quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O PINTOR DE BATALHAS de Arturo Pérez-Reverte (Edições Asa)

Em certo tipo de escrita, particularmente na crítica de arte e na crítica literária, é normal depararmo-nos com longas passagens que são quase inteiramente desprovidas de sentido…”
George Orwell (1903-1950)


Este é, seguramente, o mais autobiográfico livro de Arturo Pérez-Reverte, o espanhol mais lido do mundo na actualidade, estando a sua obra traduzida em 29 línguas.
É autor de uma vasta obra onde pontificam romances históricos e a sua mais famosa personagem é o Capitão Alatriste. Dos que li, comecei pelo “O Clube Dumas” que deu origem ao filme “A nona porta”, passando por “O Mestre de Esgrima”, “A Rainha do Sul”, “O Cemitério dos Barcos sem Nome” todos eles excelentes.
O autor, ele próprio ex-reporter de guerra, neste “O Pintor de Batalhas” cria um universo perturbador, com memórias de cenários de tragédia, massacre e conflito.
A personagem principal, André Faulques, retirada e doente, recria numa pintura mural todos os cenários de horror das guerras, numa tentativa de emprestar sentido ao caos vivido.
É perseguido pela memória da mulher amada e, também por uma muito especifica fotografia que vai pôr no seu encalço um homem com uma obsessão mortal.
É deste encontro improvável entre o seu jurado assassino e o pintor/fotografo que viajando através da arte e do horror cru da guerra este romance se revela arrebatador.
Tem um crescendo pontuado pela improvável relação do homem que quer matar e do homem que já não deseja viver, remexendo em memórias de carne viva. Em todos os cenários de guerra, e guerra de todas as formas, quer a guerra entre nações aos mais violentos conflitos tribais e étnicos do nosso tempo, vemos pelo olhar da câmara de Faulques a morte em todas as suas mais violentas e desumanas situações.
Há um contraponto das estórias dos protagonistas e do próprio fresco que se vai pintando, até um desfecho perfeitamente imprevisível e absoluto.
É seguramente um ponto de referência na evolução da escrita do autor.
Toda a obra de Arturo Pérez-Reverte cresce no sentido da descrição do cansaço e desilusão dos heróis, de jornadas perigosas e sobretudo da morte, num registo pessimista e negro da realidade. É um exímio contador de histórias, e debruça-se também com grande brilhantismo sobre a História de Espanha e a tradição dos seus heróis mais ou menos anónimos.
Qualquer dos livros de Arturo Pérez-Reverte é uma boa introdução à sua obra, e estou certo, que, assim como para mim o é, também para qualquer amante de bons livros e estórias bem contadas se tornará um autor de culto.

PARA A SEMANA: MENOS QUE ZERO de Bret Easton Ellis (Edição de 1988 do Circulo de Leitores)

NA MESINHA DE CABECEIRA:
Continuam:
EU, ANIMAL de Indra Sinha (Difel)
EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL de Miguel Esteves Cardoso (Asírio & Alvim)
NO CORAÇÃO DE ÁFRICA de William Boyd (Casa das Letras)
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS de Markus Zusak (Editorial Presença)
Entra: O SIMBOLO PERDIDO de Dan Brown
Lido: A VERDADE de Edward Docx (Editora Civilização)

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