segunda-feira, 25 de julho de 2011

A ANATOMIA DO SEGREDO de Leslie Silbert (Ed. Fio da Navalha)

"Considero a religião como um brinquedo infantil, e acho que o único pecado é a ignorância" in “O Judeu de malta” de CHRISTOPHER MARLOWE

Christopher Marlowe, dramaturgo e poeta do final do século XIV, contemporâneo de Shakespeare (nasceram com dois meses de diferença) é a personagem que faz avançar o enredo deste romance policial/espionagem com uma vertente histórica que radica em alguns factos mais ou menos conhecidos da história de vida de Marlowe. Inclusivamente, factos da sua própria morte que ainda hoje oferecem dúvidas a muitos. Um livro bem dividido entre um passado de uma Inglaterra Isabelina, de conflitos latentes e com a questão protestante à flor da pele, com suficientes motivos para se armarem e instigarem intrigas e golpes palacianos. É neste cenário que Marlowe se move. O interessante é mesmo saber que é um facto que o verdadeiro Christopher Marlowe terá tido um papel de relevo num processo secreto com a coroa Britânica, sendo certo o seu papel, comprovado históricamente ,apesar de não se saber exactamente a natureza do que terá feito, sendo a versão mais corrente a de que terá espionado para Francis Walsingham, fundador do primeiro serviço secreto ao serviço da Rainha Isabel I. Mas factos mais ou menos verídicos à parte, é uma boa surpresa este livro. Ignoro como chegou até mim, se foi oferta de amigo, peço desde já desculpa por não estar a relacionar a oferta com o benemérito. Se o comprei não me recordo. De qualquer forma estava “perdido” na estante (a verdadeira, não a acidental) e resolvi pegar nele. É um livro interessante, na linha dos que sobrepõem dois tempos históricos diferentes e duas histórias que se entrecruzam entre o passado e o presente. O contexto desta história de espionagem é-nos introduzido por uma teoria de que o célebre dramaturgo Christopher Marlowe (contemporâneo de Shakespeare e o seu maior rival literário) seria um espião a soldo de poderosos interesses da era isabelina, o que parece, de facto ter alguma consistência histórica. Cruza-se assim um enredo de policial moderno, com a narração dos ultimos tempos de vida de Marlowe, até à hora do seu assassinato. Vemo-nos transportados por vários locais, de Nova Iorque a Sidi Bou Said na costa tunisina, mas principalmente a Londres. A uma londres isabelina e renascentista, onde acompanhamos Marlowe, na busca de solução para um mistério que pode comprometer um dos candidatos a um dos cargos mais importantes da corte Isabelina. No presente, uma detective, Kate Morgan, (aparentemente inspirada na própira autora) é quem lidera a investigação que anda à volta de um livro que encerra vários segredos que desde um passado mais ou menos remoto vão fazer sentir os seus efeitos na actualidade, a Anatomia dos Segredos. Não será uma obra-prima, mas é um livro que cumpre a função para a qual foi escrito, dar algumas horas de boa leitura e bom entretenimento. Recomenda-se pois. Boas Leituras (e Férias se for o caso...)!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

Quando Nistzsche Chorou de Irvin D. Yalom (Ed. Fio da Navalha)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

EU SOU A CHARLOTTE SIMMONS de TOM WOLFE (Dom Quixote)

"Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado." ALBERT CAMUS

Tom Wolfe é, na minha singela opinião, um dos maiores e melhores cronistas de costumes americanos contemporâneos. Já dele aqui se falou, em anterior sugestão, apropósito do seu talvez mais conhecido livro “A Fogueira das Vaidades” de 1987. Já aí, descreve e caracteriza com uma argúcia fora de série o ambiente “yuppie” dos anos 80, tornando essa obra como um dos referenciais do traçar o retrato a um certo tipo de sociedade que norteia a sua existência pelo mais desenfreado materialismo. Há que juntar a tudo o que Tom Wolfe nos conta uma boa dose de cinismo e um tom irónico ao qual nunca fiquei imune. Mas é sobretudo a visão pelo interior das causas e das coisas que mais me impressiona neste autor. Este livro “Eu sou a Charlotte Simmons”, de 2004 e lido agora, é um exemplo perfeito da capacidade literária e de crónica de costumes de Wolfe. É a sua terceira obra de ficção (aqui falarei em futura oportunidade de “Um Homem em Cheio” de 1998, que também já li), e versa, do universo universitário (passe a aliteração...) norte americano neste inicio de milénio. Oferece-nos uma visão completa de todo o ambiente do “campus” da Universidade de Dupont, a partir da vivência de Charlotte Simmons, uma jovem de uma pequena cidade, cheia de expectativas e sonhos, face à realidade, por vezes brutal desse rito de passagem que é a vida académica. A esse propósito nada falta neste romance, há uma galeria de personagens que nos completam o fresco de uma juventude inquieta e desnorteada, guiada por valores e ideais errados, (ou pelo menos ainda mal-formados) e, para um autor já octogenário, Tom Wolfe demonstra uma proximidade àquilo que é a vida dos jovens de hoje, só alcance de um escritor muito especial. Acresce que, e é um dos factores que a mim pessoalmente me agrada mais neste género de obras, que não vemos nunca, ou pelo menos muito raramente, nenhum juízo moral ou ético relativo à forma como as personagens se comportam. Deixa-nos inteligentemente a nós a tarefa de extrairmos conclusões. Se é que as há, bem entendido. Tom Wolfe é um nome marcante do jornalismo americano, desde o Washington Post à revista Esquire, passando pelo New York Herald Tribune, onde firmou o seu cunho de brilhante cronista social e de costumes. E isso nota-se e de que maneira na forma como constrói as personagens, quase sempre de fora para dentro. Deixo uma sugestão agregada a esta, por se tratar de um excelente livro de crónicas, que é o “Hooking Up: Um Mundo Americano” de 2000, da Dom Quixote, onde se pode verificar num registo de “short stories” toda a capacidade de provocar, ironizar, satirizar e no fundo nos dar uma ideia mais clara do que é a América, segundo Tom Wolfe, no ano 2000. Poderei, como sempre, ser altamente parcial no meu julgamento e sugestão, a respeito de mais um dos meus autores predilectos. Mas como tenho, felizmente, a prerrogativa de só falar do que gosto, é assim que o sei fazer. Recomendo com gosto. Boas Leituras (e Férias se for o caso...)!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

A Anatomia do Segredo de Leslie Silbert (Ed. Fio da Navalha)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A CONSPIRAÇÃO CONTRA A AMÉRICA de Philip Roth (Dom Quixote)

“O real serve-nos para fabricar melhor ou pior um pouco de ideal” ANATOLE FRANCE

No decurso das minhas leituras criei um hábito (que decerto muitos partilharão) que é o de, uma vez citado um outro livro, num dos livros que esteja a ler, ficar com essa referência para uma “lista virtual de leituras futuras”. Assim como estou sempre a pedir a amigos e conhecidos que partilhem gostos e novidades literárias comigo, também estou atento ao que os próprios autores e suas personagens vão sugerindo dentro das suas próprias narrativas. E o caso é que, de uns para outros livros, assim como as cerejas, que vem umas atras das outras, tenho vindo a ler obras e autores por sugestão dos próprios livros que leio. Tenho imensos casos a exemplificar esse facto e já aqui nestas sugestões de leitura o tenho referido. Assim, e só para citar dois, vim a ler João Ubaldo Ribeiro por sugestão de José Rentes de Carvalho, como cheguei a Philip Roth atraves de Woody Allen. Tudo menos improvável. Como não há aqui espaço para dar os detalhes necessários a este “puxar do novelo” (ou novela), fico-me pelo que aqui se me pede e passo a sugerir “A Conspiração Contra a América” de Philip Roth. Este livro, excelente, para inicio de conversa, faz parte daquele número de romances que conta com um ponto de partida histórico mas com um resultado divergente daquele que conhecemos. Abundam os exemplos de obras que romanceiam com recurso a um revisionismo literário, realidades já estabelecidas. Dentro da temática que Roth elegeu para esta obra há um factor central, a não reeleição de Franklin Delano Roosevelt para um terceiro mandato presidencial nos EUA, por derrota contra Charles Lindbergh, o famoso aviador (aqui apresentado numa visão que enfoca particularmente o seu anti-semitismo), o que determinaria a não entrada dos EUA na II Guerra Mundial, e com todas as consequências que daí podemos adivinhar e o efeito deste facto no quotidiano de uma familia judia de Newark. Neste caso, uma narrativa contada na primeira pessoa, em registo de quase diário, feita em discurso directo pelo próprio Philip Roth com nove anos, no seio da sua própria familia. O livro, que cobre um hipotético periodo imaginário do governo de Lindbergh entre 1940 e 1942, é de tal modo preciso e detalhado, que, damos por nós a páginas tantas a ter de verificar a história oficial para não sentirmos que estamos de facto perante um relato verdadeiro. E o desenlace é absolutamente brilhante, retomando a História o seu curso normal e conhecido, como se todo o relato fosse completemente verdadeiro e coerente. É uma obra genial, de um dos mais brilhantes escritores que tenho tido o prazer de ler. Não percam, sob nenhum pretexto. Boas Leituras (e Férias se for o caso...)!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

Eu sou a Charlotte Simmons de Tom Wolfe (Dom Quixote)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Para a Lista...


