sexta-feira, 1 de outubro de 2010

a máquina de fazer espanhóis de valter hugo mãe (objectiva)

“só damos pelo envelhecimento dos outros” andre malraux

pensei escrever a crónica desta semana integralmente em minúsculas. por razões óbvias. é a marca registada deste autor. antes de entrar no livro propriamente dito, permitam-me algumas considerações prévias. como em muitas coisas na vida, o excesso de proximidade mata o respeito e muitas vezes a admiração. tem sido assim a minha relação de leitura com a maior parte daqueles a quem englobo na categoria de “autores portugueses vivos”. muitas vezes, senão a maior parte, acabamos por ler e ouvir estes autores a dissertarem sobre a sua obra com uma certa sobranceria e a serem corporativamente glorificados uns pelos outros. não desminto que essa impressão, era a que tinha deste autor. ouvi e li algumas entrevistas dele e li também suficiente criticas sobre a obra. o ambiente literário indígena, muito por causa disto, faz-me “pele de galinha” e põe-me em modo automático de rejeição. sei que é um preconceito parvo (como quase todos os preconceitos). a somar a isso há ainda alguns artificios de estilo, como escrever em minúsculas (ou sem pontuação) que me cheiram logo não a arte mas a marketing. de todas as formas, este vinha recomendado e emprestado por um grande amigo e compadre leitor, pelo que, “fui ver como era para contar como foi”. assim, tendo partilhado esta minha visão que enferma destes defeitos, tenho-vos a dizer que gostei. e gostei bastante. e, se a personagem do autor me causava alguma dúvida, e reporto-me a tudo que acima disse, também tenho que ser justo e dizer que valter hugo mãe (que, para utilizar a piada mais óbvia é hugo por parte da mãe, e mãe por parte do pai J) é um escritor com maiúsculas. este livro merece ser lido e mais do que isso mereceu ser escrito. é um retrato íntimo da velhice, das grandes perdas e pequenas vitórias que lhe estão associadas. não é lamechas, não é falsamente erudito, não é pretencioso, e sobretudo fala-nos de um caminho que pode ser o nosso. é bom ter surpresas assim. e acima de tudo, como vou aprendendo aos poucos, não se deve “negar à partida uma ciência que se desconhece”. este senhor tem livros dentro dele. e mais do que fazer espanhóis, fez um bom livro, (e aproveitando uma ideia do próprio livro,) é uma obra “com metafísica”. leiam e digam coisas. boas leituras!

para a semana: a sombra do vento de carlos ruiz zafón (dom quixote)

na mesinha de cabeceira:

el ingenioso hidalgo don quixote de la mancha de miguel de cervantes y saavedra

as benevolentes de jonathan litell (d. quixote)

peregrinação de enmanuel jhesus de pedro rosa mendes (d. quixote)

a casa quieta de rodrigo guedes de carvalho

2 comentários:

Dalaila disse...

esta tua crónica, é mesmo tua, não que as outras não sejam, ams esta és tu em tudo e mais do que em tudo, escreves-te tb para ti e não só para os outros....

Tiago M. Franco disse...

A reconstituição histórica de Portugal Salazarista, a critica a igreja, (se Valter Hugo Mãe tivesse a projecção mediática que tem Saramago o que a igreja não diria) a critica ao falso culto aos mortos, mas sobretudo, a magnifica e arrasadora critica aos lares fazem deste livro uma obra magnífica. Já que falamos dos ditos autores vivos, quanto a mim este é um dos melhores, se não o melhor. Talvez tenho um problema: o que escreve incomoda muita gente.