terça-feira, 25 de junho de 2013

A ULTIMA CRIADA DE SALAZAR de Miguel Carvalho (Oficina do Livro)


“ Uma ditadura é um estado em que todos têm medo de cada um e cada um tem medo de todos” Alberto Moravia

Desta vez foi diferente. A sugestão de leitura desta semana é especial. Primeiro porque é mais um livro de um querido Amigo. O Miguel Carvalho, como sabem os que vão acompanhando as minhas indicações de leitura, é um dos meus vícios literários. Seja nas obras que já publicou e das quais já por aqui se falou, quer seja na Revista Visão ou no blogue “A Devida Comédia”. E foi também diferente porque tive a honra e o privilégio de participar na apresentação pública do livro em Guimarães, no passado dia 21 no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, com a presença dos brilhantes Esser Jorge e Francisco Camacho que veio representar a editora. O Miguel é um escritor especial. Vê o que nos conta de uma forma particular. A escala da sua escrita é sempre a humana. Retrata a realidade, seja ela uma paisagem, um ambiente ou uma personagem de uma forma que é sempre norteada por um profundo sentido de verdade e de humanidade. É o caso deste livro. É um livro especial. Extraordinariamente bem escrito, com uma coerência narrativa e um ritmo absolutamente perfeitos, é o exemplo acabado do livro que se lê de um fôlego. Foi de facto o meu caso. Abri-o e só o pousei depois de terminar. O tema e as personagens ajudam, claro. Os últimos anos do regime de Salazar, observados a partir de um microcosmos que foi a sua residência oficial (S. Bento e o Forte de Sto. António do Estoril) e pelos olhos de quem o servia. A D. Rosália, um verdadeiro tesouro de memórias intactas, guia-nos pelo universo particular dos últimos anos da ditadura, com uma visão apolítica da casa onde residia o poder que comandava o, à altura, Império Português. De entre o flagrante contraste entre a dimensão do império até à pequenez do mundo privado do ditador, acompanhamos uma história que em qualquer contexto não deixa de ser uma portentosa tragédia clássica. A queda (e aqui esqueço o episódio da cadeira) de um mito. Toda a descrição dos últimos tempos de vida de Salazar, mas sobretudo a gigantesca encenação que é feita para manter as aparências, chega a parecer irreal. E de certa forma é. É uma realidade que não existe, em absoluto contraponto com um país pobre, pequeno e abandonado à sua sorte, onde apenas as elites contam. É neste equilíbrio delicado e que nunca abandona que o Miguel consegue dar uma imagem de um pais e de uma ditadura em queda, sem nunca cair no que seria fácil, o tomar partido. É um retrato de um homem incontornável no Séc. XX português, feito a partir de dentro. Um quadro pintado em proximidade. Mas mais do que Salazar, e para além da D. Rosalia este livro é Miguel Carvalho em estado puro. Não o tinha dito ainda mas digo-o aqui. É o livro de que mais gostei. Até porque também é um romance, com personagens reais. A fazer adivinhar o que, eu e outros tantas vezes lhe pedimos, que faça um desvio no caminho da ficção, onde de certeza brilhará. Estivesse eu certo de muitas outras coisas como estou disto. Não percam tempo. Comprem e leiam. Vale mesmo a pena!

Boas Leituras!

Na Mesinha De Cabeceira:

MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier(Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
A QUESTÃO FINKLER de Howard Jacobson (Porto Editora)


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