A Bertrand, é uma das editoras que muito simpaticamente me faz chegar via email os respectivos lançamentos.
Este é um dos que me interessa muito particularmente e entra directo para o meu top de preferência de compras.
Andrea Camilleri é um dos grandes autores italianos contemporâneos e uma das minhas ultimas surpresas literárias dos últimos anos.
Devo ao João Nuno Coelho e ao Nuno Olaio a preciosa indicação.

Uma boa notícia!!!! Nas livrarias a 5 de Agosto!!!


Excelente notícia. José Rentes de Carvalho está de volta. A contrariar a tendência pessimista das agências de notação financeira relativamente às Finanças (públicas e privadas) do País, temos motivo de sobra para subir o "rating" à literatura portuguesa.
É caso para dizer: I´m in a good Mood!!!!

Brevemente nas livrarias!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Top Blog 2011


Agradeço aos muitos amigos que acompanham as minhas sugestões de leitura desde o Brasil, e que me indicaram para concorrer a este Prémio, mas de acordo com o Regulamento do mesmo, só blogues domiciliados em território brasileiro podem concorrer.
Como a "Estante Acidental" tem, orgulhosamente, sede em Guimarães - Portugal, não poderei fazê-lo.
Fica no entanto aqui o meu Muito Obrigado, assinalado num registo de alguma vaidade. ;)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O CONDENADO de Jeffrey Archer (Europa-América)

“A vingança é o manjar mais delicioso, condimentado no Inferno” WALTER SCOTT

A propósito de uma discussão antiga e que venho aqui relembrando de vez em quando, se há ou não “livros de férias” (o que também se aplica aos denominados “livros de aeroporto”), tenho que reafirmar a minha conclusão particular. Há bons e maus livros. Há livros que exigem mais e outros menos do leitor. A muitos níveis e de formas que são na maior parte das vezes de interpretação particular de cada um de nós. Se é verdade que há autores que parecem ter encontrado a receita do sucesso e que tudo que publicam se transforma em campeão de vendas, não será menos verdade que não há coincidências. Como em tudo, nem só o mercado e a venda em massa diz da qualidade intrínseca de uma obra, como por outro lado, não são só os críticos e algum sector que defende uma certa elitização da literatura que estão certos. Para mim, um bom livro é o que me dá prazer ler. Independentemente de quem o escreve e porque o faz. Há evidentemente diferenças de entre os próprios criadores de “best sellers”, há os de quem não gosto e dificilmente virei a gostar e outros de quem sou completamente adicto. Jeffrey Archer entra nesta ultima categoria. Autor de obras mundialmente reconhecidas, como “Kane e Abel” ou “Primeiro Entre Iguais”, é um nome reconhecido como fonte de muitas e boas horas de leitura agradável e de qualidade. Este “O Condenado” tem uma particularidade muito especial, que o próprio autor não nega e para a qual remete várias vezes ao longo do texto. É um romance que transporta para os nossos dias a epopeia de vingança de Edmond Dantés, o celebérrimo “Conde de Monte Cristo”. Mas Jeffrey Archer, não faz um qualquer pastiche do original, longe disso. Constrói uma história actual, credível e que nos prende da primeira à ultima página. Se é este tipo de adição a que se referem os que acham que a literatura (como a Cultura) deve ser um acto de sofrimento e de elevação ao êxtase, e que não concebem que a verdadeira dificuldade está em tornar fácil e inteligível o que seria mais ainda assim mais fácil complicar e tornar “profundo”, então se é este o segredo, estou dentro dos que gostam mais do simples do que do complicado. Jeffrey Archer não escreve para os críticos, escreve para os leitores, e essa é uma diferença a que muito boa gente que escreve não consegue chegar. Livro de férias, gostava que assim o considerassem, não pelo que ele é, mas simplesmente porque significaria que os meus queridos amigos estavam no gozo das ditas!

Boas Leituras (e Férias se for o caso...)!

Na Mesinha De Cabeceira:

A Conspiração Contra a América de Philip Roth (Dom Quixote)

A Casa Verde de Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

Suite Francesa de Irene Nemirovsky (Dom Quixote)

Eu sou a Charlotte Simmons de Tom Wolfe (Dom Quixote)