me faz ou não sugerir leituras. Este livro tem-no.Há livros que cumprem na integra o papel para que foram escritos e este é seguramente um deles. Ao fazer a mala para as férias, que felizmente já não estão assim tão longe, considere “empacotar” estes 36 Homens Justos, vão ver que não se arrependem...os 37!Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

AS OBRAS PRIMAS DE T.S. SPIVET de Reif Larsen (Editorial Presença)

“O verdadeiro herói e sempre herói por engano; sonhou ser um cobarde honesto” UMBERTO ECO

O compromisso com a leitura oferece a quem o estabelece muitas e boas surpresas, assim tem sido felizmente comigo. Há cerca de um mês atrás, mais coisa menos coisa, teve lugar em Matosinhos um evento literário que porventura gente mais atenta já terá frequentado. A LeV Matosinhos, Literatura em Viagem. Comigo, apesar de tudo não tem sido assim. Não tenho sido nem grande nem assíduo frequentador de eventos da especialidade. Não que não lhe reveja a devida importância, mas sobretudo porque na maior parte das vezes em que tenho estado presente verifico que muitos autores são infinitamente menos interessantes que as respectivas obras, e nem sempre estas são suficientemente boas que justifiquem o empenho e a viagem. No entanto desta vez o motivo era sobremaneira especial, na sessão a que me propus assistir estaria presente o J. Rentes de Carvalho, o meu mais recente vicio literário. Combinada que estava a deslocação com o meu bom amigo e camarada de leituras Fernando Lopes da Invicta assim o fiz. E que boa surpresa tivemos. Para alem do supremo prazer de ouvir, e cumprimentar o J. Rentes de Carvalho ( de quem ouvi nas palavras da Paula Moura Pinheiro do magazine televisivo Câmara Clara dizer ser o maior escritor português vivo, o que confirma muitas das minhas suspeitas aqui vertidas em crónicas anteriores ) ainda tivemos de bónus a presença dos escritores valter hugo mãe, e Reif Larsen, este ultimo de cujo livro hoje trato de sugerir. Valha aqui a verdade. Foi a apresentação que Reif Larsen fez sobre a literatura e as viagens o que mais me motivou a comprar o livro deste jovem escritor norte americano que desconhecia, para mal das minhas leituras. O livro ele próprio constitui um dos exercício literários mais belos e mágicos de que tenho memoria. Sendo a historia contada pelo protagonista Tecumseh Sparrow Spivet, um cartografo de doze anos que tudo reduz aos mapas, poderia pensar se que estávamos na presença de mais um romance infanto-juvenil, na boa e recente tradicao dos livros de J K Rowlings por exemplo. Nada mais ao lado, este e um livro intemporal, que retrata uma viagem de facto mas muito mais uma viagem interior. Não e um livro vulgar, e um grande livro que merece ser comprado, lido e aconselhado. Por tudo, pela historia, pelas belíssimas ilustrações que a acompanham e integram, mas e sobretudo pela forma como esta escrito. Cumprindo o habito de pouco dizer sobre a obra, espero que em breve se juntem a mim como admiradores desta Obra Prima que não de T.S. Spivet, mas sim de Reif Larsen. Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

Os 36 Homens Justos de Sam Bourne (Asa)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

UM ESTUDO EM VERMELHO de Sir Arthur Conan Doyle

“O homem é absurdo por aquilo que busca, grande por aquilo que encontra” Paul Valéry


Há já algum tempo que não sugeria nada de dentro de um universo que me agrada particularmente e que já deixou nesta coluna muitas sugestões anteriormente. Os romances policiais. Ora se o género me tem oferecido desde sempre muitas e boas horas de leitura, há alguns clássicos que me parecem absolutamente essenciais. Acreditando que haja quem não leu nada da obra de Arthur Conan Doyle, acho altamente improvável que não estejam pelo menos familiarizados com a sua maior criação, o genial detective Sherlock Holmes. Este “Um Estudo em Vermelho” ou “Um estudo em Escarlate”, conforme a versão seja a portuguesa do Brasil ou de Portugal, (“A Study in Scarlet” no original), introduz-nos a uma das duplas de personagens literárias mais icónicas de sempre. Sherlock Holmes e o seu amigo, companheiro, mas sobretudo biógrafo e narrador das aventuras de ambos, o médico Watson. Originalmente publicado em formato de revista (na Beeton´s Christmas Annual em 1887), cria para nós leitores, com inegável mestria um mundo que invariavelmente associaremos a uma Londres vitoriana, de ambientes sombrios e onde se escondem os piores criminosos. O cinema e a televisão marcaram de forma absoluta a passagem destas personagens a património literário global. Todos associamos imagens e referências de Sherlock Holmes e dos seus métodos. O violino, a dedução lógica, o dominio da criminologia, e para os que, para além da imagem de tv e filme efectivamente leram, o vício, as manias, o conhecimento enciclopédico dos venenos e armas e a suprema capacidade de se disfarçar de Holmes e a parceria bem sucedida com o não o Dr. Watson, que também lhe serve de contraponto. São no total 60 histórias em que podemos encontrar esta celebérrima dupla. Desde este primeiro encontro neste “Estudo em Vermelho”, passando por obras incontornáveis como “O Cão dos Baskerville”, encontrando também um dos primeiros e mais célebres representantes do Mal, o Professor Moriarty. Entre uma galeria de figuras que se tornaram familiares aos “aficionados” de Sherlock Holmes, como Irene Adler, o Inspector Lestrade e outros temos a visão perfeita do ambiente britânico do final do Séc. XIX em todas as suas particularidades e cambiantes, desde a mendicidade urbana até aos salões da aristocracia. Mais que não fosse, o espírito inovador de Conan Doyle na forma como nos guia através da perseguição da verdade e do castigo do Mal, fez um caminho sólido, e são aventuras que se lêem hoje como há cem anos. E a esse teste, o do tempo, só os melhores resistem. Sugiro este livro por ser o primeiro, mas não espero que fiquem por aqui. Aliás tenho a certeza disso!Boas Leituras!


Na Mesinha De Cabeceira:
A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)
As Obras Primas de T.S. Spivet de Reif Larsen (Presença)
Suite Francesa de Irene Némirovsky (Dom Quixote)
Os 36 Homens Justos de Sam Bourne (Asa)