terça-feira, 8 de abril de 2014

Portugal, A Flor e a Foice de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

“Dizem que temos valor (os portugueses), mas nos falta dinheiro e união; e todos nos prognosticam os fados que naturalmente se seguem destas infelizes premissas. ” António Vieira

Uma obra que esperou quarenta anos para ser publicada em Portugal. Um livro que se devora autenticamente.  
Já o tenho referido muitas vezes em conversa com amigos: o “normal”, hoje em dia tornou-se extraordinário. É verdade. Cada vez que alguém vê as coisas de modo aparentemente normal, as retrata de forma normal e olha de forma normal para a vida, isso parece absolutamente extraordinário, habituados que estamos a que todos sejam tão absurdamente inteligentes, tão desmesuradamente acima do que por vezes conseguimos entender, tão afirmativamente criativos e inovadores, que, quando alguém nos mostra, o que é significativamente mais difícil, uma realidade tal qual ela é, ficamos inexplicavelmente espantados. Numa sociedade repleta de comentadores, analistas, especialistas e outras entidades que continuamente interpretam e reinterpretam a nossa caminhada colectiva enquanto nação, continuamos a fazer uma ideia romantizada e pobre da realidade histórica do País. Seja ela a que nos contam por diversas fontes, a Fundação de Portugal ou o Processo Revolucionário Em Curso. Esta obra de José Rentes de Carvalho, que diga-se desde já, confirma em absoluto tudo aquilo que ao longo da leitura da sua obra por aqui vou dizendo, é no mínimo indispensável para se ter uma noção mais concreta do atavismo português. Descontando o facto do conhecido temor nacional a quem possa ter opiniões fortes e consolidadas, mas com a desculpa que dão quarenta anos de distância do acontecido, é para mim difícil ter opinião sobre todos os que recusaram a publicação desta obra que afirma José Rentes de Carvalho, uma vez mais como detentor de um assustador poder de escrutínio sobre o que nos rodeia. De facto, o tom (e alguns factos), são tragicamente proféticos e tem tanta ou mais relevância para compreendermos este presente resgatado em que nos debatemos. Ao olhar que se adivinha apaixonado mas sempre descomprometido que Rentes de Carvalho nos oferece sobre tudo o que antecede e provoca a Revolução dos Cravos, ao que nela se contém de engano e hipocrisia, não podemos nem devemos ficar imunes. Escrito de forma superior, com um ritmo e um encadear de factos interessantíssimos, com um olhar sempre no todo sem no entanto descurar pormenores (na sua maior parte de um humor impagável), podemos afirmar sem a mais pequena hesitação que este livro é de leitura obrigatória. Assim como se pode temer abrir uma garrafa de um vinho antigo, guardada durante quatro décadas, com o receio de que tenha azedado com o tempo, também se pode e deve manifestar o espanto pela frescura, actualidade e pleno sabor que todo este magnífico livro nos oferece. E, no meu caso particular, que o digo muitas vezes, ficamos com a certeza em forma de letra, de que não basta ter razão. É preciso saber merecê-la. Muito obrigado José Rentes de Carvalho por mais uma lição sobre nós mesmos, que tanto andamos precisados.


Boa Semana e Boas Leituras !!!
Na Mesinha De Cabeceira:
A ILHA DO TESOURO de Robert Louis Stevenson (Clube do Autor)
ILHAS NA CORRENTE de Hemingway (Ed. Livros do Brasil)
A CASA NEGRA de Peter May (Marcador)
MIRAGEM DE AMOR COM BANDA DE MUSICA de Hernán Rivera Letelier (Quetzal)
ARCO-IRIS DA GRAVIDADE  de Thomas Pynchon (Bertrand)
A CONSCIÊNCIA E O ROMANCE de David Lodge (ASA)
C de Tom McCarthy (Editorial Presença)
O JOGO DO MUNDO de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
DIÁRIO PARA ELIZA de Lawrence Sterne (Antígona)
A RAPOSA AZUL de Sjon (Cavalo de Ferro)
À MESA COM KAFKA de Mark Crick (Casa das Letras)
LISBOA (A cidade vista de fora 1933-1974) de Neil Lochery (Editorial Presença)
FUGAS de Alice Munro (Relógio D´Àgua)
DANUBIO de Claudio Magris (Quetzal)
OS ANEIS DE SATURNO de W.G.Sebald (Quetzal)
ADMIRAVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley (Antigona)
OS VELHOS DIABOS de Kingley Amis (Quetzal)
TELEFÉRICO DA PENHA (IMAGINÁRIO E REALIDADE) de Esser Jorge Silva (Edições Húmus)
LIBRA de Don DeLillo (Sextante Editora)
CRÓNICAS DO AUTOCARRO de Manuel Jorge Marmelo (Ed. Autor by Oporto Lobers)
RELATÓRIO DO INTERIOR de Paul Auster (ASA)
AMSTERDÃO de Ian McEwan (Gradiva)
ALFABETOS de Claudio Magris (Quetzal)
PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS de Afonso Cruz (Alfaguara)

1 comentário:

Fernando Lopes disse...

É isso mesmo, Sr. Gonçalves. Este livro tem uma dimensão que ultrapassa a história, é um tratado sobre esse estranho fenómeno a que chamamos «portugalidade».